jlg
literatura

  rj  
Mário de Andrade, Poeta

Existem três Mários, três facêtas do Mário de Andrade em nossa literatura: o crítico, o romancista, o poeta. As tendências da crítica, do ensaísmo e do historicismo é a de dar mais importância ao Mário nº 1 e ao nº 2, em detrimento do terceiro. No primeiro caso, existe uma importância indiscutível, apesar dos erros e desfocamentos que se possa detectar em sua obra de crítico. Mário de Andrade era o que se poderia denominar um intelectual, aquele que, ao lado de suas especializações ou vocações, se interessava pela cultura de um modo aberto, geral. Foi crítico interessado, importava livros, discutia, formava grupos - enfim, personalidade evoluída e cosmopolitizada intelectualmente dentro de seu tempo. No segundo caso, o romancista, também pairava uma aura. Justa? Macunaíma é um fracasso com F maiúsculo, mas um fracasso saboroso na superfície. Amar, Verbo Intransitivo tem atmosfera, algumas situações, mas é, na sua despretensiosidade, um ócio menor. Um outro Andrade, o Oswald, no romance ou - para sermos. mais radicais - na prosa, o supera cada vez mais com o tempo, seja em uso de língua, seja em estrutura. O João Miramar está aí, reeditado nas livrarias, à vontade para todos. Mesmo no conto, talvez o prato forte de Mário, o tempo vem sendo algo implacável em sua erosão. Veja-se, por exemplo, Nvsia Figueira, Sua Criada, dando a impressão de um desvêlo maneirista, assim como outros contos; ou então aqueles que morrem pela bôca da anedota. Enfim, hoje, além de Oswald, pensando em Machado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos ou Nelson Rodrigues, muito difícil pensar na prosa de Mário em têrmos de primeiro time.
Mas há a terceira hipótese, O Mário poeta. Aí - sim - não é surprêsa para quem o lê, de fio a pavio, o seu texto acompanha o tempo, ou se insere a sério da poesia completa de Mário de Andrade, de ponta a ponta: coisa que não exigiria muita paciência, pois MA esfusia na linguagem, empurra o leitor com a sua técnica de montagem e talvez como ninguém haja sabido dar o espírito de 22 no verso livre, lavrando o coloquial, o cotidiano e a flitada na retórica. E também o humor. Ou o poema-pílula. E Mário de Andrade possui também o seu grande poema - O Carro da Miséria - assim como João Cabral tem, com a Fábula de Anfion, por exemplo, Drummond, com A Flor e a Náusea, Haroldo de Campos, com a Cyropédia, Souzândrade, com O Inferno de Wall Street, Luis Aranha, com o Poema Giratório, Décio Pignatari, com O Jogral e a Prostituta Negra, Mário Faustino, como 22 de Outubro, Augusto de Campos, com Ad Augustum Per Augusta, Ferreira Gullar, com O Galo, ou Vinicius de Morais, com as Cinco Elegias. Dentro da relatividade, já é muito ter e encontrar o poema-chave, o poema-substância em suma, o Waste Land particular. Isto não ocorre ao lermos a obra completa de muitos poetas considerados "grandes", maiores do que êle, como Manuel Bandeira, Jorge de Lima (A Invenção de Orfeu é só longa e altamente desigual, com grandes altos e baixos), Cecília Meireles, Cassiano Ricardo, Oswald de Andrade (grande radicalismo da despoetização antropofágica), Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes. Estamos usando o têrmo grande como sinônimo de alta manifestação estética.
O corpo de obra de Mário, em sua respeitável extensão, reserva inúmeras peças antológicas e - o que é de se notar - arriscando-se bastante ao publicar muito, teve um saldo expressivo no perde-ganha da luta com a palavra. São vários os livros de poemas que publicou: Paulicéia Desvairada, Losango Cáqui, Clan do Jabuti, Remate de Males, O Carro da Miséria, A Costela do Grão Cão, Livro Azul, Lira Paulistana e O Café. Muitos livros, mas também muito o que ler.
É só começar um traveling ligeiro e mais ou menos cronológico pela obra de MA para irmos encontrando as múltiplas conchas dos touchstones (pedras de toque) ou dos poemas que merecem ir para as antologias.
1 - Paulicéia Desvairada. A começar pelo insólito da dedicatória do autor a êle próprio, em 14-12-21, o seu prefácio onde instaura o desvairismo. Nesse livro, logo de saída, citar a Ode ao Burguês, também, de saída, muito mais agudo em sua "participação" do que maior parte da ourivesaria retórica-lamuriosa que se faz agora: "Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,/ o burguês-burguês!/ A digestão bem feita de São Paulo!/ O homem-curva! o homem-nádega!/ O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,/ é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!" Neste poema, os pontos de exclamação obedecem a uma repetição intencional ao longo de tôdas as frases. Com a epígrafe mallarmaica, une rose dans les ténèbres, o poema Tristura ("E tivemos uma filha, uma só.../ Batismos do sr. cura Bruma;/ água-benta das garoas monótonas.../ Registrei-a no Cartório da Consolação.../ Chamei-a Solitude das Plebes..."): montagem, fanopéia, colagem, distorção funcional. A seguir, o mais do que antológico Domingo, 22 típico - vanguarda, crítica ética e social, anarquismo, linguagem aguda, com o fabuloso "e também as famílias dominicais por atacado/ entre os convenientes permanente..." além da dinâmica da imagem-montagem: "Central./ Drama de adultério./ A Bertini arranca os cabelos e morre./ Fugas... Tiros... Tom Mix!". E quanto mais a citar? O Domador ("Lânguidos boticellis a ler Henry Bordeaux/ nas claururas sem dragões dos torreões..."); Anhangabaú ("Prurido de estesias perfumado em rosais/ o esqueleto trêmulo do morcêgo..."- distorção rococó das imagens, em contraste com o cotidiano); Noturno ("o estelário delira em carnagens de luz"); Tu - "Oh! incendiária dos meus aléns sonoros"- um exemplo frisante de uma constante de Mário, a distorção, o desfocamento caricatural do lirismo; enfim, As Enfibraturas do Ipiranga, denominado por êle como oratório profano, uma farsa virulenta nacional-social, teatralizada, a peça mais ambiciosa, desigual, marcante de Paulicéia Desvairada.
