Alain Resnais continua dando oelementos, ao cinema, para enriquecer sua História. Desde os curta-metragens - especialmente Tante la Mémoire du Monde - havia demonstrado, de início, que, além de Max Ophuls, ninguém tinha conrferido tanta inventiva ao traveling. Depois, em Hiroshima Mon Amour, inventou o pisca-pisca da memória. Em Ano Passado em Marienbad apresentoa sirruplesmente um dos três ou qruatro maiores filmes da trajetória do que se definia como sétima arte.
Agora, chega praticamente ao mesmo nível com Providence. Um filme fascinante, que flui magistralmente, apesar de vir caregado daquilo que se denomina metalinguagem - uma linguagem cujo objetivo é descerrar as propriedades de outras linguagens. Em linhas gerais, um escritor famoso que vai fazer 78 anos e tem o saudável hábito de tomar pileques, principalmente com Chablis, está concebendo seu último romance, figurando os familiares como personagens. Também vem a ter um pesadelo. As cenas oníricas e de imaginação mesclam-se com as da vida real do escritor, culminando com a comemoração do seu aniversário, ao ar livre, nos jardins da mansão, com a família reunida
A partir dai, Resnais faz o seu inesquecível filme sobre o jogo da arte. Toda arte - sabe-se - entre outras coisas que podem definir seus aspectos, é, antes de tudo, um jogo. O que não é de espantar, pois a própria vida é, um jogo diuturno. Enfim, autores como Huyzinga e Rappoport explicaram bem essas coisas. Resnais mostra, encantatoriamente, como o verdadeiro artista joga com formas; com estruturas e seus elementos. E, por isso, desde a Revolução Industrial, todo grande artista de vanguarda - aquele que ousa, inventa, altera os códigos - é considerado um "hermético". Mallarmé e Marcel Duchamp foram "herméticos'' e Hermes de Trismegisto tremeu, no túmulo, de satisfação O que não existe é o chamado "artista participante" ou "engajado" essa palhaçada demagógica destinada a engabelar editores, marchands ou produtores de cinema.
Em filme de Alain Resnais, elogiar fotografia e décor (Ricardo Aronovich e Jacques Saulnier, respectivamente) torna-se redundante. Talvez mais ainda no caso de um elenco cujos porta-estandartes são o shakespeariano John Gielgud e o impecável Dirk Bogarde. Vale sim, registrar o acompanhamento musical de Miklos Rozsa - magistral, funcional. É uma toada sotmrna, de início quase que despercebida, como se estivesse a apascentar o funeral da lógica.
Jornal do Brasil
16/02/1979