Azáfama no escritório do corretor, logo após o pregão. Gente andando pra-cá-pra-lá, quando o homem de ar humilde e terno rôto entra e fica parado, timidamente, junto à porta. Olhando para êle, gritou o corretor, tonitruante, de sua mesa imensa: ''Não tem esmola." O sujeito replicou: "Não quero esmola, vim aqui a fim de vender umas açõesinhas." Então, um olhar de desinterêsse: "Que ações?" O homem rôto aproximou-se da mesa imensa e, diante da pôse de Buda do corretor, sacou uma cautela e estendeu-lhe: "Estas." Os olhos do corretor se crisparam – era uma cautela de 50 mil ações ao portador, da poderosa companhia Xis. Deu um pulo: "Pois não! Pois não!" Conduziu, quase que no colo, o homem rôto até o seu sofa de couro cru, já acompanhado pelo contínuo a sopesar a bandeja de cafezinho. "Só há um problema, dr... qual a sua graça? ("Biluf, Biluf", respondia o nôvo cliente), sim, d. Biluf, o problema é que vou ter, antes, de mandar desdobrar a cautela, porque senão um lote dêsses, assim vendido, fará baixar o preço." "Não faz mal." "Quero vender amanhã de qualquer maneira." "Então, farei a sua vontade." "Passe bem."
O corretor pensava que o cliente deveria ser alguém caindo na última lona, para vender a Xis daquele jeito. De qualquer modo, passou as 50 mil no pregão ela tarde. O lance impressionou e, no dia seguinte, a Cia. Xis baixava em cêrca de 60% e já se falava em falência. "Que tacada daquele miserável", murmurou o corretor. O dr. Biluf voltou sob o mesmo terno rôto para receber o dinheiro e, em paralelo, sacou uma cautela de cem mil ações da poderosíssima Picpac e disse: "Venda tudo amanhã." O corretor deu um pulo: "O que há com a Picpac?" "Palpite, palpite." Vendeu a Picpac e aconteceu o mesmo: as ações, no dia seguinte, acusaram baixa impressionante e a concordata estaria por horas. Chega de nôvo o homem rôto no escritório, apanha o dinheiro e saca uma cautela de 80 mil da tradicional Zefum, que era um rochedo há 2 séculos: "Vamos prá cabeça." E saiu. "Meu Deus, meus Deus!", gritou o corretor. Ligou para os colegas e clientes do peito e aconselhou, em tom de holocausto: "Vendam Zefum, de qualquer maneira e a Zefum assim se foi.
Pânico na Bôlsa, vendia-se tudo. E teve de ser fechada. Quem era êsse dr. Biluf? "Não tem endereço nem telefone", explicava o corretor à polícia, "êle só trata pessoalmente". Descobriram afinal que era o criado de confiança de um milionário, de quem furtava as cautelas e, assim arquitetara a especulação épica. Fugira para Acapulco, levando bilhões no bôlso, e, de lá, enviou um postal ao corretor: "Gostei do seu alfaiate, abraços - Biluf."
Correio da Manhã
07/03/1969