Estamos diante de um hino à inconseqüência. A pergunta é: para as mulheres se despirem (até parcialmente), por que toda a engabelação pseudo-intelectual? Por que não fizeram logo um pornô-chanchada? Pior filme não seria.
O argumento – anunciado como proposição de um problema transcendental – é simplesmente primário. Clarisse (Norma Bengell) é uma mulher da alta burguesia que desiste do suicídio e vai parar em Atafona – um lugarejo com prata. E o pior é que se trata de praia com pescadores – e as pessoas de bom gosto não agüentam mais ver pescadores. Lá em Atafona, apaixona-se por um negro que trabalha no posto de gasolina (Antônio Pitanga – aqui, pior ainda como ator que como diretor). A saúde, alegria e ingenuidade desde último dão a ela uma nova sensação de curtir a vida. O negro, por seu lado, tem uma namorada que só quer sair de Atafona, deixar de vender caranguejos na estrada. E insufla o namorado para continuar o caso com a mulher rica, a fim de ver se faturam. O drama se desenvolve, a trama é ridícula, e o nosso herói acaba levando pauladas de uma, e, da outra, fogo. E o chamado final surpreendente nem sequer é uma mera blague: é uma autocrítica, uma confissão de falta daquela seriedade de propósitos.
Salvam-se Nora Bengell (à vontade no papel) e o trabalho de montagem que evitou um tédio maior ao espectador. Sibele Rúbia tem um bom corpo. E a Embrafilme, como de praxe, abriu as burras para financiar esta preciosidade – Na Boca do Mundo – que servem ao menos, para novamente demonstrar que, em matéria de cinema (salvo as exceções), ainda estamos pior do que em uísque.
Jornal do Brasil
26/01/1979