Richard Lester caiu como um raio na faixa dos diretores famosos. Como poucos atualmente, demonstra conhecer as técnicas mais eficazes para imprimir o diapasão rítmico do cinema - da arte como espetáculo. Há pouco, assistimos à eclosão dos Reis do Ié Ié Ié (A Hard's Day Night), uma festa de formas em movimento, acionada pelos Beatles, que devem àquele cineasta a descoberta da validade essencialmente cinematográfica de sua atuação corporal e musical. Há muito que a sétima-arte não encontra um conjunto de personagens tão eficiente, no proporcionar, dentro das variações harmônicas de conduta pessoal, um estar uniforme e até revolucionário, formulado pela equipe. Lembramo-nos dos Irmãos Marx, embora as condicionantes e as implicações estéticas seja diferentes em muitos pontos. Os Beatles invocam uma idéia de pureza inteiramente anticonvencional, pois o seu compôrtamento - pelo menos na tela – não sanciona, ao contrário, denuncia certos padrões éticos de uma sociedade, de uma civilizaçoão (e mesmo da arte cinematográfica) já em galopante esclerosamento. E agora, houve a oportunidade de se assistir a um outro filme dêles, sob a batuta de Lester, e que dividiu com uma fita francesa a Gaivota de Ouro do Festival Internacional do Filme: Socorro (Help!) Aqui, valorizada por uma notável cinegrafia em côres, os Beatles perfazem uma paródia dos seriados, com todos os quiproquós do gênero tratados em tom de sátira, em situações caricatas - uma farsa que escorre levemente; sem qualquer exasperação gritante. O título, Socorro, já implica no signo do seriado. A movimentação é incessante, mas empreendida sem estardalhaço - mesmo porque essa farsa raras vêzes provoca gargalhadas, as gargalhadas típicas do pastelão. O eflúvio das côres insólitas sublinha, porém, ao mesmo tempo, dosa o nonsense, na medida em que o diretor quer dar o seu espetáculo e, não, soltar atôres e objetos numa demarragem caótica.
Enquanto isso, entre essas duas intervenções dos cabeludos, Lester fêz um outro filme, A Bossa da conquista... como consegui-la (The Knack), que obteve a Palma de Ouro do Festival de Cannes. A protagonista de The Knack é Rita Tushingham, que brilhou em Um Gôsto de Mel, dirigido por Tony Richardson. A fita baseia-se numa peça teatral e aborda - inclusive com diálogos picantes e arrojados – um dos assuntos já caros ao diretor: o mundo esfuziante da juventude. Ação, humor e inconformismo.
Richard Lester é filho de um professor de colégio, Elliott Lester, que também foi roteirista de Hollywood e autor de quatro peças exibidas na Broadway, entre elas Take my advice. Foi aluno da Universidade de Pennsylvania, formando-se em Psicologia Clínica. Por essa época, começou a escrever música popular e organizou um conjunto vocal que chegou a aparecer na televisão. Mais tarde, tornou-se diretor de cena em televisão. A seguir, tomado pela febre de viajar, girou pela Europa e até pela África, inclusive tocando guitarra e transformado em pianista de cafés para ganhar o sustento. Desembocou em Londres, com um emprêgo na televisão. Escreveu a música e a letra para o primeiro show original da televisão britânica, intitulado Curtains for Harry. Em 1956, casa-se com a coreógrafa Deirdre Vivian. Viajou novamente pelo mundo, mas agora, com contratos para trabalho na TV: Venezuela, Canadá, Taiti, Austrália, etc.
Finalmente, o retôrno decisivo a Londres e, naquela capital, vive há oito anos. Antes do sucesso com os Beatles e The Knack, já havia o primeiro prêmio do Festival de San Francisco para o homemovie que realizara durante um dia, juntamente com o ator Peter Sellers, The Running, Jumping, Standing-Still Film, também exibido no Festival de Edinburgo. E o seu primeiro filme, o musical, It's Trad, Dad, foi um êxito de crítica e de boxoffice.
A próxima realização de Richard Lester será uma versão de uma comédia musical, cujo título é A Funny Thing Happened On The Way to The Forum, com Zero Mostel e Phil Silvers.
Correio da Manhã
15/10/1965