2 - Losango Cáqui. Logo o primeiro poema, Máquina-de-escrever (B,D,G,Z, "Remington") é uma meditação sôbre a mecanização do escrever, considerações em tôrno das letras. Vários poemas espacializados, a precisão de montagens e justaposições, como exemplo do poema VII que termina com Rua dos Involuntários da Pátria. O Alto é uma peça típica da vanguarda na fisiognomia do movimento, perturbada pela piada ao término. Porém, habitualmente, ocorre a invenção: Mário tinha a piada bem acionada pelo mot juste. A Escrivaninha é uma demonstração exemplar de ritmo de dicção em versos de oito sílabas. O poema XXXVII é pedra de toque do poema-pílula prosaico: "Te gozo!.../ E bem humanamente, rapazmente./ Mas agora esta insistência em fazer versos sôbre ti". Toada sem Álcool é um Mário quase a la Fernando Pessoa. Quanto a Rondó do Tempo Presente é o testemunho visual-sincopado daqueles twenties: "Século Broadway de gigolôs, boxistas e pansexualidade!"
3 - Clan do Jaboti. Dedicado a Manuel Bandeira, o longo poema Carnaval Carioca é um dos pratos fortes da obra de MA (A fornalha estrala em mascarados cheiros silvos). bom poema - fluidez - achados - dá um chega pra lá nos carnavais líricos de Bandeira (Você também se foi rindo pros outros/ Senhora dona ingrata/ Coberta de oiro e prata"). Viuvita traduz outro exemplo do poema anetoda. Mas melhor exhibit ainda nesse sentido é o Coco do Major a historieta versificada do major Venâncio da Silva que guardava as filhas "com ôlho e ferrolho". Na faixa participante é o Acalanto do Seringueiro, a era da borracha sob um prisma não-intelectualizante do escritor que termina o poema na espacialização.
4 - Remate dos Males. Logo a destacar, o longo poema, Danças, espacializado, ligeiras variações tipográficas, o posicionamento das palavras, tudo conduzindo a uma tentativa de movimento figurativo do tema-título, numa peça perfeitamente defensável em seu acabamento, mormente tomando-se em consideração a época em que foi realizada. Amar Sem Ser Amado, Ora Pinhões é outro poema longo de Mário de Andrade a merecer registro: a linha Corbière-Laforgue muito bem captada no toque 22: ritmo, na fusão do enjambement com a rima-surprêsa: "Fumo... Assombrações ... Não te/ Largo mais, Iara do Tiête". Cantiga do Ai consiste noutra carga crítica contra o lirismo ou romantismo fin de siècle: todos os versos compõe uma seqüência de lugares-comuns e exclamações, simetria rompida e recondicionada semânticamente pelo verso final destoante - "Moçada se amando no imenso Brasil!..." - gaiato, prosaico, piada contra piedade. Lenda das Mulheres de Peito Chato é, no todo, desigual, mas tem uma das pedras de toque de Mário, com o verso conceitual-proverbial: "Casar é uma circunstância/ Que se dá, que não se dá/ Porém amar é a constância".
5 - O Carro da Miséria: Um dos melhores livros com um poema só de MA. Sátira aguda, deboche, necrofilia, versos insólitos como êstes: "És virgem/ Virgem nasceste virgem morreste ôh sonêto/ Vejo tua estrêla morta no teu corpo frio/ Onde os ratos fazem ninho". A crítica concentra na palavra-valise: "cibalização cristã". Virulência: "Não foram êsses heróis, heróis revolucionários/ Que ficaram heróis heróis revolucionários/ Martirizados pelo encalhe do café/ Não foram êsses heróis vestidos de farda e farsa/ Capazes de vencer na luta pizzico-física/ Crentes ainda de corage e covardage/ Que fizeram vosso dia/ Não nasceu o salvador". Ou então o desfecho que vale a pena transcrever na íntegra: "Ôi Tia, Misemiséria/ Tens de parir o que espero/ Espero não! esperamos/ O plural é que eu venero/ Nasce o dia canta o galo/ Miséria pare vassalo/ Pare galão pare crime/ Pare Ogum também". Possivelmente o grande poema de MA - épica verbal participante, política e humanística. Há de tudo: fanopéia, ritmo ágil, violentação sintática, piada boa, touchstones.
6 - A Costela do Grão Cão. Momento é uma experiência algo surrealista dentro da versatilidade do autor. Luar do Rio, de dezembro de 1938, dá a impressão de influência de Drummond, enfim o volume menos interessante da obra de MA.
7 - Livro Azul. A renitência paulatina com os poemas longos que não eram o forte do criador de Macunaíma - outro livro mais fraco.
8 - Lira Paulistana. Recuperação do fracasso, Há um bom poema a la Fernando Pessoa: "Vaga um céu indeciso entre nuvens cansadas/ Onde está o insofrido? O mal das almas/ Quase parece um bem na linha das calçadas/ A palavra de inutiliza em brisas calmas" - contraponto entre o concreto e o abstrato, entre a imagem e a meditação; competência. Ou então, "Na rua Aurora eu nasci/ Na aurora de minha vida/ E numa aurora cresci". Ou mais a ação-gozação participante: "Plutocrata sem consciência/ Nada porta terremoto/ Que a porta do pobre arromba/ Uma bomba". Também vale mencionar o poema sôbre o Rei dos Reis, com o eco bizarro no ótimo contraponto sonoro-caricato. Enfim, Meditação Sôbre o Tiête um dos seus poemas mais longos, mais famosos, com grandes achados, alta dicção, verso desembaraçado, fazendo um eco anterior ao Rio de João Cabral, ou com essa outra variante vibrante da forma-flor: "São formas... Formas que fogem, formas/ indivisas, se atropelando, um tilintar do formas fugidias/ Que mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes, inacessíveis".
9 - Café. Teatro-poema. Outro esfôrço participante de Mário, muito mais agudo, virulento, com todos os laivos de pieguice grandiloqüente em seu estouro dadá-futurista do que o academicismo flor de laranja dos "participantes" que, hoje, operam metáforas elaboradas. O Café é muito discutível em sua liberdade formal, mas marca a inquietação, a abetura do escritor até o fim da vida.
No perde-ganha nacional, poucos poetas se comparam a Mário de Andrade. E pela sua atualidade, a sua obra poética não pode permanecer espremida na lombada de um livro de biblioteca, apenas como pasto de consultas e citações eruditas.

