O desafio
Esta realização de Paulo César Sarraceni não competiu aos prêmios, nem foi lançado na faixa hors-concours. Mas como foi exibida no Mercado, como - apesar de todos os defeitos - é um dos filmes brasileiros mais sérios da última safra, vale a pena ser comentado. A conjuntura: um jovem intelectual de esquerda após o 31 de março de 64. A constante dialética: intimismo x participação. Influências (em nosso entender): Antonioni com algumas pitadas de Godard (a magnífica sequência, daquele tempo vazio, carregado de densidade introspectiva com a mulher a dirigir o carro dentro da noite; e o diretor corta as imagens em movimento). O quê fazer? - uma espécie de indagação que rastreia pelo comportamento dos personagens, traduz a inquietação e a insegurança de muitos depois da queda do sr. João Goulart. Mas, ao final, depois de um esmiuçar renitente das contingências dramáticas, o protagonista desce (sobe) aos infernos da moradia de um intelectual decadente, em decomposição vivencial, e - consequência lógica do desespêro - engaja-se no conceito do «tempo de guerra». E sob um magistral amparo sonoro - o canto de guerra. E o efeito - antes da palavra fim - arranca os aplausos da platéia. O ponto mais fraco do filme é o comportamento de Oduvaldo Vianna Filho, que jamais chega a nos propiciar de forma convincente que estamos diante de um intelectual. E a inconvincência prejudica várias passagens da realização. E Isabella, já no papei de sua amante (mulher muito bem e burguêsmente casada, com filho, piscina e literatura), rende muito mais. O seu personagem – mesmo sem o querer - é muito mais intelectual, inteligente, convincente, do que o de Oduvaldo ou o próprio. Vai pouco a pouco - na linha mais atuante do cinema moderno - permitindo que possamos formular um sêr através do seu estar. Verdade que é ainda um estar externo aos fatôres da própria experiência do ato de filmar, condicionado por uma intenção conceitual do autor do filme é, ainda não, a libertação dos quadros narrativos, a disponibilidade total, o conceito que se forma com o próprio filme, via Godard, Viver a vida ou a cinevie. Mas, em todo o neoclassicismo de Sarraceni, sentimos muita maturidade, uma sabedoria em encher de significados não-discursivas aquêles chamados tempos mortos, inaugurados por Antonioni - que é uma síntese em âmbito industrial de algumas constantes do profícuo e falecido neo-realismo. Nas longas sequências do início, a procura de uma lentidão funcional não obtém o necessário êxito: os diálogos se arrastam em demasia. Contudo, com um óbice aqui, uma falha acolá, O Desafio encerra um outro desafio instigante: prosseguiar na porfia pelo bom cinema, o cinema sem preconceitos ou compromissos com surrados idealismos estéticos ou ideologias quadradas. Apesar de tôda a preparação para o finale operístico, a abertura da fita é francamente dialética. Em dado momento, um dos personagens cita o 11º mandamento de Otto Maria Carpeaux: «não ter mêdo e não se deixar corromper». Certo: não há corrupção, quando não há mêdo do artista em se exprimir, entre os fogos cerrados da jovem oficialidade e dos autores «participantes».
HAlL THEE, MAFIA!
O ofício mafioso, o ofício de matar. Henry Silva e Harry Gluckmann interpretam os profissionais da morte de encomenda. A vítima é o também expert Eddie Constantine, que, enquanto aguarda os visitantes sinistros, enfrenta os ciúmes de Elza Martinelli. Raoul Lévy produziu, escreveu e dirigiu essa película, exibida no Mercado do Filme, com a ação se desenrolando entre França e Estados Unidos, com diálogo bilingue. E é bem um filme à la américaine, no estilo e na tensão. Dois têrços do tempo de projeção englobam os preparativos e a viagem para a missão (entre os quais aparece outra estrela: Micheline Presle); o têrço final é o combate em tôrno da casa de campo. Esta parte ganha bastante em intensidade, em nada ficando a dever a alguns especialistas norte-americanos no gênero. E a morte de Henry Silva (o homem limpo), no solo simbolicamente branco, rendilhado de rachas.
