Natureza e cultura não são duas contraposições. Pode-se dizer que a segunda constitui um produto da primeira, na medida em que cultura é tudo que o homem faz, produz (de um chinelo a um chouriço, de um poema a um automóvel), sendo esse mesmo homem filho da natureza.
Antigamente, o homem não possuía espelho - talvez não houvesse autocrítica. Era nômade, vivia de economia apropriativa: caça e pesca. Engels, em Da Origem de Família, da Propriedade Privada e do Estado, dizia que a grande evolução na História da sociedade foi exatamente a passagem do citado estado nômade para o sedentário. Esse estar lhe permitia forjar novas formas comunitárias e, inclusive, chegar até à propriedade, o Direito, enfim, a uma nova economia.
Não é por coincidência que Herbert Read, em seu importante Icon and Idea (Ícone e Ideia), frisava que a grande evolução na História da Arte foi a passagem do período paleolítico (pedra lascada) para o neolítico (pedra polida): aí, ele pôde então descobrir a abstração. Em descobrindo a abstração, abria-se um mundo de coisas como geometria, lógica, projeção de sistemas, etc. E, talvez, sem ser por coincidência, é provável que somente tenhamos descoberto a pedra polida depois da revolução de Engels.
Por outro lado, Ernst Fisher, em seu A Necessidade da Arte, com muita razão vincula o início do que se entende por cultura com a descoberta do instrumento. Mas isso nem fosse ainda o homem como o figuramos: seriam anteriormente (obedecendo a Lei de Darwin) os primatas. E, aqui, relembramos a obra-prima cinematográfica de Stanley Kubrick - 2001: Uma Odisséia No Espaço - com a maior eclipse da história do filme, quando o primata atira o osso para o espaço e este último se transforma em nave espacial, ao som do Danúbio Azul, de Strauss II. Aliás, sobre esse filme, existe um mini-ensaio magistral, de Vilém Flusser, publicado em O Estado de S. Paulo, em 3 de Agosto de 1968.
Aquela mesma pedra polida permitiu, além da arte, as brincadeira, especulações e realizações com o que se entende por ciência. Mas a ciência “evolui” e o homem, o cientista, chegando até Einstein, mira-se no espelho (um dos brinquedos mais simples) e sabe que essa própria evolução aponta para nada: nem deus - pois o verdadeiro deus, no máximo, só pode ser o processo, que o filósofo e matemático Alfred North Whitehead definiu mais ou menos como “a permanência do infinito nas coisas finitas”. Essa verdadeira e concreta sensação foi capaz de se propiciar quando o astronauta chega à Lua e, de lá, contempla a Terra. Essa pobre Terra dentro do infinito que, até há pouco, poderia ser concebida como uma criação de um Senhor ubíquo e todo-poderoso. Resta então a natureza que, como dizia o poeta W. H. Auden, no poema Oxford, “só pode amar a si própria”.
Se as duas revoluções industriais - a primeira iniciando-se ainda com a mecânica e vagidos da eletrônica e, a segunda, só com a eletrônica, a cibernética, a automação - varreram velhas concepções de cultura, a era química e astronáutica que se delineia já vai proporcionando um novo impacto. Na primeira etapa, foi quebrado o primórdio dos valores artesanais, que ainda sobrevivem, evidentemente, mais são secundários dentro do mencionado processo. Na segunda, a máquina vem a ganhar sua plena ascendência e o próprio trabalho industrial sobre alterações de peso. Agora, fomos mais longe: a Terra pode ser contemplada à distância; estamos mais próximos da “harmonia das esferas” e resta-nos, como consolo, não a Religião, porém a Metafísica. O resto é Literatura.
Então o homem que, com o polir pôde fazer espelhos, números, alfabetos, carros, aviões, arte abstrata, cinema, TV, robôs, computadores e, em suma, naves espaciais, tende a defrontar-se, possivelmente em futuro próprio, com um fenômeno drástico: o choque cultural. Voltamos a 2001, de Kubrick: o astronauta, depois de atravessar todos aqueles mundos, vê-se num décor Bourbon, vê-se a si mesmo em várias idades, perda a noção de espaço e tempo (uma noção “cultural”) e, fundindo-se com o monopólio que o guiava, renasce cosmicamente. O choque cultural pode ser definido como a informação inteiramente nova sem o suporte de redundâncias, que são os valores já digeridos a permitir a passagem de um conhecimento para outro. Em outras palavras: o que se apreendia numa rota linear e progressiva, dentro da lógica, sofre um hiato e um trauma. Aí, será outra brincadeira; ou um novo universo.
O contexto cultural da humanidade fica, assim, em fase de subversão. A própria ideia de cultura entra em cheque com o choque. E, talvez, um dos reflexos disso - além das aberrações e discrepâncias da vida social - consiste o avanço incontido nas modalidades da intoxicação. É verdade que existe o meio burocrático que, lentamente, enlouquece as pessoas. Mas o tóxico (álcool, cigarro, coca, LSD, heroína, maconha) proporciona o relaxamento diante dos fatos e promove o esquecimento temporário. Afinal, tóxico também é cultura.
Resta, entretanto, a última esperança e, isso remete outra vez à Metafísica. O mistério da individualidade. Não há lei de Lógica que explique como cada um de nós seja um eu e, sem ser por egocentrismo, também não consiga explicar por que tudo gira em torno de cada um de nós. Neste ponto, paramos. Se há algo no ar “além dos aviões de carreira” ou, mesmo, dos discos voadores, só a morte dará a última palavra.
O Estado de São Paulo
08/08/1987