Anteontem, aos 81 anos de idade, morreu, em Viena, Georg Wilbelm Pabst, um dos grandes diretores do cinema alemão, desde a época das fitas mudas, quando, num período já de domínio do expressionismo, começava a sua carreira, realizando Der Schatz (O Tesouro). O nome de Pabst logo se associou, em poucos filmes, aos dos grandes mestres da cine-arte e hoje - morto - em importância de conjunto de obra, talvez só fique logo abaixo dos nomes de Murnau e Fritz Lang.
Nasceu a 27 de agôsto de 1885, em Raudnitz, na Boêmia, na época, parte do Império Austro- Húngaro e, hoje, República Popular da Tcheco-Eslováquia. Aos 20 anos de idade, começou a atuar no teatro, na Suíça, em Zurich e St. Gall, seguindo depois para a Alemanha, ficando em Salzbourg e Berlim. Em 1910, viajou para os Estados Unidos e Nova York, voltando para a Europa, em 1914, ao início da primeira guerra mundial, quando, então, na França, foi detido, como "cidadão inimigo". Em 1919, reaparece no teatro, de nôvo em Viena, mas no ano seguinte desperta inteiramente o seu interêsse pelo Cinema, e, em Berlim, passa a colaborar com o diretor Carl Froelich. É assim que, em 1921, surge como ator no filme lm Banne der Kralle - produção e direção de Froelich. Logo depois, foi assistente de direção e roteirista de dois filmes baseados respectivamente em escritores como Eichendorff e Schiller: Der Taugenichts e Luise Millerin. Enfim, em 1924, começa a sua carreira de cineasta, com O Tesouro, fita numa estilização marcadamente expressionista que, mais tarde, iria pouco a pouco, nas realizações seguintes, cedendo as suas características essendais face ao uso de outros elementos cinestéticos.
A totalidade dos teóricos do cinema viu-se obrigada a se ocupar de sua obra. E boa parte não encontrou uma terminologia que o classificasse dentro dos padrões vigentes, achando mesmo que êle oscilava entre o caligarismo e o naturalismo. Henri Agel, em Les Grands Cinéastes, reconheceu tratar-se de o mais indefinível entre os realizadores alemães, pois, ao caráter ambíguo e fugídio do seu temperamento germânico; juntava-se "uma estranha dualidade", que sempre o fêz girar entre o irrealismo e a objetividade. Por seu turno, Sifgried Kracauer, o grande teórico e especialista do cinema alemão - autor de De Caligari a Hitler - comparava-o com Pudovkin, no tocante à apropriação do desempenho sexual dentro de contextos sociais definidos. Kracauer também assim o definia: "era um realista - a vida real era a sua verdadeira preocupação". Mas diante disso, ouvia-se o próprio Pabst, numa entrevista, dizer quase o oposto, isto é, que o problema era ultrapassar o real - ''o realismo é um meio, e não um fim; é uma passagem". E mais: "desde os primeiros filmes, escolhi temas "realistas" a fim de me manifestar decididamente como um estilista - o tema não importa".
Mas a verdade é que Pabst, por seu turno, não tomava o ponto de partida da realidade, de roteiros originais formulando situações do cotidiano. É só examinar a sua filmografia e notar que grande parte dos títulos implicam em adaptações de romances, novelas e peças de teatro: Além de Eichendorff (novela) e Schiller (peça teatral), já citados quando naqueles filmes iniciais, onde, além de roteirista, foi assistente de direção, veremos inúmeros outros títulos de fitas que dirigiu, com roteiros baseados em escritores, como Ilya Ehrenbourg (Die Liebe Der Jeanne Ney - O Amor de Jeanne Ney), Wedeking (Die Buchse Der Pandora ou o famoso Lulu, de Louise Brooks, que compreende duas peças daquele autor, A Caixa de Pandora e O Espírito da Terra), Margarethe Boehme (Das Tagebuch Einer Verlorenen - Diário de uma Pecadora), Heinrich Ilgenstein (Skandal Um Eva - Eva, a Escandalosa), Bertholt Brecht e John Gay (Die Dreigroschenoper - A ópera de Três Vinténs), Pierre Bénoit (Die Herrin Von Atlantis - Atlântida), Cervantes (Don Quichotte), Louis Bromfield (A Modern Hero - Um Herói Moderno, rodado em Hollywood) ou Erich Maria Remarque, que fêz o cenário inicial para Der Letzte Akt (O último Ato).
Nisso tudo, Pabst abordou vários temas e afiou-se em diversos estilos, passando pelo intimismo, pelo espetacular, pela morbidez, pela euforia, pelo filme histórico, pela comédia e ainda a guerra, o meretrício, o crime, a luxúria. Foi um notável diretor de atôres, procurava imprimi-los na tela com uma adequação física e psicológica aos personagens e situações. E criou um dos grandes mitos femininos, Louise Brooks (ou Loulou, uma inesquecível aparição), vampiro felino em envólucro barroco, que, depois de A Caixa de Pandora, ainda seria dirigida por êle em Diário de uma Pecadora.
Dirigiu Greta Garbo, numa das primeiras fitas·de ambos, Die Freudlose Gasse (A Rua Sem Alegria), contracenando com Asta Nielsen. E, além destas e de Louise Brooks, fêz filmes com outros grandes nomes femininos: Briggite Helm, Lily Damita, Leni Riefenstahl ou Micheline Presle, que descobriu para o cinema francês, em Jeunes Filies en Détrésse. Pabst filmou, além de na Alemanha, em vários países: França, Estados Unidos, Itália (inclusive trabalhando um roteiro do neo-realista Cesare Zavattini).
Uma das coisas mais interessantes a notar, na sua vertente objetivista, é que, na elaboração do roteiro de um dos seus filmes mais antigos - O Mistério de uma Alma (Geheimnisse Einer Seele) - contou com a colaboração do próprio Sigmund Freud; além de dois então assistentes dêste último: Hans Sachs e Karl Abraham.
Ao elogiar efusivamente a obra de Chaplin e René Clair, numa entrevista feita em 1933, Pabst teve ocasião de externar alguns de seus pontos de vista a respeito da função do cinema: "Antes de tudo; um filme não deve ser exclusivamente uma diversão para o público. Mesmo numa fita de opereta, gênero tão apreciado pelo público, pode-se exprimir idéias sociais"... "Cito René Clair, do qual sou um grande admirador. Este artista de grande talento compreendeu a missão do cinema. Em cada uma de suas películas, sempre conferindo cuidados às formas estéticas, êle exprime uma idéia social"... "Não faz mais do que seguir o caminho traçado por Chaplin, do qual é o herdeiro para o filme sonoro e falado"... "Chaplin é o único cineasta que, depois de sua morte, poder-se-á dizer que nos legou as "suas obras completas".
A respeito de Pabst, assim se manifestou, em 1963, outro grande diretor, Jean Renoir: "É, entre os mestres, aquêle sôbre o qual todo mundo está de acôrdo. Sabe fazer brotar um universo estranho, com elementos captados da vida cotidiana. Sabe melhor do que ninguém como dirigir os atôres".
Realizou as suas duas últimas fitas em 1956: Rosen Fur Bettina (Rosas para Bettina ou Ballerina) e Durch Die Walder, Durch Die Auen (Através dos Bosques, Através dos Campos ou A Viagem Romântica de Carl Maria Von Weber). Em 1963, em Viena, foi nomeado presidente de honra do Encontro Internacional das Escolas de Cinema e Televisão.
Correio da Manhã
01/06/1967