"Sedução Fatal" (Voici le Temps des Assassins) traz Julien Duvivier novamente às telas.
Um argumento dos mais surrados no écran, prato do dia na época áurea do cinema francês, a história da mulher hipócrita que seduz o bom sujeito, que veicula uma série de intrigas, a fim de coroar de êxito os seus planos, ditos maléficos, tudo isso obedecendo a um ritmo linear de narrativa, todos os personagens correspondendo a um tipo e/ ou temperamento padrão.
Incompreensível seria o fato de Duvivier se interessar pela questão, principalmente ao levarmos em conta o denodo com que êle se houve para conferir uma certa dignidade ao filme, podando constantemente as maiores saliências do panorama dramalhonesco que se descortina intermitente aos olhos do espectador. Justamente, tal empenho, vem a provar que êle esperava algo de um "script" sumamente ingrato, destituído de qualquer oportunidade para que se invocassem algumas soluções de maior arrôjo no trato das várias sequências.
O que Duvivier fêz foi mais uma vez provar de sobêjo ser ainda um artesão de primeira qualidade, transformando uma película que seria indigna de figurar em sua filmografia em um espetáculo bem razoável, onde para a necessidade iminente de controlar é que se convergem tôdas as virtudes do "metteur-en-scene".
Auxiliado em grande parte pelo fotógrafo Armand Thirard, consegue manter o desenrolar da trama dentro de um nível sóbrio, muitas vêzes valorizado em seu aspecto visual mediante a boa utilização das tonalidades do prêto e branco, de acôrdo com a ambiência dos diversos trechos em foco. Segue de perto as poses e reações clássicas adotadas pelos atares, sem, entretanto, deixar que o mau-gôsto venha a interferir, mesmo nos instantes mais perigosos, quando tempera devidamente as indefectíveis eclosões de cunho dramático e, paralelamente, obtém um meio adequado de proporcionar um tempo de duração apenas breve às sequências que a elas se reportam. Evita, por outro lado, e em elogiável "tour de force'', a monotonia que se consiste numa ameaçadora resultante quando, nessa luta, é forçosa uma exata noção de equilíbrio para que não se pule de um polo negativo para outro.
Desde as primeiras passagens, surge "in totum" o conjunto das características do antigo cinema gaulês em pleno "thirties": ruas úmidas, alguns tipos extravagantes, ambientes do realismo negro a la Zola, leitos, roupões, combinações, etc. Diríamos mesmo que, não fôsse o evidente apuro de alguns recursos de ordem técnica, seria difícil a um observador comum determinar se a fita era atual ou teria uns vinte anos de existência, tal a impregnação do "velho espírito" que paira por quase todo o seu transcurso.
Além disso, para coroar definitivamente êste simplório retôrno aos velhos tempos, temos a pessoa de Jean Gabin na figura do protagonista, o cozinheiro famoso e bonachão que passa a ficar prisionetro de modo irremediável na teia de sedução que lhe armou a filha de uma ex-espôsa. Gabin, agora já bem sessentão, continua a repetir as triviais caretas que, há cêrca de um quarto de século, lhe garantiam o sucesso frente ao público nas platéias, e, na tela, com as mulheres, fatais ou angelicais, que cruzavam o caminho seu. Em "Sedução Fatal", bem dirigido, bem policiado, êle não está mau, pois o papel até certo ponto se encaixa com o seu temperamento.
Na principal parte feminina, Danièle Delorme foi também amoldada pelo diretor com muito cuidado, e pode-se dizer que Duvivier arranca dela alguns instantes de real contextuta dramática. Prova, outrossim, e de acôrdo com os
velhos moldes e objetivos do realismo direta e/ou cru, que não é necessária aquela gama de artifícios exacerbados, pertinentes à concepção dos produtores e realizadores comerciais de Hollywood, para conferir validez às heroínas de caráter dito vampiresco.
