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Os dez e 8 e meio

Oito e meio é a suma suprema de Federico Fellini, um esforço notável de auto-superação depois do apocalipse de A doce vida e de seu despretensioso episódio para Bocaccio 70. Não adianta inquirir as deficiências filosóficas de Fellini - sua capacidade de formulação cinematográfica a tudo supera. Sob o signo do surrealismo, sob o signo de Marienbad, sob o signo da sua própria biografia, ei-lo renovado, num transe de vanguarda, com a maturidade que muitos vanguardistas não conseguem espelhar. Oito e meio, além da autobiografia vivencial e espiritual, é um filme sobre o filme (e este filme é também um filme sobre o filme), num desdobrar infinito de essências e pseudo-essências.
Isoladamente, o filme contém sequências de alto impacto: os meninos assistindo às circunvoluções da gorda Saraghina na praia; o encontro com o cardeal na sauna; o carrossel final. Com a fotografia de Giarmi di Venanzo, rica em efeitos, e a música do permanente colaborador Nino Rota, reaparece Marcello Mastroianni, encarnando mais uma vez o próprio Fellini. É todo ele traduzindo a angústia e as perplexidades que o artista, impotente, não consegue verter em sua verdade. Mas, por cima de tudo, Fellini põe o seu sentido humanismo e, ainda acima, suas imagens densas de significação, de simbolismo. Escapar ao gratuito, querer, dentro do jogo forçoso, mostrar que a arte não é só um jogo. E, consequentemente, o fracasso. Mas, nesse fracasso, moram o homem e a imperfeição.
Um filme é um filme é um filme, por isso chama-se
Oito e meio, nada mais do que isso - o artista não pode, sem desejar fugir à verdade contingente, ir além da simples notação: 8 1/2. Dentro da maldição de Marienbad (Resnais mora no polo oposto), Fellini não pode nem quer aceitar a meta do jogo perfeito. Ficou apenas ciente, consciente. Freneticamente individualista, está impossibilitado de aceitar os termos da responsabilidade coletiva, nem pode aceitar a redução fenomênica da linha de Antonioni - o mínimo-múltiplo-comum da burguesia em situação.
Para Fellini, de uma forma ou de outra, Deus ainda existe: é melhor se entorpecer na alienação doque parar no vazio. É uma opção, feita com grandezapor um artista extraordinário. A salvação está emnós mesmos assim como, do outro lado, está o inferno sartriano. Até quando? É esperar o nove, ou o nove e meio. Afinal, vale o filme e não a indagação em si. Arte longa, vida breve.

Jornal das Letras
01/04/1965

 
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Revista Leitura 30/11/-1

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Jornal do Brasil 24/03/1957

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