Correio da Manhã
11/06/1967

 
G. S. Fraser "The modern writer and his world" - Criterion Books
Jornal do Brasil 18/08/1957

Sophokles – “Women of trachis”
Jornal do Brasil 03/11/1957

Piet Mondrian
Jornal do Brasil 01/12/1957

The Letters Of James Joyce
Jornal do Brasil 12/01/1958

O poema em foco – V / Ezra Pound: Lamento do Guarda da Fronteira
Correio da Manhã 05/10/1958

Erza Pound, crítico
Correio da Manhã 11/04/1959

Uma nova estrutura
Correio da Manhã 31/10/1959

"Revista do Livro", nº 16, Ano IV, dezembro de 1959
Tribuna da Imprensa 13/02/1960

E. E. Cwnmings em Português
Tribuna da Imprensa 04/06/1960

O último livro de Cabral: “Quaderna”
Tribuna da Imprensa 06/08/1960

Cinema e Literatura
Correio da Manhã 07/10/1961

Um poeta esquecido
Correio da Manhã 24/03/1962

A Grande Tradição Metafísica
Correio da Manhã 05/05/1962

Reta, direto e concreto
Correio da Manhã 06/06/1962

A Questão Participante
Correio da Manhã 18/08/1962

165 registros
 
|< <<   1  2  3   >> >|