Logo no início, o protagonista – Dr. Borg – tem um sonho impressionante: está numa rua deserta, perto de um imenso relógio sem ponteiros, quando uma carruagem sem cocheiro traz um caixão; este tomba e, de dentro, sai o seu próprio cadáver. Trata-se de uma das típicas seqüências-pauta, como aquela outra fabulosa de Noites de Circo, com as quais o cineasta Ingmar Bergman gosta de brindas o espectador: um intróito de impacto – um efeito de choque em transe alegórico. Os Morangos Silvestres, num complexo de recursos altamente simbólicos, procura, através de um critério indutivo de sugestionar o público, elevar o homem à relatividade dos fatores em sua experiência – desde os eventos mais prosaicos, até as profundezas das especulações do espírito. A fabulo do Dr. Borg (magistralmente interpretado pó Victor Sjostrom, o maior diretor sueco do cinema mudo) é a fabulo da intolerância. É a decomposição dos valores absolutos, frente à dialética do conhecimento. Os problemas de tempo, com uma lentidão funcional, envolvendo ritmo e duração física e psicológica da imagem – e aqui interpretação do flash-back e das seqüências oníricas, com o fio de ficção no presente. Tudo magnificamente modulado no filme. E, ao fim, reconciliado consigo mesmo, o protagonista vai dormir, como se fosse morrer tranqüilo: o egoísmo e as abstrações convencionais, cederam à certeza das dúvidas. Os Morangos Silvestres (ou simbólicos) constitui uma das maiores obras de Bergman, por seu turno, um dos maiores cineastas de hoje.
Correio da Manhã
07/10/1962