Henri Langlois está desde 1935 à testa da Cinemateca Francesa. São trinta anos em que, sob o ângulo da câmara cinematográfica, despeja cultura em volta do mundo, por todos os continentes: da América dn Norte à América Latina, da Europa à República Árabe Unida. E êle mesmo explica: "os produtores franceses colaboram e têm, muito orgulho da Cinemateca; pois todo produtor acha que seus filmes são bons". A Cinemateca Francesa possui cêrca de 50.000 filmes, dos quais o mais antigo data do Século XVlll, feito sobre papel. A rigor, contudo, tomando em conta a idéia que fazemos de cinema, o mais antigo é um desenho animado de Émilie Reynaud, traçado e colorido a mão, feito em 1893 e denominado Autour D'Une Cabine. Mas, nêle, também ainda não há a reprodução do movimento físico: constitui uma sequência de planos, estáticos entre si. Em 1947, Walt Disney ofereceu 3 milhões de francos à família de Reynaud, com vistas a adquirir êsse filme, mas preferiram vendê-lo pela metade do preço à Cinemateca Francesa, para que ficasse definitivamente em Paris.
"A Cinemateca - continua Langlois - é uma cabeça de Janus: de um lado, uma organização privada; de outro, o auxílio do govêrno." "E jamais conheceu a censura." Dispõe de duas salas de projeção, o Palais Chaillot e o Institut Pédagogique, êste na Rive Gauche. Exibe seis filmes diariamente, três em cada sala. Aos domingos, a dose aumenta: são quatro em cada. "Domingo passado, por exemplo – diz êle - abrindo um esbôço manuscrito, da programação, tivemos, na Rive Gauche, um programa em homenagem ao produtor Darryl F. Zanuck, com a apresentação de Belle Star (A Formosa Bandida), fita em côres com Gene Tierney e Dana Andrews, Blood and Sand (Sangue e Areia), baseado no romance de Vicente Blasco Ibañez, dirigido por Ruben Mamoulian, com Tyrone Power, Linda Darnell e Rita Hayworth, e Swamp Water (Segredos do Pântano), um dos filmes da fase norte-americana de Jean Renoir." "Já, no Palais Chaillot, tivemos O Cristo Proibido, de Curzio Malaparte, M, de Fritz Lang, Nosferatu, de Murnau, e Platinum Blonde, de Frank Capra, com Jean Harlow." Langlois diz possuir, na Cinemateca Francesa, alguns filmes brasileiros, mas considera bem difícil arranjá-los. Lembra a retrospectiva que quis organizar, sobre Alberto Cavalcanti, frustrada por não haver obtido cópias dos últimos filmes que aquêle cineasta dirigiu no Brasil, não o conseguindo também nem o próprio govêrno brasileiro.
Sob o ponto de vista estético, Langlois não tem preconceito contra os meios técnicos de projetar uma película cinematográfica: do mudo ao falado, dêste ao Cinemascope, ou do cinemascope ao cinerama, é tudo uma questão de talento e evolução. Lembra, aliás, que, na exposição de Paris, em 1900, já, de certa forma, existia a projeção sob o sistema mudo ou falado, e a demonstração de recursos idênticos aos do cinemascope ou cinerama. E houve, por exemplo, o Napoleón, de Abel Gance. Recorda, em paralelo, que o inventor do cinemascope, o professor Chrétien, com o seu projeto chamado hypergonar, teve a concretização de suas idéias do scope total num filme de Claude Autant-Lara (o diretor de Le Diable au Corps, Le Rouge et le Noir, Marriage de Chiffon, Douce, Fanfan La Tulipe, entre outros), exibido comercialmente em Paris, em 1928, chamado Construire un Feu, e baseado num romance de Jack London. "Este filme está completamente perdido e, agora, depois do aparecimento do cinemascope, Autant-Lara dá pulos de raiva." O hypergonar propiciava, a partir da centralização do quadrado então tradicional não apenas a possibilidade de alongamento retangular no sentido horizontal, mas também no sentido vertical.
