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Da vitalidade de "Le Million" ao envelhecimento de "La Chienne"

O tom musical, em movimento de opereta, qualifica o decurso da ação em "Le Million", quando as própria canções criticam e interpretam o desenrolar da trama simples e linear, apesar dos quiproquó, dessa admirável realização.
Vinte e oito anos passados e CIair continua bem vivo. Vivo e ainda atuante no momento, e vivo também através de suas antigas (e algumas clássicas) fitas, que, reassistidas agora, provam uma perfeita capacidade de resistência à erosão do tempo.

Poucos cineastas tem a grandeza de Clair, cuja obra, em sua maior parte, mantém, passados os anos, o mesmo frescor. É o que permite observar a retrospectiva organizada pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna, que dedicou um bom número de programas a seus filmes.

“LE MILLION”

“Le Million" narra em compasso ligeiro a história singela de um bilhete de loteria premiado que se perdeu: a procura e a pequena fábula do homem subvertido pela riqueza. Um flash-back cobre o desenvolvimento da fita quase por inteiro, contrapontuando a chegada dos vizinhos pelo telhados e espiando a festa pela clarabóia.
A sátira está presente a todo momento, aqui, ao contrário de em “À Nous La Liberté”, menos diretamente às instituicões, à sociedade, e mais ao homem, cujas pequenas ou grandes ambições materiais desfecham um estado de desequilíbrio que tornam seu comportamento caricato.
O ritmo é extremamente dinâmico, estando a ação sempre a evoluir mediante uma opção eminentemente visual do movimento. O ápice e a confusão e a correria na ópera, todos em busca do casaco do tenor, que tem num bolso, sem que ele saiba, a "sorte grande". Nesse ponto, o filme de René Clair parece ter influenciado em parte a concepção de Sam Wood para as sequências semelhante e o paroxismo de um clima de non-sense em “Uma Noite na ópera", um dos maiores sucessos dos irmãos Marx.
Por outro lado, o Chaplin de “Tempos Modernos”, que também viria a se inspirar em outra realização de Clair, "A Nous la Liberté”, com o fim de fabular a situacão-conflito homem versus máquina, utiliza a mesma idéia da correria com o casaco, na hora da penosa luta da entrega do frango ao freguês rabugento.
E o final de “Le Million" é a euforia, o congraçamento geral na alegria de viver. De "Le Million" a "À Nous la Liberté”, da orgia alegre a frugalidade simples, temos os dois pólos entre os quais oscila e se caracteriza o anarquismo de René Clair na época.

RENOIR ENVELHECE

"La Chienne”, embora não seja tida em conta de obra-prima, nem, como um dos maiores triunfos artísticos de Jean Renoir, não deixa, entretanto, de ser considerada pelos historiadores uma fila de alguma importância: um dos primeiros msrcos da famosa série realismo noir, que se estenderia durante a fase que antecedeu o segundo conflito mundial, época de fastígio para o cinema francês. Bastante inferior ao que Renoir extraiu de “A Besta Humana”, baseado no romance de Zola, esta sim, realização de autêntico valor nesse terreno.
Narra “La Chienne" a velha história do homem pacato de meia-idade, já solidamente acondicionado ao regime burguês, que vem a ser seduzido por uma mulher da dita "vida fácil", surgindo em papel secundário o clássico gigoló para completar a habitual triangulação e gastar o dinheiro do amante ingênuo. Este, no desfecho, já arruinado e desmoralizado, tendo perdido o emprego por desfalque, ao descobrir a farsa em que participava, mata a mulher e o acusado e executado pelo crime é o outro. Ao contrário do código de produção vigente em Hollywood, no qual é proibido levar o êrro judiciário até as últimas consequências, o cinema francês possuía inteira liberdade para assim solucionar o argumento. E o verdadeiro assassino termina a fita pedindo esmolas na rua.
O ritmo já completameme caduco imprimido pelo metteur en scène, não move, hoje em dia, o espectador mais exigente. As cenas se sucedem sem maior interesse, nunca chegando a evidenciar um critério de formulação mais vigoroso para qualquer passagem.
O próprio "realismo", tão decantado, projeta-se apenas como um parti-pris da fabulacão literária, jamais como consequência de integração dos recursos cinematográficos. Não existe um complexo de ambiencia que ofereça densidade a visualização do enrêdo, apesar de certa unidade na construção dramática.
Fator secundário, a atuação dos intérpretes é o aspecto mais louvável. Michel Simon, no protagonista, domina o elenco, em papel que lhe assenta bem em tôdas as possibilidades de variações histriônicas. Janis Marèze, falecida pouco depois, compõe com naturalidade e equilíbrio o seu tipo. E Georges Flamant, ator que em seguida seria bastante utilizado em filmes do gênero, porta-se com destaque, feita a ressalva quanto à marcacão exagerada de suas reações em alguns trechos.

Tribuna da Imprensa
10/09/1959

 
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