Certos artistas possuem a medida de sua grandeza condicionada à própria medida que, através de sua obra, extraem de uma situação de impasse por êles atingida. O mesmo ocorre com os cineastas. E, no caso de Antonioni, essa grandiosa medida do impasse é isomórfica. No fundo, na conjuntura de uma civilização a se abrir - sob a égide da cibernética & as novas estruturas da informação - o problema da dificuldade de comunicação entre as pessoas, desfechado por essa diversificação crescente dos meios de informação. Novas formas: novas informações. E, na técnica, é aquela sua linguagem vazada em lentidão exasperante, funcional ao fluxo da angústia que brota do vazio. De L'Avventura ao Eclipse há todo o decurso de uma filtragem natural, enquanto La Notte - cronologicamente entre os dois - representa uma variante temático-estilística, até certo ponto desnecessária para um processo que se depura. O Eclipse constitui a sua obra mais importante, por encerrar o ápice dessa depuração - o ritmo uniforme, ao passo que os personagens se esvaziam in totum. Talvez um sinal do absurdo que representa o ponto de vista individual em iniciativas que, hoje, mais e mais, dependem da coletivização - confere: o próprio cinema . A angústia de Antonioni contrapõe-se à euforia de alguns grandes diretores franceses do momento (Démy, Godard, Truffaut), sem falar em alguns outros, como o ainda sempre Orson Welles, ou Jerry Lewis, cuja euforia é aquela da técnica - a técnica já consonante com a descoberta de uma realidade ilimitada em instigações, como ilimitada é a atual infra-estrutura que se desvenda mediante as relações básicas homem x máquina. Por isso mesmo, simbolicamente, o Eclipse termina em puro documentário: fulmina um tipo de individualismo superado e acaba em Alain Resnais. E êste vale justamente como uma saída para o impasse - é um travelling sem fim de possibilidades.
Correio da Manhã
21/04/1963