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Dublagens & Festival

Há um projeto do deputado Aureo Melo, tornando obrigatória a dublagem para o português de tôdas as películas cinematográficas a serem exibidas no país. Esse projeto - altamente nefasto - já foi aprovado, por cinco votos a quatro, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. A vitória apertada nessa Comissão não representa nenhum refôrco substancial à ameaça contra o cinema porque aquela Comissão opina tão-somente com relação à constitucionalidade dos projetos de lei.
Mas, de qualquer forma, o monstrengo está circulando pelo Legislativo. Acredita-se que o bom senso da maioria dos deputados venha a permitir a concretização do repúdio e lhe confira o merecido destino: a cêsta de papéis. Contudo, não seria demais relembrar vários aspectos profundamente negativos a serem acarretados pela dublagem obrigatória, cuja instituição, pelo visto, é fruto apenas do argumento demagógico de abrir mercado de trabalho para locutores e atores inscritos no Ministério do Trabalho e de tornar os espetáculos acessíveis aos analfabetos, incapazes de ler as legendas. Ora, no primeiro caso, ja existe o bastante amplo mercado de trabalho para os especialistas em dublagem no campo da televisão. E, mesmo nesse âmbito, grande parte dos tele-espectadores prefere as legendas, pois êsse sistema tradicional faculta a preservação da faixa sonora dos filmes, mantidas na integra. Mesmo porque é tremendamente desagradável ouvir vozes deslocadas, inexpressivas amiúde e, também muitas vêzes mal sincronizadas a desajustar a expressão corpórea do comportamento do ator-personagem. Fica deturpada a organicidade de um estar formulado pela técnica do filme. No tocante ao problema dos analfabetos, ocorreria uma inversão dos têrmos da problemática: em lugar do estímulo e consôlo aos iletrados, às custas dos prejuízos daqueles que já ultrapassaram essa barreira, a questão remonta a premissas infraestruturais, isto é, combater o próprio analfabetismo, mediante a intervencão direta do Governo, com o natural apoio do Congresso.
Se formos analisar o assunto, sob o ângulo de visão da estética do filme, o projeto ganha então, em sua nocividade, foros realmente calamitosos. O diálogo constitui elemento de pêso na estrutura da linguagem cinematográfica. E nem só o diálogo, mas tudo que provém da fala. E que dizer no caso das fitas musicais, afinal um dos chamados gêneros mais sérios do cinema? Pois, a palavra não constitui um dado isolado, no momento em que o cinema, como obra de arte, possui suas leis orgânicas apropriadas. Mas, agora, no Brasil está ameaçado por uma lei, que, entrando em vigor, marginalizará o contato com a criação.
Existem ainda outros fatôres negativos a serem desfechados pelo monstrengo Os prejuízos acarretados à industria de cinema no Brasil se consistem num dêles. Haverá - e especialmente frente aos analfabetos - a competição direta do espetáculo estrangeiro com o nacional e exatamente numa hora em que o cinema brasileiro deixa defitivamente a chanchada e o amadorismo e penetra no caminho da competência técnica da invenção (
Cafajestes, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Os Fuzis, Vidas Sêcas etc), das producões consumadas em têrmos efetivamente industriais, dos prêmios (inúmeros) em festivais internacionais. E haverá competição marginal e desvantajasa para nós os brasileiros, enquanto ao mesmo tempo - quem sabe? – veremos Jerry Lewis, com a voz de Zé Trindade, Richard Burton, com a voz de Colé, Jeanne Moreau, com a de alguma locutora de rádio. Marlon Brando, com a do Dr. Albertinho Limonta, enfim, dar-seria ao cinema o direito de nascer truncado em seus fundamentos expressivos. E, tudo isso, aparentemente, para satisfazer a mera demagogia ou - na melhor das hipóteses – à falta de informações.
Resta, enfim, prever os pre-juizos à bôlsa do público. Pois o monstrengo também prevê que os gastos (elevados) com as dublagens correrão por conta e responsabilidade dos exibidores. E êstes, naturalmente, compensarão as despesas nos preços das entradas das salas de espetáculo E o público pagará mais caro para assistir aos espetáculos deturpados, violados, enxovalhados devido ao mero fenômeno daquilo já acima mencionado: a falta de informações adequadas de certos legisladores.
Deve o Congresso repudiar esse projeto.
E, se não o fizer, deve o Govêrno vetar êsse projeto.
E, se nada fizerem, teremos uma dupla degradação face ao cinema.