HELP!
Novamente sob a batuta de Richard Lester (A Hards Day Night), temos os Beatles outra vez em socorro do cinema. Uma pujante paródia dos seriados, com todos os quiproquós se rebatendo numa sátira sóbria, porque emimentemente rítmico-visual, com a finura e o humor transbordando sem aquelas extroversões que conduzem ao pastelão. E as imagens rápidas são uma festa retumbante de côres e formas, em relações plásticas as mais surpreendentes, pela invenção no detalhe, pelo bom gôsto a cada momento. Poucas vêzes assistiu-se a tão poderosa iluminação criativa nos filmes coloridos. E os civilizados cabeludos movem-se naquela aparente disparidade, uníssona em têrmos de uma autêntica sinfonia fílmica. E tudo girando em tôrno de um rubi e da perseguição dos orientais e de um cientista desgarrado. A afirmação de um universo-eletrônico, onde a sátira pode atingir e exprimir o uso caricatural da funcionalidade bizantina mas nunca chega a cair nos anelos subchaplinescos do temor metafísico da máquina ou na introversão lírica diante do progresso. E, na sétima-arte, um dos fatores do progresso é a utilização dos Beatles, com o seu comportamento desinibido, com a pureza vivencial que exprimem (especialmente em Os Reis do Ié Ié Ié). E aqui, as suas composições musicais escapam do âmbito da euforia e entram na contenção da balada - o canto mais sêco, mais contemplativo. Richard Lester (já, agora, juntamente com Tony Richardson, um dos maiores diretores britânicos), além do prêmio em Cannes, com The Knack (a ser brevemente exibido entre nós), obteve, pela mise-en-scène, a gaivota do FIF. E o filme (ou os Beatles) dividiu o prêmio com La Vieille Dame Indigne. God save The Beatles. Ié, ié, ié!
NASCE UMA MULHER
Rapture é o melhor filme de John Guillermin. Porém, fazer apenas essa constatação não traduz um grande elemento animador. Numa produção que envolve um pôt-pourri internacional de técnicos - diretor inglês, músico (Georges Delerue) francês, atriz sueca, o italiano Flaianno revisando o roteiro, atores americanos etc. escorre uma facilidade de efeitos fotográficos, como verniz-chamariz para a atenção a um drama que exigiria o pulso e a contenção de uma equipe e um diretor extremamente experimentado. Assim como está, chega-se ao fim da fita entre um ou outro relance de maior expressão, com boas interpretações da menina, Patricia Gozzi, e do veterano Melvyn Douglas, como o seu pai. Algumas cenas, como o dinheiro correndo para o ralo, a lâmpada no cubículo dependurada no acende-apaga, ou contendo certas piruetas da câmera, teriam feito sucesso há meio-século, no início das vanguardas cinematográficas. Hoje só conseguem estimular o interêsse de platéias semi-sofitiscadas de café-society, da esquerda festiva, ou alguns cineastas oficiais do lirismo soviético tipo A Balada do Soldado & quejandos.
