Evidentemente que a maioria dos fãs de cinema: ainda não conhece Rita Tushingham. Ela possui apenas um filme em seu acervo - e, isto, depois de enfrentar um concurso de expressividade entre cêrca de duas mil faces, promovido pelo diretor Tony Richardson (Tom Jones) para estrelar o seu filme Um Gôsto de Mel (A Tasfe of Honey). E foi uma estréia marcante a de Rita com seu papel, matizando de meiguice o fluxo dramático de uma história quase prosaica, embora os personagens não caracterizassem aquela tipicidade deduzível de uma média do comportamento comum das pessoas que, em têrmos de ficção cinematográfica, militam na área do cotidiano.
Mas ela ficou registrada por parte do público e da crítica especializada. E com o apelido de patinho feio. Um apelido terno, passível de refletir algumas constantes antiglamurosas; enfim, diferente das divas ou das estrêlas da sétima arte. Rita não utiliza os elementos mais exteriorizantes do charme, não absorve o noticiário com suas atividades particulares, não comporta os padrões do estilo sexy.
Detém, no entanto, uma capacidade expressiva em sua conduta e reações que pouco poderão torná-la – daquiq a pouco - inconfundível. E - emanando do rosto - saltam e se ressaltam os olhos. Olhos de Rita. Desprendendo-se da materialidade bidimensional do quadro ou da foto, descerram outro espaço além daquele, concretamente
delimitado pelas bordas, margens ou molduras. Numa espécie de contrafoco, abre aquêle outro espaço imaginário, ideal, intelectual, onde as sugestões são transmitidas - as sugestões que voltam a banhar a pura materialidade com densidade simbólica, com a carga latente da expressão. E não foi à toa: Tony Richardson, agora com as funções de produtor - na Woodfall - resolveu aproveitar novamente Rita e seus olhos. Outra vez a jovem ingênua, mas, aqui, convocada para interpretar uma conjuntura sentimental, diante de um homem adulto, um escritor (vivido por Peter Finch), e com quem tem um caso a obrigar a intervenção da família. A fita foi rodada na Irlanda, inicialmente na Dublin - esta mesma Dublin do grande James Joyce (de Dubliners a Finnegans Wake), com o seu mesmo Rio Liffey e mais a Ponte O'Connell, o Monumento Wellington, o Royal Hibernian Hotel, o Neary's Bar ou o Parque de St. Stephen. Depois, a equipe comandada pelo cineasta Desmond Davies mudou-se para o verdejar do condado de Wicklow, a corroborar com o verde do olhar de Rita Tushingham, ou Kate Brady - a menina dos olhos verdes (Girl With Green Eyes) ou Um Amor sem Esperança, baseado na novela The Lonely Girl, de Edna O'Brien.
A menina dos olhos verdes é astuta e ingênua. E sabe - dentro das contingências das formulações dos comportamentos díspares em contato & confronto - fazer escorrer em frases sucintas as invocações de um realismo melancólico: "É só com nossos corpos que, realmente, conseguimos perdoar-nos mutuamente. O espírito finge perdoar, mas não esquece e, nos momentos de tristeza, lembra-se...”.
Correio da Manhã
14/09/1965