Acordou. Foi escovar os dentes. Passou a pasta na escova, esfregou-a pela dentadura e, aí então, abriu a torneira. Decepção: não havia água. Grunhiu um nome feio, passou os dedos pelos dentes e foi até a cozinha, onde abriu uma garrafa de água mineral e gargarejou. Adiantou-se, então, até o fogão, afim de esquentar o café. Mas não havia gás. Nome feio. Retornou ao quarto e acionou o cumutador da luz: neca de energia. Nome feio, nome feio. Desespêro. Vai até o telefone na esperança de ligar para um amigo, avisando que iria tomar banho na casa dêle. o telefone estava pifado - nome feio, nome feio. Põe no corpo a roupa que estava jogada em cima da cadeira e resolve, assim mesmo, tentar ir direto à casa do amigo. Ao abrir a porta, viu, no chão, as contas de luz, gás e telefone; embolou-as, enfurecido, e atirou-as pelo basculante. Desceu quatro andares e parou na calçada. Cinco minutos depois, estava de pé, dentro de um ônibus, como sardinha em lata. Cajor de quarenta à sombra. Começou a suar em bicas. De repente, o ônibus para e não se move mais - fica apenas roncando os motores, enquanto o chofer extraía baforadas de um mata-rato e buzinava freneticamente. O engarrafamento era colossal. O calor aumentava, uma velha começou a tossir e tombou sôbre êle. Mexe-mexe de ancas dentro do coletivo, e, afinal, o trocador e um outro passageiro truculento conseguiram levar a velha para fora e depositá-la sob o tôldo de um hotel. Enquanto isso, o trânsito permanecia estático. Desesperou-se, empurrou todo mundo, enfiou sua ficha na caixa, e conseguiu, todo amarrotado, saltar na rua. Caminhou até o boteco mais próximo e pediu ao homem; detrás do balcão, um refrigerante qualquer, desde que estivesse gelado. O homem sorriu e informou-lhe que não tinha nada gelado, nem mate. Arrastou-se até outro boteco mais próximo e a resposta foi idêntica. Resolveu que, num esfôrço heróico, iria a pé até a casa do amigo. Andou cêrca de meia hora, sob o sol a pino e o ruído ensurdecedor das buzinas. De repente, eclode uma ventania em sentido contrário que lhe besunta o rosto com poeira. Os cabelos voavam, os olhos já estavam congestionados e os lábios ressequidos, rachados, por causa da sede. Só faltavam cinco quarteirões, mas, ao atravessar uma rua, a sola do sapato do pé direito foi sorvida pelo asfalto pastoso. Atirou longe os sapatos e segiu descalçá, mas não agüentou: o chão queimava. Além disso, o vento quase o derrubava. Sentou no chão e começou a chorar. Ergueu-se, em última instância, ao ver o portão, perto, de uma casa. Entrou e um cão policial, em pulo preciso, ferrou-lhe a nuca e arrastou-o pelos pedregulhos até êle estrebuchar, descarnado.
Correio da Manhã
09/03/1969