FIF

O Festival Internacional do Filme toma conta da cidade, tira: a cultura da modorra - o cinema: arte do século embora o marechal Castelo Branco aprecie o teatro e a esquerda nunca tenha publicado tantos livros como depois de 1º de abril de 64.
Poucas vêzes se verá num festival tantos astros, produtores, críticos e cineastas internacionais como no FIF, à frente do qual, na direção executiva está Moniz Vianna, a contar com a colaboração permanente e imediata de vários outros críticos de cinema: George Gurjan, José Sanz, Ronald Monteiro, Valéria de Andrade, Sérgio Augusto, David Neves, Paulo Perdigão.
A importância de um festival dessa ordem é primordial para orientar e estimular o público nas verdadeiras formas estéticas da civilização sob a égide da segunda revolução industrial, a civilização da máquina, da automação, da reprodução em massa, de Wiener, do LSD, da cibernética, dos Beatles, do neopaganismo, das pílulas anticoncepcionais, da inseminação artificial, dos astronautas, do cérebro eletrônico - é verdade que ainda despetalando a rosa da neurose, sob o impacto do dinheiro e do espírito de competição pessoal, em vez de coletivo. E, com o cinema à frente das formas do presente, ainda há a serieda de presente e futura do desenho industrial, da fotografia, dos cartazes, da fotonovela, artes gráficas. A responsabilidade é maciça com a massa e, por isso, acabou-se a aura do objeto, a sagração da coisa em si, proporcionados pelo velho e superado artesanato. A própria facilidade com que, hoje em dia, falsifica-se uma tela de pintor famoso já denuncia a inconsequência do ato «genial» de pintar um quadro para expor em galerias e vendê-lo a pêso de milhões para os bilionários incautos quanto ao futuro. O museu, sim - é um repositório da história. As galerias alimentam um mercado, talvez condenado.
No FIF há diversos prêmios para as competições no setor de longa e curta metragem; haverá o mercado paralelo de cinema, a retrospectiva Buster Keaton e a do cinema brasileiro, o congresso de museus e de historiadores. Todos os países principais produtores estão concorrendo, assim como outros centros. menos ativos, mas não menos valiosos dentro da possibilidade de contribuir para os meios de comunicação estática da arte do século. O juri de elevado gabarito internacional (Fritz Lang, Vincente Minelli, Leopoldo Torre-Nilsson, Gian Cario Rondi, Paulo Carneiro, Adhemar Gonzaga e Nelson Pereira dos Santos) escolherá, no terreno dos longa-metragens, as várias tendências e temperamentos em confronto: os Beatles x John Ford, Mackendrick x cinema português, cinema polonês x cinema tcheco, o vento negro mexicano x o judô japonês e daí por· diante. No curta metragem, pontificam vários exercícios promissores, entre os quais o de Saul Bass, o grande renovador dos créditos cinematográficos.
E outros grandes filmes pontificarão hors-concours: Vaghe Stelle Dell' Orsa, grande prêmio do festival de Veneza, dirigido por Visconti, com Claudia Cardinale no papel principal - Electra Século 20; Alphaville, a última aventura inventiva de Jean-Luc Godard, com o Urso de Prata do festival de Berlim, com Ana Karina e Eddie Constanline, num science-fiction dialético, com Lémy Caution, herói daqui enfrentando o comies do futuro e representando o pensamento do futuro de Godard; Lo ojo en Ia Cerradura, de Torre-Nilsson, o maior cineasta argentino: Harlow, a vênus platinada vivida por Carrol Baker, que com êsse filme deu um salto decisivo para a mesma constelação da biografada.
O FIF nos dará o cinema em tôdas as multiformes concepções: da inorganicidade dos ritmo espada-temporal das formas puras à organicidade das formulações do comportamento.

Jornal das Letras
01/09/1965

 
Uma Odisséia de Kubrick
Revista Leitura 30/11/-1

As férias de M. Hulot
Jornal do Brasil 17/02/1957

Irgmar Bergman II
Jornal do Brasil 24/02/1957

Ingmar Bergman
Jornal do Brasil 03/03/1957

O tempo e o espaço do cinema
Jornal do Brasil 03/03/1957

Ingmar Bergman - IV
Jornal do Brasil 17/03/1957

Robson-Hitchcock
Jornal do Brasil 24/03/1957

Ingmar Bergman - V
Jornal do Brasil 24/03/1957

Ingmar Bergman - VI (conclusão)
Jornal do Brasil 31/03/1957

Cinema japonês - Os sete samurais
Jornal do Brasil 07/04/1957

Julien Duvivier
Jornal do Brasil 21/04/1957

Rua da esperança
Jornal do Brasil 05/05/1957

A trajetória de Aldrich
Jornal do Brasil 12/05/1957

Um ianque na Escócia / Rasputin / Trapézio / Alessandro Blasetti
Jornal do Brasil 16/06/1957

Ingmar Berman na comédia
Jornal do Brasil 30/06/1957

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