Fulminado por um ataque cardiaco, desaparece, aos 56 anos de idade o novelista Ian Fleming. É o criador do mais popular agente de espionagem no pós-guerra: James Bond - agente 007.
Fleming nasceu em maio de 1908. Depois de haver estudado em várias universidades, inclusive em Genebra e Munique, foi jornalista e corretor de bolsa. Durante a última guerra, trabalhou no serviço de contra-espionagem da Royal Navy. Somente em 1950, quando então já desfrutava de seu retiro na Jamaica, escreveu o primeiro livro da série James Bond: Casino Royal. Em 1952, casou-se com Lady Anne Rothermere, e instalou-se definitivamente naquela ilha, vivendo num bangalô diante das Antilhas.
O êxito imediato de seu primeiro livro fêz com que, estimulado pelo editor, desse prosseguimento à série e, de sucesso em sucesso, em cadeia crescente, seu personagem tornou-se uma das facêtas do mito do herói moderno. O homem de ação, desenvolto, desembaraçado, desinibido. A fleuma, com os vários matizes do cinismo, da ironia, do humor. O herói sadiamente amoral, para quem as missões do serviço secreto são encaradas como uma féerie desportiva, embora, especialmente com as mulheres, nem sempre obedeça às normas do fair-play.
Daí, a massa entusiástica de leitores, devorando os seus livros; além do citado Casino Royal, 007 pontifica em Goldfinger, Diamonds are Forever, From Russia with Love, Live and Let Die, Moonraker, For Your Eyes OnIy, Dr. No, Thunder Hall e o mais recente TheSpy Who Loved Me. A paixão de Fleming pelo jôgo e o esporte, destacando-se a pesca de arpão, o gôlfe e o bridge, melhor o instigou na concepção do seu tipo. Principal leitor: presidente John Kennedy - assassinado - e se Bond existisse certamente decifraria o mistério de um crime tão penoso à História.
Bond e o Cinema
O faro dos produtores cinematográficos levou-os a transpor para a tela a série 007. E falamos em faro porque não se limitaram em conferir às realizações um caráter rotineiro, a fim de que os fãs do personagem o "vissem" e não ficassem, apenas, com a imaginação. Os dois filmes com o protagonista de Fleming, já aqui exibidos, denotam uma seriedade do trabalho em equipe, que vai dos cuidados e, mesmo, requintes de produção, até a preocupação com os pequenos detalhes. Um ritmo ágil, compassado. furiosamente com o dinamismo e ousadia de inúmeras sequências. A utilização da côr, dramática, funcional, expressionista.
E, em especial, a escolha do ator que encarna 007: Sean Connery. Também natural de Edinburgo, como Fleming, o seu comportamento no écran ajusta-sé magnificamente à concepção oiiginal. Com o ar cínico e blagueur, enfrenta tõda uma camada de situações propiciadas pelo espírito da pura aventura - entre o amor e a morte. No colorido da intriga internacional, desliza entre as duas cortinas, desfila entre continentes, forjando e elidindo armas e armadilhas insólitas. E amando a jato, mulheres ou espiãs de todos os tipos, raças ou credos políticos. Um mundo eletrônico, onde a máquina com as consequências da automação move uma parafernália altamente sofisticada de objetose sêres humanos funcionalmente artificializados pela técnica.
As duas fitas de James Bond já lançadas entre nós são O Satânico Dr. No (Dr. No) e Moscou contra 007 (From Russia with Love), esta ainda em cartaz. Ambas evidenciam essas caraeteristicas acima apontadas, num fluxo de estesia, que nos convida a esquecer os “grandes conteúdos", previamente tornados abstração e que tanto prejudicam o cinema como arte. E aferir o espetáculo em sua pureza - via o ôlho da câmara. A câmara dirigida por Terence Young.
E os próximos filmes do agente 007 serão Goldfinger. dirigido por Guy Hamilton, e On Her Majesty’s Secret Service, sempre com Sean Connery. Flerning morreu, Bond vem aí.
Correio da Manhã
13/08/1964