Agatha Christie, com seus romances de mistério, representa um ensejo para o entretenimento cinematográfico. Ou até para coisas mais ambiciosas, como, há cerca de 30 anos, foi o exemplo de Rene Clair com a sua versão de O Caso dos Dez Negrinhos (And Then There Were None). É, inclusive, estranho que existam ainda poucas adaptações para o cinema em relação a uma obra tão volumosa como a dela.
A Morte Sobre o Nilo (Death Of the Nile) é um dos seus romances mais lidos embora não tenha, para o gênero, a importância do citado O Caso dos Dez Negrinhos, Assassinato no Orient Express, e o último, Cai o Pano. Porém, o diretor John Gullermin dormiu sobre os louros de uma produção bem cuidada. E o resultado ficou algo decepcionante.
Basta comparar com a recente versão de Orient Express, dirigida por Sidney Lumet, grande sucesso de bilheteria. Essa comparação é bem desfavorável para A Morte Sobre o Nilo. A começar pelos atores que interpretam o detetive belga Hercule Poirot: Albert Finney (no Expresso) e Peter Ustinov. Ambos são bons profissionais, mas enquanto Finney nos apresentava uma caracterização mais humana, com mais garra, Ustinov surge-nos, agora, algo caricato. Atrás dele, um respeitável elenco de velhos e novos atores: Angela Lansbury, Bette David, David Niven, Jane Birkin, Mia Farrow, Olivia Hussey, Jack Warden, Jon Finch, etc. Conseguem dar um mínimo de consistência aos personagens apesar do esquematismo delirante do roteiro de Anthony Shaffer.
Aliás, uma coisa que roteiristas de diretor não perceberam é que deduções, fatos, explicações do livro deglutíveis, tornam-se inverossímeis no cinema. A imagem supera a imaginação em um primeiro grau e exige formulações próprias do veículo. Mas Guillermin conseguiu o milagre de teatralizar o filme. Não há um morceau de bravoure. E, quase ausente das imagens, o Nilo ficou nulo.
Jornal do Brasil
15/12/1978