A cineasta Agnes Varda é das que melhor representam uma tendência inovadora do cinema francês, surgida na década de 1950, através da revolução que se chamou nouvelle vague. Trata-se da dialética entre o que então, e separadamente, se entendia por documentário e ficção. Ou seja: elaborar um relato mediante a técnica do documentário – ficção documental ou documentário ficcional.
Nos filmes de Varda que conhecemos – Cléo de Cinq à Sept, Le Bonheur (As Duas Faces da Felicidade) e este L’une Chante, L’Autre Pas (Duas Mulheres, Dois Destinos) – repete-se a mesma estrutura, principalmente quanto à semelhança dos dois últimos citados. As imagens fluem, os acontecimentos se desdobram através de uma sensação de distanciamento idêntica àquela que nos sobrevém quando assistimos a um documentário. Parece que o que esta sendo filmado já existe e, assim, não haveria mis-en-scène.
Mas, apesar do estilo pessoal, quase inconfundível, Varda ainda não nos deu a obra maior que tanto empenho fazia prever. Duas Mulheres, Dois Destinos, talvez sua melhor realização, carece também da alta capacidade de impacto que inaugura um comportamento em nossa memória. A maioria dos elementos aciona com sucesso: a fotografia em cores extremamente harmoniosa, a naturalidade e consequente eficácia do comportamento dos atores, principalmente pelas protagonistas Valérie Mairesse (Pauline, depois Pomme) e Thérese Liotard (Suzanne), a música de François Wertheimer e a boa qualidade das letras das canções, nas quais Varda também participou.
Sem falar no roteiro muito bem sacado. A amizade entre duas mulheres que se solidifica através da troca de cartões postais, pois durante um período de muitos anos mal se encontram. Parafraseando uma expressão de Décio Pignatari a respeito de Le Bonheur – “cromos estatísticos da felicidade” – podemos dizer que Duas Mulher, Dois Destinos, entre contradições e descaminhos, documenta a procura e a chegada ao cromo definitivo da felicidade. É esta a última imagem da fita: amizade e amor se fundem.
Jornal do Brasil
20/10/1978