Antes de um caçador de talentos descobri-la para o cinema, quando pedalava uma bicicleta, Kim - nascida em Chicago, Illinois, a 13 de fevereiro de 1933 - já havia passado pelas etapas normais de uma biografia de diva cinematográfica: o indefectível teatro de amadores, rádio e a profissão de modêlo. A sua ascensão foi progressiva, passando pelo comando de alguns dos principais diretores de Hollywood: Oto Preminger, Joshua Logan, George Sidney e, principalmente, o de Hitchcock, em Vertigo, quando, como poucas vêzes, à beleza de uma estrêla, foi conferido com tanta eficiência aquêle fluir de mistério etéreo - magia do mago do thriller, empatia da loura (e também morena, no filme) Novak.
Hoje, a diva moderna, entre as poucas. Mas depois de correr pelo musicai (Pal Joey, The Eddie Duchin Story), o suspense e a tragédia (Vertigo), de ter representado os personagens deprimentes que mergulham no alcoolismo ou no meretrício, de ter filmado o bas-fond e o jôgo, Kim Novak reaparece na comédia, efervescente como nunca. E sob, as ordens de um mestre do gênero em Hollywood: Billy Wilder. Desde o pastelão, passando pelo wit e os entrechos altamente sofisticados, até aquelas comédias com o charme intelectual do sarcasmo e da mordacidade, a já respeitável filmografia de Billy Wilder traduz um eminente sucessor daquela linhagem que emerge diretamente dos nomes clássicos de Strohein e Lubitch. E, agora, depois dos êxitos com Um, Dois, Três e Irma La Douce, resolveu adaptar para o cinema a peça L'Ora Della Fantasia, de Anna Bonaeci, sob o título algo insólito de Kiss Me Stupid (Beija-me Idiota), onde Kim e seus encantos bem à vista protagonizam os quiproquós. Ela é Polly, a pistoleira, garçonete de bar na pequena cidade de Clímax, no Estado de Nevada. Belly Button - seu umbigo - é o botão que aciona a explosão, ponto de referência para os olhos, encimando uma espécie de saia Saint Tropez. Daí, o pião da confusão, o corpo e o talento, perpassando pelos frequentadores do bar, dois compositores, um cantor, um carro enguiçado, três composições inéditas, de George Gershwin, uma mulher que troca de pôsto com Polly, um mènage a... quantos?
Hoje em dia, o divismo já não pode ser compreendido exatamente como na época do cinema mudo ou mesmo no primeiro decênio dos talkies. Para garantir o pôsto de diva, a atriz não estará obrigada, amiúde, a garantir a permanência de um determinado "tipo inesquecível". Por isso, agora; se Kim é a estrela, o umbigo é a atração. Drop in and get lost.
Correio da Manhã
02/06/1965