A grande fase do cinema soviético encorpou-se exatamente num período imediatamente pré e pós-revolucionário. Antes dêsse período; era o tzar, e, depois, Stalin; o veio criativo estava emasculado. Pudóvkin, Dzigar-Bertov, Dovjenko, Trauberg, Youtkévitch, Donsköi e - acima de todos – Sergei Michailovitch Eisenstein deram hegemonia a um cinema estrutural e ideologicamente revolucionário.
Eisenstein pode ser considerado o grande, o principal inventor do cinema mudo. Foi mais, longe do que Griffith, soube a partir de determinada fase absorver eficazmente a influência do expressionismo alemão no terreno plástico, e deu um caráter não linear ou adstrito ao enrêdo, porém sinfônico ao ritmo cinematográfico. Perto de seus grandes filmes rítmicos, como A Greve, O Encouraçado Potemkim, Outubro, A Linha Geral e Alexandre Nevski, poucos chegaram, com a exceção talvez de Murnau, em Sunrise. Era um grande intelectual, conhecia bastante teatro, literatura, música e artes plásticas, aplicou por analogia princípios de Joyce, Gauguin, Rimbaud, do Teatro Kabuki ou do kaikai ao cinema. Destacou-se, também, assim, como um dos maiores teóricos (senão o maior) que enriqueceram as perspectivas da linguagem motovisual. Deixou publicados vários artigos e escritos teóricos, destacando-se as suas teorias sôbre a montagem e, dois de seus livros Film Form e Film Sense, são clássicos no assunto.
A técnica da montagem foi a notável contribuição de Eisenstein ao cinema, como inventor. Até hoje, apesar das modificações sofridas pela concepção estrutural do filme, ela marca a sintaxe dessa sétima arte, a qual Lenin denominou de "arte do século". O diretor adaptou os seus métodos de montagem à sintaxe analógica do princípio do ideograma, ao qual comparou com o princípio cinematográfico, através de um ensaio famoso que constitui capítulo de Film Form. Dentro disso, o maior exercício de montagem de Eisenstein - e, ao nível do processo, a sua obra mais importante – é o Encouraçado Potemkim, cuja sequência das escadarias de Odessa é também uma das maiores - até hoje - de tôda a história do cinema. Atualmente, é claro, o Encouraçado Potemkim representa mais uma obra museológica, captada em sua totalidade estrutural, e, em matéria de modernidade, cede a palma a Outubro, um filme menos racionalista em sua orquestração de elementos, mais tumultuado orgânicamente, mas cujo ritmo reflete melhor o remoinho vital do cinema. Outubro é isomórfico - é revolucionário na forma e no fundo, embora sofra com os cortes que Eisenstein foi obrigado a fazer, onde, por exemplo, tôdas as cenas em que aparece Trotski foram suprimidas.
Eisenstein refletiu, por outro lado, aquilo que algumas tendências modernas da crítica decidiu caracterizar por autor completo dos filmes que dirige. Participava da realização, desde o primeiro rabisco do argumento, passando pelos desenhos de produção, com croquis meticulosamente. calculados, pela direção em si das cenas e dos atôres, até as salas de som e de corte. Podese dizer sem susto que, sem êle, o cinema não seria o que é ou o que foi, ou - pelo menos - demoraria mais tempo a atingir determinadas virtualidades de sua linguagem específica.
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Eisenstein nasceu em Riga, em 23 de janeiro de 1898, filho de um engenheiro de origem judaica e de mãe escava. Estudou na Escola de Trabalhos Públicos de Petrogrado e, em 1918, engajou-se no Exército Vermelho. Em 1920, inicia-se no teatro como decorador, a convite do diretor do Proletkult. Atuou durante pouco mais de um ano como assistente dos diretores e, em 1922, trabalha juntamente com o grande diretor do teatro russo, Meyerhold, na montagem de uma peça de Bernard Shaw, Heartbreak House. Em 1923, passou a dirigir algumas peças, onde inclusive operários eram figurantes.
