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Deus e o diabo na terra do sol

"Mas que o destino é do homem. Não é de Deus nem do diabo."


Eis a chave estrutural: dialética & interpenetração realidade x mística, corpo x mito, deus x demo - um sempre se transformando no outro: Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas - a fonte. Ou Buñuel, ou o western, ou Godard, na superestrutura. De tudo isso, sugerido aqui e ali, e do talento de Glauber Rocha, bem amparado por uma equipe eficiente, saiu Deus e o diabo na terra do sol, esmagadoramente o maior filme brasileiro já realizado.
Deus e o demo são a mesma pessoa e estão no homem; dependem das suas formulações simbólicas. Não será o diabo o sacerdote negro que, numa das cenas mais belas do filme, com os seiscentos contos (ou trinta dinheiros) seduz o matador Antônio das Mortes, o cara de Cristo? O mesmo se poderá dizer da alienação mística, ainda eivada de fetichismo, e que mais amplia a impotência para a luta contra o desequilíbrio socioeconômico.
Nisso tudo, no entanto, Glauber Rocha não é discursivo nem demagógico, ao contrário de outros cinemanovistas que muito fazem por rotular reivindicações ou imprecações a qualquer preço. A sua realização é delirante, mas lúcida - consciente dos fatores objetivos que alimentam um ponto de vista pessoal, da câmera. As influências, palpáveis em várias sequencias, não traduzem mera imitação: evidenciam o estágio autônomo da assimilação. Mesmo porque, entre uma e outra invocação, o cineasta inventa furiosamente, e Deus e o diabo na terra do sol é isso, antes de mais nada: um filme de invenção. Nesse sentido, o ponto máximo da criação é a cena do massacre dos beatos por Antônio das Mortes: quando este começa a atirar, repetem-se os planos idênticos do matador na mesma posição, ao som dos gemidos, gritos e preces, com a interpenetração dos corpos dos mortos e feridos amontoando. E o duelo aberto, em descampado, entre o mesmo Antônio e Corisco, é também antológico, tomado de início em long shot, ambos correndo; depois os planos se aproximam, se cruzam - a morte e a correria infinita de Manuel até o mar. Desfecho altamente alegórico para uma fita que é toda alegoria.
Outro aspecto a destacar no estilo do diretor é a crueza. Poucas vezes a encontramos tão aguda, tão incisiva num espetáculo cinematográfico. Na escadaria de pedra, caminho dos penitentes, o protagonista, sob a vigilância do beato Sebastião, carrega uma pedra de cem quilos na cabeça, e isso é filmado com todos os detalhes, numa frieza documental. No altar do sacrifício, não se vê por inteiro a criança que será sacrificada com vistas à purificação de Rosa, mas divisam-se, na lentidão dos movimentos, nos preparativos e hesitações, as suas pernas se debatendo rente ao peito de Manuel, que, afinal, abre o corpinho com o punhal - o mesmo punhal com que Rosa, numa cena quase toda focada em contre-plongée, liquidará com o beato negro. E há a orgia sagrada e pagã na casa que é invadida, e seus habitantes chacinados: comemorava-se um casamento; os cangaceiros devoram comida e bebida; Corisco possui a noiva em plena sala, enquanto o noivo, por sua ordem, é castrado e depois colocado numa árvore na clareira, com os braços abertos em cruz. É uma cena de espírito buñeliano, com os miseráveis girando, o piano tocando e Rosa rondando a sala, com a grinalda de noiva na cabeça.
Shakespeare no cangaço. Alguns dos papéis são de porte shakespeariano. Antônio das Mortes, com sua metafisíca do mal, seu destino infalível. Corisco, com sua ética vingadora, sua ética suicida. E o beato Sebastião, comandando o desvario místico, a poesia redentora das massas. Não são personagens definidos realisticamente, nem parámetros sociais, sociológicos ou socialistas. Enfeixam uma série de injunções - catalisam as conjunturas, codificam de maneira complexa as convergências dialéticas entre o humano, o geográfico, o imaginário e o econômico. Mas, em papéis tão complexos, difíceis, jamais vimos em nosso cinema urna equipe de atores com performances tão precisas, admiráveis, sem a menor dissonância.
Um dos problemas mais graves do cinema brasileiro foi resolvido de modo surpreendente. Geraldo Del Rey, sincero, convincente no vaqueiro Manuel, depois Satanás; Othon Bastos, magistral como Corisco, o diabo louro, sucessor de Lampião, com momentos fabulosos de inflexão & gesticulação; Maurício do Valle, como Antônio das Mortes, a presença física e ética mais impressionante e positiva, e bastante firme nos diálogos difíceis, de antiambiente, de anti-realismo; Lídio Silva coníere toda a necessária imponência ao beato Sebastião, a veracidade nos detalhes, a carga mística do personagem;
Yoná Magalhães, segura no difícil papel de Rosa; e Sônia dos Humildes proporciona a Dadá, mulber de Corisco, a necessária carga muda e soturna, no contraponto silencioso, inconscientemente lésbico, do ethos alienado e alucinado. Desconhecemos o ator que, também com eficácia, compõe o personagem de ligação da fábula: o cego Júlio - o cego cantador que sublinha a história.
Bastante valorizada sai a música de VillaLobos na imagem e montagem de Deus e o diabo na terra do sol - bastante valorizada a sua contrapontuação com as cantigas populares. O fundo sonoro é rico e funcional ao contexto imagem-movimento. E também a mencionar, o trabalho fotográfico de Waldemar Lima, às vezes em padrões eisensteinianos, noutras revitalizando a grande tradição do plano americano do western e, ainda noutras, a câmera na mão procurando dar maior acuidade à penetração e formulação do comportamento - ver urna realidade de dentro, sem os artifícios preestabelecidos.
Se conhecemos as dificuldades técnicas e humanas da indústria do cinema no Brasil, maior mérito ainda se concederá ao resultado obtido por Glauber Rocha e sua equipe - milagre que somente a inteligência brasileira, a sua capacidade de improvisação, poderia concretizar. Temos um filme de inventor, válido em qualquer parte do mundo onde a sétima arte esteja evoluída. Passaporte para a história, não só do nosso cinema, mas do próprio cinema.

Jornal das Letras
01/04/1964

 
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