Estamos diante da repetição das rotinas desfechadas por um êxito comercial. Assim, depois de Tubarão, a zoologia cinematográfica toma conta das telas: mais um tubarão, além de gorilas, piranhas, aranhas, e este Tentáculos. Dessa vez, é um polvo imenso que suga tudo de todos numa praia do litoral da Califórnia.
O filme se sustenta regularmente porque a montagem lhe confere uma certa fluência e não há grandes pretensões – aquelas que acabam agravando ainda mais as coisas. E a câmara do diretor, Oliver Hellman, desliza com um mínimo do senso estético. Mas a trucagem é quase precária e o argumento não possui coerência interna. Mesmo dentro de uma história fantástica, há sempre necessidade de verossimilhança. Em decorrência, não seria possível que, depois de tantas investidas do polvão, com várias vítimas, as pessoas continuassem com seus lazares al mare e ainda se promovesse uma regata infanto-juvenil. Ninguém compreende a presença de Henry Fonda, a não ser por um cachet altíssimo. Idem para John Huston, uma das grandes figuras da história do cinema, provavelmente também a faturar para fazer meia dúzia de caretas. Então Shelley Winters – que gosta de “carregar o piano”, para usar a expressão futebolística – domina fácil o elenco.
E o polvo? Ah, o polvo... para garantir vitória do bem sobre o mal, fica estraçalhado no final. E, ao ver aqueles pedacinhos com ventosas, pode-se imaginar que, se tal gigante fosse verdadeiro, a turma das filmagens estaria em condições de se regalar na área culinária. Bastava juntas com arroz e brócolis. Ou até ao alho e óleo – ainda é melhor que o filme.
Jornal do Brasil
03/11/1978