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A maior dúvida oue se coloca em relação a "Voici le Temps des Assassins", não é bem o seu maior ou menor teor qualitativo. Constitui-se na inexplicável reversão de Duvivier a um mood, a um método de trabalho, que, mais do que ninguém, êle mesmo sabe o quanto superado se encontra. Fazendo do cinema há mais de trinta anos o seu meio de vida principal, desde o fastígio, do apogeu da cinematografia francesa, passando pelo período em que militou nos Estados Umdos e Inglaterra até a volta final ao pais de origem, tem sempre procurado se renovar, mantendo uma atitude de constante interêsse na evolução dos diversos planos em que atua a estética na sétima arte. O recente "A Festa do Coração” (La Fête à Henriette) é uma evidência disto. Um filme dosado de extraordinária vivacidade baseado num roteiro original, fértil em possibilidades para um tratamenta cinematográfico eficaz, avantaja do em soluções inventivas. A tudo êle correspondeu inteiramente, ao forjar situações excelentes, ao realizar movimentos de câmera dos mais curiosos e imaginativos, "travellings" de invulgar arrojo. Também "Sinfonia de uma Cidade'' apresentou episódios de alto interêsse, trechos marcantes como a cena do exame, e uma concepção bem moderna para com o problema de enfrentar uma fórmula dotada de um repositório de sucessos, tanto no campo da arte, como no do mero entretenimento.
Agora, no entanto, aparece "Sedução Fatal", um passo atrás no sentido de uma otientação de trabalho, um hiato desnecessário nessa fase final de sua carreira. A nada de positivo poderia a pelicula conduzir a não ser um simples e inócuo comprovante de que ainda se encontra em forma e, para tão pouco, um lastimável desperdício de capacidade artesanal se antes já não fôra de tempo. Seria mais justificável que um Carné (em dado período foi, sem dúvida, bem maior que Duvivier), aparentemente em decadência (La Marie du Port, Therèze Raquin- mas não conhecemos "Juliette ou la Clef des Songes"), procurasse se exercitar na restauração dêsse estilo (e que, bem amparado por Prèvert, foi inobjetavelmente o seu forte).
De qualquer forma, o susto não foi grande. Muito maior o deu Ford com “Asas de Aguias".
REVISTA DE CINEMA
Há cêrca de oito anos e meio, surgiu "Filme", uma Publicação séria, ambiciosa no que concerne à utilização do material: recursos gráficos, a excelente qualidade do papel, o elevado número de páginas etc. Se essa revista tivesse aparecido hoje em dia, quando o grupo de interessados em problemas da sétima arte engrossou consideravelmente, provável teria a sua subsistência. Entretanto, para a época, a emprêsa era por demais audaciosa; após terem vindo à luz dois números, "Filme" desapareceu.
Empregando recursos e material mais modestos, de acôrdo com as possibilidades, a “Revista de Cinema", com quatro anos de existência, vem conseguindo se manter e, pouco a pouco, melhorando. Nos moldes, é a única revista dotada de seriedade para tratamento do assunto que possuímos.
Êste seu último número (25) talvez seja o melhor de quantos saíram até hoje. Inteiramente dedicado ao estudo da obra dos novos cineastas de talento que surgiram em Hollywood nesses derradeiros anos, apresenta uma série de trabalhos críticos e ensaios merecedores de interêsse. "Revista de Cinema" consegue indubitavelmente realizar um bom apanhado a respeito do assunto.
É, na realidade, bom o conteúdo das páginas e, pelo menos, torna-se fácil constatarmos que se o cinema brasileiro continua passando mal, uma parte de nossa crítica vai bem, no entanto. Nada a dever a muitos figurões do ofício que militam nas famosas revistas, especializadas ou não, da Europa ou dos Estados Unidos.
A função do critico jamais deixou de ter importância em tôdas as fases de evolução nos diversos terrenos artísticos. A sua atuação incide em vários aspectos e no cinema, arte de imensa divulgação popular (a arte do século, disse Lenine), o sentido educativo do seu papel avulta, principalmente aqui no Brasil onde o índice cultural ainda é relativamente baixo, onde temos o problema da censura absurdamente adstrito ao amadorismo das considerações de entidades de caráter policial ou daquelas de interêsse dito do outro mundo.
A compenetração dos fatores construtivos em seu mister marca a orientação do crítico autêntico. Analisar a obra através dos dados e elementos clatos e objetivos, sob o ponto de vista da forma, esta a função radial; e também os válidos e/ou necessários paralelpos no campo da sociologia, antropologia etc. Para êsse escopo, de nada servem o diapasão impressionista, os que trazem um tema e/ou conteúdo no bôlso do colete, os iconoclastas piadistas (de bom ou mau gôsto). E, no lado positivo da atividade crítica, é que se enquadra a ação da "Revista de Cinema".
Jornal do Brasil
19/01/1958