Rosselini é o vulto do cinema italiano, cuja obra e personalidade mais tem despertado debates e controvérsias. Gênio para uns, charlatão para outros – acreditamos que, ao fim de tanta celeuma, a definição de sua capacidade se situe num meio termo. Se, evidentemente, ele não pode ser ignorado, por outro lado, as realizações que até agora levou a efeito estão longe de lhe garantir uma posição de vanguarda entre os cineastas italianos. Qualquer um de seus filmes empalidece frente as quatro maiores películas da dupla De Sica-Zavattini (Sciucia, “Ladrões de Bicicletas”, “Umberto D”, “Milagre em Milão”), bem como pairam num plano inferior ao melhor Castellani (“Romeu e Julieta”, “Sob o Sol de Roma”), ao melhor De Sanctis (“Roma às 11 horas”), ao melhor Germi (“O Caminho da Esperança”), ao Fellini de “La Strada” ou a qualquer das duas fitas de Viscomti aqui exibidas (“Obsessão” e “Senso”) – sem falar em veteranos como Blasetti ou Genina.
Se “Roma Cidade Aberta” e “Paisa” criaram uma sensação de choque no mundo inteiro, graças ao brutal realismo que aflora direto em ambas as produções, tal se deve a terem sido uns dos primeiros trunfos do movimento neo-realista a serem postos em circulação. “Paisa”, reassistido há menos de um ano, já tinha perdido grande parte de sua significação como obra atuante, ficando apenas na função de documentar historicamente um movimento de revitalização cinematográfica de um país e que, malgrado seus detratores, se reveste da maior importância, não somente para a Itália, e nem apenas também por uma série de filmes de inobjetável mérito, mas por ter permitido que um bom número de novos cineastas viesse à tona, a fim de propiciar um desenvolvimento fecundo de seu talento e de sua capacidade.
As últimas tentativa de Rosselini se atêm ao objetivo de desenvolver um cristianismo de cunho pessoal. A guerra acabou, porém o mundo permanece ainda num período caótico. Somente que, agora o caos perdeu a sua contextura física para prevalecer no terreno espiritual – a irresponsabilidade moral dos homens, caracterizada pela inconseqüência das suas ações no âmbito social e a indiferença para com qualquer problema ético, desde que não corra em paralelo com a solução dos seus próprios.
“Europa 51” se constitui talvez em seu melhor filme, apesar de não ser uma fita de maiores conseqüências. Ao contrário de “Viagem à Itália” que, malgrado os elevados encômios da crítica francesa, se nos afigura como um rotundo fracasso, pois o ritmo tornado intencionalmente lento, a fim de criar uma sensação de lassidão ou monotonia através da fita, produz efeito contrário, criando a mesma sensação, porém mediante o próprio espectador, impotente que foi o “metteur en scène” de conferir um cálido clima psicológico ao desenrolar das imagens.
Em “Europa 51” existe uma densidade psicológica mais intensa e funcional, a partir, principalmente, da metade para o fim. Ingrid Bergman, dona absoluta do filme, foi, por outro lado, muito bem dirigida, tendo-se evitado todos os seus excessos de super-representação. A mulher que tomada de remorsos pelo suicídio do filho único decide, após uma contundente crise de consciência, levar uma existência dedicada ao amor ao próximo, a fazer o bem puramente sem o menor desdobramento de intenções regendo a consumação dos seus atos. Para o mundo inconseqüente que a rodeia tal atitude é incompreensível, sem sentido. Torna-se, portanto, vítima de hostilidades e desentendimentos, inclusive da mãe e do marido (Alexandre Knox), este o típico “bom burguês”, que provavelmente se julga bom por ser um homem normal. Mas (perguntaríamos juntamente com Rosselini), de que vale a normalidade quando o seu gabarito é o de um meio inteiramente irresponsável tanto ética, ontológica, como socialmente?
Apresenta a película alguns bons momentos de cinema, como, por exemplo, a passagem da fábrica, com a protagonista assistindo ao movimento e ruído incessante das máquinas, ou então a sua entrada na sala do hospício para mulheres, no qual fora internada, com a câmera realizando, através de um movimento circular, um apanhado bastante interessante das cabeças das companheiras de claustro.
A cena em que também fica no quarto da jovem meretriz, que falece, vítima de um derradeiro ataque de hemoptise, se reveste de intensidade dramática, com uma extraordinária tomada do perfil da morta em grande primeiro plano. Aqui, Rosselini atinge ao melhor Duvivier, lembrando, o tom isolado da seqüência, o de realizações como “Vítimas de Destino ou “La Charrete Fantôme”. Outrossim, com os trechos decorridos entre as crianças pobres estamos perto de Castellani e a cena final – a gente humilde saudando a santa (ou louca) – é nitidamente chaplinesca, via De Sica.
“Europa 51” não deixa, por seu turno, de ser pessimista, caótica outro tanto – já que não apóia nenhuma solução construtiva, isto é, evidencia uma descrença no homem através do desprezo para com uma perspectiva de caráter objetivo no focalizar a problemática que lhe é inerente. O partido comunista surge figurado num personagem que, embora tenha influenciado a protagonista em seu novo rumo, virá futuramente se revelar como um elemento que se serve das reivindicações proletárias para o progresso estrito de suas ambições particulares. Nesse ponto caímos no lugar comum de enquadrar o tema, apesar de não se ter chegado ainda às conclusões imbecis da maioria da produções anti-comunistas de Hollywood.
Jornal do Brasil
08/07/1957