Hoje em dia, o manuseio do termo comunicação ganhou foros tão generalizantes que tudo – qualquer coisa - pode, de imediato, significar comunicação, desde as teorias mais sofisticadas até as notinhas sociais. A acepção geral é válida - desde que, sob qualquer forma, haja um transmissor e um receptor - porém não explica o fenômeno do uso da palavra, pois, sob esse prisma, não só os homens, mas também os animais sempre se comunicaram.
O que trouxe à tona e fenômeno foi o imenso desenvolvimento dos chamados meios de comunicação de massa (rádio, TV, anúncios etc.) e que também evidenciou o impacto sofrido pelos meios artesanais com a revolução industrial. No período de ascendência do artesanato, o problema de examinar os fundamentos da expressão resumia-se a dissecar a dicotomia forma-conteúdo ou o entrosamento dêstes dois pólos. Superado o universo mecânico pelo eletrodinâmico, sentando-se Einstein no trono de Newton, a questão exigiu outro equacionamento. A ciência veio diretamente a se tornar sustentáculo das teorias da informação, Wiener criou a cibernética e, esta última, junto com a matemática, é um dos caminhos para se chegar ao conceito de comunicação, que passa a ser algo mais específico do que jargões, modelo "quem não se comunica se trumbica".
Num dos livros mais importantes para o assunto - On Human Communication - seu autor, Colin Cherry, define “comunicação" como o estabelecimento de uma unidade social: entre os indivíduos através do uso da linguagem ou dos signos. Mas o que se comunica? o nôvo, a notícia, o inédito, isto é, informação. Daí, elide-se qualquer idéia de utilizar o esquema forma-conteúdo entre comunicação e informação.
Comunicação pode ser entendida como a informação vinculada a determinado veículo e êste, em muitos casos, pode variar – por exemplo: pode-se saber de um falecimento através da TV ou por um cochicho ao ouvido. E, variando o meio, altera-se o próprio alcance ou natureza da informação. Talvez, por isso, seja que o mesmo Colin Cherry, entre as idéias de comunicação e de informação, coloque o conceito de mensagem. Então, se informação traduz os efeitos significantes dos meios de codificar e veicular uma mensagem, esta última, por seu turno, segundo Cherry, é a "seleção ordenada de um conjunto harmônico de signos, destinado a comunicar informação".
O que comunica, hoje, o têrmo comunicação? A crescente consciência coletiva do maior alcance de relacionamento entre os homens, graças à diminuição, também crescente, das distâncias geográficas entre eles, em virtude do avanço científico. Mas, isso, garantirá, no futuro, a sabedoria universal? Pode a ciência, só, liquidar o eterno imponderável, materializando-se como deus? Voltamos a Norbert Wiener, em God & Golem, Inc., em sua parábola sôbre o paradoxo do infinito: pode Deus fazer uma pedra tão pesada que ele não a possa erguer? Em caso negativo, há um limite a seu poder. Em caso positivo, também há um limite. Tudo é relativo.
Correio da Manhã
26/08/1970