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Xerloque da Silva

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Alta voracidade

Chegou suando sob o smoking para o grande baile de bôdas de prata. O porteiro deu-lhe passagem, tirando o quépe, com uma das mãos, enquanto, com a outra, engolia a gorjeta. Varou corredores do imenso hotel alugado e penetrou no gigantesco salão. Burburinho. Era cumprimentado por todos, titilando entre broches e borboletas, esbarrando o nariz entre pescoços. Era baixote, porém prestigiado. Prestigiado! "Como estão os aquecedores, dr. Palhinha?" A vozinha feminina lambeu-lhe o lóbulo, irradiou-lhes os tímpanos. “As fábricas vão bem, vendo cada vez mais, mas, a você, eu quero aquecer pessoalmente". Riu, eufórico, triunfal, com o proprio mot d'esprit, enquanto a cabeleira loura dela roçava-lhe a calva. Seguiu andando, dez passos adiante, recolheu um copo de uísque de uma bandeja, deu meia-volta, tomou um trago, cuspiu incontinenti, rosnou - "nacional!" - devolveu o copo a outra bandeja, tirou um lenço e limpou os beiços, novamente entre cumprimentos, continuou caminhando. Enfim, ao longe, ilhada de flôres e garçãos, avistou a mesa altaneira do casal aniversariante. Apressou-se, desfechou uma cotovelada num decote, lançou desculpas ao vento e chegou ao casal, que já o aguardava de pé, erecto, rimando sorrisos. Osculou a mão dela, abraçou o marido e, em lance teatral, sacou seu presente do bolso lateral direito. Estôjo de prata portuguêsa, alongado, foi aberto com leve toque de unha numa saliência e um berro uníssono de "ah! ah!'': de um lado do interior, forrado de veludo grená, um aderêço de platina cravejado de brilhantes, de outro, um prendedor de gravatas, também de platina, exultando em safiras. A dona da festa emitiu novo gemido e caiu nos braços do esposo e, este, por seu turno, no colo de um conviva. Reanimados, vivazes, cobriram Palhinha de beijos e deram ordem de início ao baile. Ele, convidado de honra, no meio do casal, coruscava com a valsa geral; parecia dançada em sua homenagem. Dez minutos depois, o aniversariante fez sinal cabalístico em direção a uma das ala s do salão, de 20 metros cobertos de cortina s douradas, estas se a briram e, decorado pelos cozinheiros de chapelão branco, surgiu o majestoso bufê. Aromas, iguarias, requintes luvas brancas acenando aos convivas. Palhinha pediu licença e levantou e na hora exata do estouro da boiada. Gritos lancinantes, pisadas pânico, desmaios. Quinze minutos após, chegava a rádio-patrulha e o pronto-socorro: no meio do salão, o que era Palhinha eram restos de gente. Num dos cantos, de cócoras, a dona da festa, rasgada, bradava: "prendam todos roubaram nosso estôjo!" "Meu Deus!" - ecoou o marido antes do enfarte final. 

Correio da Manhã
29/12/1969

 
Fiscal fisgado
Correio da Manhã 14/01/1969

A mesma ilha
Correio da Manhã 15/01/1969

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Correio da Manhã 16/01/1969

Imersão geral
Correio da Manhã 17/01/1969

Sinuca sangrenta
Correio da Manhã 18/01/1969

O homem-fome
Correio da Manhã 19/01/1969

Crime numa nota só
Correio da Manhã 22/01/1969

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Correio da Manhã 23/01/1969

A luta conjugal
Correio da Manhã 24/01/1969

O mistério do professor vermelho
Correio da Manhã 25/01/1969

Teatro Leve
Correio da Manhã 26/01/1969

O transplante
Correio da Manhã 28/01/1969

Idem idem
Correio da Manhã 29/01/1969

Cadê Zizi
Correio da Manhã 01/02/1969

Barulhinhos
Correio da Manhã 02/02/1969

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