Em 1924, vem a dirigir o seu primeiro filme de longa-metragem, A Greve (Statchka), já figurando como fotógrafo o seu notável colaborador, Eduardo Tissé. Já se tratava de uma realização excelente, como ainda em 1959, no Festival do Cinema Soviético, aqui no Brasil, se teve ocasião de constatar, mormente como fabuloso condutor das sequências de massas: a polícia reprimindo a greve. Curioso que alguns detalhes da Greve não deixavam de denotar uma influência da avant-garde cinematográfica francesa. Desde então já se manifestava a tendência de fazer um cinema isomorficamente revolucionário, onde - inclusive - ao contrário das preocupações de Pudóvkin, a presença do ator não se projeta como individualidade e, sim; numa funcionalidade do comportamento coletivo. A massa é o grande personagem de Eisenstein até A Linha Geral. Depois, a partir de Alexandre Névski e especialmente no extenso Ivan, O Terrível, desenvolve-se o personagem isolado, identificado, em sua obra.
Em 1925, sai a obra mais famosa, citada, aplaudida, O Encouraçado Potemkim (Kniaz Potemkine), apresentado pela primeira vez no Teatro Bolschói, de Moscou, em 25 de dezembro de 1925. Foi a eclosão, a revelação definitiva da potencialidade do cinema: o cinema-estrutura, o cinema-catarse. Léon Moussinac, em seu livro sôbre o cineasta soviético, fala das influências e repercussões da maior amplitude que despertou em Paris na época. Aí, melhor filtrado do que no anterior, A Greve, ficou delineada à evidência do princípio estético, de que a contraposição de duas coisas ou imagens, ou a soma das partes não traduz o todo. O artista cria relações.
OUTUBRO (Octjabre) .é de 1927. Foi feito em comemoração ao décimo aniversário da revolução. É a fita onde os critérios de montagem de Eisestein são os mais intelectualizados, onde também o expressionismo funciona como suporte plástico para o simbolismo dos elementos concretos lançados em cena - tudo num ritmo nervoso, como se fôsse um esfôrço de assinalar os e solavancos da luta e tomada do poder.
A LINHA GERAL (Generalya Linya), terminada em 1929, focaliza a coletivização agrícola. A estruturação retorna ao racionalismo, a um certo didatismo otimista, enquanto ensaístas, como Jean Mitry, classificam êsse filme como poema lírico. Em 1930, contratado pela Paramount, nos Estados Unidos, não consegue chegar a acôrdo para a realização de nenhum filme, um dos quais seria a adaptação de Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreser. Depois, começa as filmagens de Que Viva México!, mas a fita, com cenas de grande densidade plástica, não consegue ser terminada. Mesmo assim, é exibida numa montagem feita posteriormente. Em 1938, quando já havia sido colocado sob "desconfiança" pelo stalinismo, termina Alexandre Névsk XX, com música de Prokofiev, onde figura outra de suas famosas sequências antológicas, a batalha do gêlo, com o jôgo fascinante das massas e a constante de composição apoiada nas linhas verticais das lanças dos guerreiros.
IVAN, O TERRíVEL, foi o seu último filme, dividido em duas partes: a primeira terminou em 1944, a segunda, em 1947, contendo um trecho em côres. Eisenstein pensava com três partes, mas a terceira jamais conseguiu realizar, pois, após vários meses de cama, devido a uma angina, veio a morrer em 11 de fevereiro de 1948.
O que ficou da obra, apesar de tôdas as dificuldades encontradas, marca um dos maiores criadores do cinema e - ao lado da Maiakóvski - o maior artista da revolução soviética, em têrmos estruturais ou conteudísticos. Depois de Eisenstein, cessou praticamente o que restava de descrédito de alguns puristas mais empedernidos quanto ao fato de o cinema ser uma arte. Também a ele como ninguém, se aplicava a frase-chave de Maiakóvski: "não há arte revolucionária sem forma revolucionária". Por isso, a última fase de sua carreira foi extremamente penosa frente à intolerânciá dentro de seu país. Pois a revolução dêle e de muitos outros foi engolida pela burocracia.
Correio da Manhã
06/11/1967