Um poderoso hospital. Seu diretor é Richard Widmark, atolado de rugas e com óculo imensos. Geneviève Bujold é a médica idealista e curiosa, que quer saber o que anda de errado dentro da parafernália burocrática. Estamos diante de um thriller – infelizmente sem a marca de Hitchcock. Doutores e enfermeiras deslizam sem saber o motivo de tanta como causada pela anestesia.
Todos os ingrediente do gênero – um gênero cinematográfico por excelência – reaparecem dentro daquela medida do imponderável que leva o espectador a indagações de menor importância, porém forjando cadeias do impasse. O impasse da falta de assunto muito bem recheado. Enfim, ninguém é de ninguém e todos se viram naquela missão menor do cinema que é a de proporcionar diversão. Para quem? As dúvidas em torno da validade do espetáculo continuam a girar.
Portas, escadas, fios, mesas de operação, tudo traduz pretexto para a heroína se amarrar, dependurar, gritar, correr – e o diretor rente ao seu lado a fim de manter a flama acessa. A inverossimilhança transformou-se em lixo. Nada é sério – a não ser a crispação facial dos atores. Afinal, torna-se preciso inflar as surpresas que surgirão em socorro ou alento ao grand-guignol.
O argumento se pretende engenhoso e finge ensejar uma espécie de expressionismo fora de hora. Há uma modalidade de mocinha cercada de bandidos por todos os lados. Mas, com toda tecnologia fílmica e de conteúdo, o velho critério de surpresas preparadas para o desfecho ainda traduz o trunfo na manga. Por isso, não custa lembrar que o filme deve ser assistido desde o início. E também, desde o início, como tudo se passa em torno de um hospital, há sangue, doentes, corpos decepados ou congelados, de acordo com a receita e chocar e assustar. O diretor Michael Crichton conseguiu dar embalo e embalagem a tudo de modo bem razoável, enquanto Geneviéve Bujold, por incrível que pareça, acredita em seu personagem.
Jornal do Brasil
17/11/1978