CINEMA E NOUVELLE VAGUE
Henri Langlois não tem nenhum livro de cinema publicado, mas, entre outras coisas, publicou, há anos, um estudo sôbre Jean Epstein no Cahiers du Cinéma. Recusa-se a reconhecer um valor excepcional na obra daquele diretor, mas considera-o expressamente um grande cineasta francês. Acha que um diretor tão importante como Jean Vigo não poderia ter feito o que fêz sem conhecer a obra de Epstein. E diz que quando Alain Resnais assistiu, não há muito, à exibição de La Glace à Trois Faces, na Cinemateca, reconheceu a fonte de Marienbad, jorrada dezenas de anos antes. Perguntamos-lhe se o filme Un Coup de Dés, atribuído a Jean Mitry, era alguma adaptação do importante poema-chave de Mallarmé e ele confirmou: "jamais n'abohra le hasard"; mas é também um filme de autoria de Pierre Chenal." Só que, o acaso da destruição impede que êle o possua na Cinemateca.
Para Langlois, a importância da nouvellé vague extravaza do panorama do cinema francês. Não considera Resnais, com o seu estilo bem peculiar, filtrado do documentário um autêntico nouvelle vague. Nem tampouco Alexandre Astruc, na opinião de Langlois, atualmente o melhor metteur-en-scène da França, especialmente com La Proie pour L'Ombre e Éducation Sentimental. Nem o cinéma-vérité é nouvelle vague; acha o cinema de Chris Marker e o de Jean Rouch muito logographe, com a fala do comentário dominando a fôrça das imagens; mas o inglês Leacock representa um cinema-verdade, como o é a nouvelle vague, um cinema sôbre a vida, trazendo um nôvo regard e "olhar - adverte - não é aprender a olhar". Diz: "há a cultura da cultura cinematográfica e a cultura da cultura artística, neste último caso, traduzindo sempre, no passado e no presente, o mêdo e o ódio dos movimentos de vanguarda". "Sou pela cultura cinematográfica, a cultura pré-artística, no caso, o exemplo da nouvelle vague no cinema, o exemplo dos críticos do Cahiers du Cinéma, saindo do métier e tomando a câmara nas mãos, consumando a renovação, mediante um cinema sôbre a vida." "Chabrol, Godard, Truffaut, Rivette, Rhomer, com as suas concepções de fazer cinema que mudaram as concepções de quase todos os cineastas no mundo." "Na Hungria e na Bulgária, por exemplo, cineastas reconhecem que, graças a êles, tiveram uma nova visão da sétima-arte." E Langlois assevera: "o cinema italiano mudou com a nouvelle vague - ela foi uma gôta de ácido no frasco do cinema italiano". "Com o neo-realismo, os italianos haviam adquirido uma espécie de hegemonia integral." "Depois, à maturação artística, juntou-se aquela no nível econômico-financeiro de produção." "Afinal, o cinema neo-realista academizou-se e, agora, face ao aparecimento da nouvelle vague - e com esta - está novamente procurando o seu futuro." Langlois aprecia bastante as realizações de Jean-Luc Godard e; embora não tenha ainda assistido à Bande à Part - que dizem ser o maior filme do crítico-cineasta - considera o seu último filme, Une Femme Mariée, uma obra de imensa significação e importância. E aduz: "La Femme Mariée é um filme japonês."
Indagado sôbre outros cineastas da atualidade, recusou-se a comentar Fellini. Disse preferir o cinema de Hollywood ao de Nova York. Mas as palavras mais elogiosas são para o último filme de Bergman, Tôdas as Mulheres, detendo suas observações especialmente sôbre o uso da côr empreendido pelo cineasta sueco, achando que jamais, no cinema, foi empregada de modo tão extraordinário. E também admira muito O Silêncio, realização do mesmo diretor. Observa: "antes de O Silêncio, Bergman era apenas um grande artista sueco, um grande artista, filho de pastor protestante; depois, passou a ser um grande artista universal".
BRASIL E CINEMA BRASILEIRO
Perguntamos, finalmente, a sua opinião a respeito do cinema brasileiro. Considera-o, hoje, um dos mais interessantes do mundo. Para êle, o cinema brasileiro, junto com o tcheco, substituem, a seu modo, o vazio artístico deixado pelo cinema alemão de outrora. Pois, a nouvelle vague, fatalmente, caminhará para o passado, como é quase certo que um Resnais, um Truffaut e talvez mesmo um Godard terminarão suas carreiras em Hollywood. E resta o campo aberto para os fenômenos novos, do Brasil, da Tcheco-Eslováquia. Do cinema brasileiro, chegamos ao Brasil. Langlois gosta muito daqui - já esteve aqui muitas vêzes e ainda outras mais virá. "O Brasil é como a Grécia antiga e o Rio de Janeiro é Atenas." "E - o que é melhor – o Brasil é uma Grécia sem Esparta."
Correio da Manhã
06/04/1965