Após haver realizado alguns curta-metragens, a estréia de Jacques Demy, com Lola, coloca em circulação um dos melhores cineastas do nôvo cinema francês. Hommage ao grande Max Ophüls: foi assim que êle quis ver concretizada a transfiguração dêste seu filme. Leveza, fluência, fantasia, uma espécie de estação de encantamento para o olhouvido e, principalmente, invenção - tudô isso Lola transmite. E tudo também ao escorrer de uma cristalina naturalidade, embora o rigoroso jôgo simétrico de encontros e coincidências que alimenta e delineia história e personagens.
A mulher-título banhada num filme-sonho, onde incidem vários fatôres formativos: a intensa e inusitada claridade que invade várias seqüências, cunhando uma indefinida paruta de brancura - um dos pontos chaves dos efeitos fotográficos; a precisa coadunação rítmica entre os diálogos incessantes e os movimentos também incessantes de câmara e de personagens. Sem falar no carrossel, que marca a cena de maior porte encantatório e finaliza em ralenti - o carrossel que já constitui uma grande tradição para o ôlho acrobático da câmara, desde o Epstein, de Coeur Fidèle, até eclodir em côres daquela outra Lola revolucionária do Ophüls - a fabulosa Montés.
Correio da Manhã
25/09/1963