Os Mil Olhos do Dr. Mabuse vem reiterar o que já, aparentemente, se propunha Fritz Lang com o Tigre da Índia: o retôrno ao velho habitat fantástico-expressionista de sua fase clássica. E coincide com o seu retôrno à Alemanha, dotado, como bem observou o crítico Jean Domarchi (Arts-Spectacles), daquela secura que, paulatinamente, foi aduzida ao seu estilo, durante a sua longa fase holywoodiana.
Uma volta consciente à ingenuidade de uma mise-en-scène de há três ou quatro décadas. O Tigre da Índia já podia ser considerado um filme em série expressionista, trazendo o cineasta toda a sua antiga experiência plástica para a côr. Feredon Houveyda, no Cahiers du Cinéma, chegou a denominá-lo de filme abstrato, porque o verdadeiro conteúdo não seria aquêle determinado pelas linhas mestras de um plot folhetinesco, mas, sim, todo um fluente rito visual de côres e formas. Essa denominação de FH apenas deve ser tomada em conta num sentido metafórico, pois, em caso contrário, seria o mesmo que inaugurar uma nova estética, invertendo tôdas as proposições da que aí está, virando os ícones pelo avêsso e trocando todas as concepções de signo & suporte ou elemento & material. Quando muito, seria uma tentativa em conferir foros altamente intelectuais a uma obra que foge dessa espera, porque, devido a um paradoxo real, fitas como O Tigre da Índia ou Os Mil Olhos do Dr. Mabuse, despertam, em grande parte, o maior interêsse de intelectuais especializados no estudo do cinema. Outros, mais amadores nessa pretensão, preferem, via de regra, suar, sofrer duas horas com Rosselini ou Bresson, em busca de uma nova visão do universo do que tomar a sério as correrias e piruetas dos personagens com que, agora, lida Fritz Lang. São algumas contradições não-dialéticas provocadas pela eterna caça aos conteúdos.
O saudosismo de FL é natural e não impede que ele retome, com firmeza, uma linha clássica e rearticule algumas constantes estruturais com alguns novos elementos que a evolução técnica da sétima-arte propícia. E, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se ele, resolutamente, se coloca à margem de qualquer empenho no campo da invenção, da dialética de formas, de processos, evita discutir uma atualidade da linguagem, não iremos, entretanto, e apesar de tal alheamento, encontrá-lo no ocaso de uma completa superação. Os Mil Olhos do Dr. Mabuse vem demonstrar essa sua vitalidade de estilista, essa preocupação de autor, em rigorosas linhas clássicas, na busca de um cinema total, esse cinema que substitui o romance, não só enquanto indagação filosófica sôbre a validez dêste, em condição de arte, porém que leva avante tôda uma especulação com o imaginário, com a fantasia pura. Servindo-se da maior hegemonia material, do apêlo imediato à vista, forjando o efeito emotivo em bases industriais e; no caso de Lang, uma tradição da catarse pela catarse, onde, do folhetim ao fantástico, não se impele o espectador a se pôr em situação, como homem que participa de um universo contingente, mas, sim, instiga a espiral de sua imaginação pela espiral da forma - o ápice do puro divertissement, chegam as fitas, contudo, a ganhar pêso estético. Nesse ponto é que se cruzam o cineasta germânico e Hitchcock, o homem do thriller.
Por outro lado, constatações dessa ordem são ainda bastante insuficientes para as necessidades de um grupo de fanáticos pela última fase de Fritz Lang, estando a maioria entrincheirada no Cahiers du Cinéma. Um deles - Jean Douchet – já em estado superdelirante, a propósito desta terceira aventura do Dr. Mabise, a qual considera uma obra-prima única, emite, em sua farta análise, as mais elevadas e intricadas invocações metafísicas e cosmológicas - algo como a tese sobre o incessante movimento universal – chegando mesmo, no orgasmo da alucinação, a concluir textualmente que o Dr. Mabuse é quem dirige a película e que o seu, conteúdo consiste na sua própria mise-en-scène. Aqui já estaríamos em Mallarmé... ou, quem sabe? - frente à inauguração de um nôvo gênero específico especialíssimo: a forma da forma.
Contudo, o Rei está nu. Não é preciso, para se atribuir o valor merecido ao atual Fritz Lang, uma justificação pseudo-filosófica, suprametafórica, como outros que explicam o êxito artístico de Hitchcock, na base de Pascal, Descartes ou mesmo D'Alembert. O destemor de FL é o de levar até às últimas consequências a sua inspiração anedótica, mas sempre fiel a uma perspectiva essencialmente cinematográfica em sua formulacão. Desde o início, com o íntrépido mau gôsto daquela série de olhos a fazer fundo aos letreiros. Depois, já é o insólito da primeira sequência (e primeiro assassinato) dos automóveis, quase que diríamos, lutando em paralelo, até que o agente de Mabuse dispare o dardo mortal no crânio do repórter e o carro deste fique ilhado no meio da rua. O diretor (também colaborando no roteiro) joga com todos os naturais ingredientes do fantástico e do misterioso: passagens secretas, disfarces, personagens duplos, desaparecimentos e até um controle televisado de tôdas as dependências do Hotel.
A mestria de FL está em conduzir a ação fílmica numa admirável uniformidade rítmica, onde não se denota sequer um plano dispersivo e os personagens vigem na mais absoluta funcionalidade, a partir de seu equacionamento pré-conceitual, segundo a estruturação do roteiro. É propositadamente literário, dentro dessa medida tradicional de uma fita de um bom contador de histórias, embora a fala, sem obter estatura de elemento, um caráter de dinamismo, seja o menos tapa-buraco possível.
Nem também o diretor se esmerou nas características do expressionismo. Com exceção do décor do gabinete do Dr. Cornelius - o vidente – e de um ou outro recurso de luz e sombra, até esse autodespojamento estilístico contribui para a melhor impressão de uma secura. Ao mesmo tempo, a câmara se limita a pequenos e curtos movimentos, sem o menor requinte de deslocações, enquanto os planos médios dominam quase inteiramente tôda a perspectiva visual.
Estabelecido um primado da simplicidade, o segrêdo da mise-en-scène, em Os Mil Olhos do Dr. Mabuse, está naquilo em que o próprio Jean Douchet também observou, de um desencadeamento ininterrupto de imagens como causa e efeito - acão contínua. Aduziríamos que êsse suceder, de ponta a ponta, em causa e efeito, êste último, logo depois tornando-se naquela, demonstra a racionalização mais imediatista do processo. A fórmula simples: causa – efeito, causa até a síntese final que, se quiséssemos navegar nas mesmas águas de alguns arrojados exegetas franceses, diríamos ser a hegeliana. Fritz Lang ou o Dr. Mabuse permaneceriam sob a égide de Hegel, com a analogia à sua macro-estrutura: tese, antítese e síntese. Mas, seria o demasiado complexo para o tão simples. Se o Tigre da Índia era um filme em série expressionista, Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (Die Tausend Augen des Dr. Mabuse) corresponde à sua antítese visual para um filme fantástico-policial.
Jornal do Brasil
12/11/1961