O Ente Querido (The Loved One) constitui certamente mais uma audaciosa incursão de Tony Richardson (hoje, um dos grandes cineastas inglêses: Tom Jones, Um Gôsto de Mel no terreno da adaptação literária. Pois o filme baseia-se na conhecida novela de Evelyn Waugh, que é uma espécie de sátira contundente ao comportamento do norte-americano, no viver e no morrer. Um universo algo caricato, num décor que escoa entre mansões, parques e cemitérios, enfim uma modalidade de balada sutil e maliciosa a respeito da maneira de morrer na era espacial.
Richardson praticamente não filmou em estúdios. Levou a cenários e logradouros insólitos um respeitável cast, pontificado por três nomes menos conhecidos (Robert Morse, Jonathan Winters e Anjanette Comer) e mais astros como Rod Steiger, Dana Andrews, James Coburn, o shakespeariano John Gielgud, Tab Hunter, Margaret Leighton, Roddy MacDowall, Barbara Nichols e Robert Morley.
O impacto de The Loved One vem sendo, sob certos aspectos, bastante inédito. O diretor italiano Alberto Lattuada (já veterano com uma imensa e respeitável filmografia) considera o filme de Tony Richardson como uma das mais ferozes sátiras sôbre os costumes americanos, enfocados sob diversos ângulos: família, exército, pátria ou religião. Para Lattuada, a fita, inclusive, em sua ousadia satírica, vai mais além do que o próprio original de Evelyn Waugh (aliás, adaptado por Terry Southern e Christopher Isherwood) e de quase tôda a literatura norte-americana. Por outro lado, a antonioniana Monica Vitti, anós ressaltar a participação do ator Rod Steiger, considerou a novata Anjanette Comer, uma das protagonistas, como uma atriz dotada de expressividade das mais insólitas e intensas.
A contribuição de Tony Richardson, em The Loved One, pode novamente revitalizar um princípio instigante, hoje em dia: a de que o cinema pode servir-se ou inspirar-se nas obras literárias, sem, para tanto, pagar o ônus anticinematográfico de ser literário.
Correio da Manhã
08/03/1966