Ao término, inserida nos títulos que deslizam junto com helicóptero, surge a explicação: “Este filme é dedicado a Hari-Georges Clouzot”. Embora a tradução brasileira do título prejudicasse a filiação assim confessada, transformando Weges (Salários) of Fear (do Medo) em O Camboio do (mesmo) Medo.
O diretor William Friedkin, autor de Operação França e O Exorcista, revela sua admiração inquestionável por Cluzot e sua obra mais famosa – Le Salaire de la Peur – datada de 1953 e detentora do Grande Prêmio do Festival de Cannes do mesmo ano. A admiração parece-nos algo exagerada, pois, em Hollywood, sempre existiram, no gênero, especialistas de porte igual ou até superior do cineasta francês. E o resultado é ainda menos otimista quanto à inspiração que propicia o ato de admirar, porque a fita, em matéria de efeitos e como imitação declarada, não chega à metade do modelo, apesar dos recursos técnicos, hoje em dia – um quarto do século depois – bem mais poderosos.
Diga-se também que ambos os filmes baseiam-se num romance de Georges Arnaud – que não mereceu nenhuma dedicatória. Estamos numa sub-republiqueta da América Latinha. A miséria é total e somente existe fartura no tocante à quantidade de cartazes do caudilho militar. Os guerrilheiros são caricatos, mas fazem explodir um poço de petróleo. Por causa disso, quatro homens pertencentes à marginalia internacional que circula no país, por um bom bocado de dólares, são encarregados de transportar nitroglicerina, em dois caminhões, até o local do incêndio. Na época de Clouzot, o escrete era formado por Yves Montand, Charles Vanel, Peter Van Eyck e Folco Lulli. E ainda havia, de quebra, Vera Clouzot (née Amado). Agora, o time é mais mambembe: o buñueliano Francisco Rabal (do Nazareno e de Viridiana), Amidou, e mais Roy Scheider e Bruno Kremer. Não há mulher pelas imediações.
O transporte da nitroglicerina é cheio de agruras e evolve muitas peripécias. São caminhões velhos andando sobre o lodo, a estrada encharcada, por cima de pontes precárias, prestes a desabar. Ou obrigando os nossos heróis a explodir um tronco de árvore, atravessando no caminho com o explosivo. Enquanto isso, breves flashes-back estão entremeados pelas seqüências e rememoram o passado dos personagens. Enfim, um filme cujo objetivo é apenas divertir o espectador com o suspense e a violência, e que, como hommage, deixa muito a desejar.
A metragem de O Comboio do Medo, mal chega a uma hora e meia. Assim, antes do início do filme, temos dois trailers de Tudo Bem, de Arnaldo Jabor, um trailer do McArthur, com Gregory Peck, um minitrailer de O Desconhecido, de Ruy Santos, anúncios de cigarros, bolos, etc., o jornal do Canal 100 e um documentário sobre a Colméia, onde um cavalheiro de chapelão esbarra em obras de arte atrás de uma mulata tosada à la Zezé Mota. Ninguém sabe por que. Só se sabe que o público deveria ser mais respeitado.
Jornal do Brasil
13/10/1978