VAGAS ESTRÊLAS DA URSA MAIOR
Diretamente, via premiação em Veneza, este último filme de Visconti abriu o Festival Internacional do Filme. Não existem muitas coisas, novas a dizer sobre Vaghe Stelle Dell'Orsa - uma modernização de Electra (apenas a meio caminho da tragédia) como pretexto de crítica da sociedade, enfim, a permanente participação (palavra gasta por tantas bôcas inúteis) daquele diretor. Visconti continua sempre o mesmo, em têrmos de sua estética do cinema. Nenhum acontecimento técnico, criativo ou mesmo social perturbou aquela sua já velha concepção de linguagem, que prossegue pràticamente imutável, desde Obsessão, sua primeira realização, obra-mestra feita ainda no período da guerra. Daí para cá, as constantes caracteristicas: ritmo lento, câmera analítica, visualização de imagens requintadas, refinadas, reiteradas, crescendo dramático, algumas composições arrojadas, e sempre perpassando um espírito de crítica, de posicionamento ideológico, sem, contudo, imergir no protesto exterionzante, nos discursos candentes ou manifestações rasgadas. Visconti: unidade e perfeccionismo de uma obra que pode se tornar óbvia em demasia, pois, no cinema, o tempo passa muito depressa. As Vagas Estrêlas são um repisar estilístico: pode-se não adivinhar os rumos conferidos ao entrecho mas - e o que é mais importante - a estrutura é logo adivinhada após as duas primeiras sequências. Como sempre. E, também como sempre, os atores marcados a ferro, com excelentes interpretações, dentro daquele sentido tradicional que liga o teatro à sétima-arte. Portanto, é desnecessário falar que Claudia Cardinale e Jean Sorel nunca estiveram tão bem em seus papéis. Mas para que, Visconti?
CREPÚSCULO DE UMA RAÇA
Cheyenne Autumn é o último filme de John Ford aqui lançado. Entre o classicismo e o academismo oscila o veterano criador de Stageccach, que, agora regenera-se perante os índios. E os índios (à frente Dolores Del Rio, Gilbert Roland, Ricardo Montalban, Sal Minneo, acompanhados da loura Carrol Baker), contrapontuando com a compreensão do louro Richard Widmark, são os principais personagens dessa fita em grande parte decepcionante. Decepcionante não pelo que ainda se poderia esperar de Ford, mas pelo que Ford poderia ainda conservar: tradition - sabedoria do ôlho. Mas vemos um olho cansado, lentes preguiçosas, acompanhando a odisséia dos índios e as discussões dos brancos. Aquêles famosos e sintéticos planos fordianos, às vêzes acendem o interêsse, como abertura ou fecho de uma sequência. A coisa só se anima em Dodge City, quando, em duas quase pontas, aparecem ou melhor reaparecem Wyatt Earp e Doc Holliday, ou melhor, James Stewart e Arthur Kennedy, num clássico salão movimentado, no clássico jôgo de cartas e na clássica exibição de destreza no gatilho. E nada mais. Crepúsculo de um cineasta.
VENDAVAL NA JAMAICA
Sem dúvida, a pior ooisa que Mackendrick dirigiu em sua carreira. É catastrófico o seu retôrno ao cinema inglês, num espetáculo tremendamente cansativo, com o pirata Anthony Quinn feito babá de cinco crianças raptadas a bordo de um modesto veleiro. Com o embair do cinemascope, nenhuma formulação instigante. Certamente, o dinheiro gasto nesta produção daria para Godard fazer mais três obras-primas.
ACCATONNE
Durante as sessões do Mercado do Filme, assistimos a esta fita de Pier Paolo Pasolini. Nada de nôvo, além do nosso cansaço e da sinceridade do diretor-escritor. Trata-se de uma realização que, logo no pós-guerra, Rosselini poderia ter consumado num acesso de mau-humor, ou com aquela sua displicência entitativamente funcional. Salvam-se os intérpretes (e como é monótono falar num elemento tão secundário). Como secundários são os cineastas preocupados com a mera imitação de um conceito subjetivo do que se denomina realidade.
CRÔNICAS DA CIDADE AMADA
Cartão-postal do Rio Quatrocentão. Alguns sketches estáticos de televisão. Chapelada colorida ao lugar comum. Carlos Hugo Christiansen já fêz obras bem superiores, bem aceitáveis - é um técnico de méritos. Mas, aqui, entregou-se docemente à arapuca de um roteiro esquematicamente vazio e apenas comercial.
Jornal das Letras
01/08/1965