“O ôlho existe em estado selvagem”. Esta frase emitida em 1928, a propósito de pintura, define Breton – seu estar, seu pensamento, sua revolução: a revolução surrealista. O surrealismo foi tôda uma época (e ainda é em parte) que deixou raízes fundas para a atitude criativa. E André Breton era a encarnação do surrealismo. A liberdade total, sem estar comprimida pelas fronteiras do realismo lógico.
Mas o surrealismo não foi apenas um movimento literário ou artístico. Traduziu uma recolocação de têrmos para a atitude vital, e ao pretender soltar o indivíduo em transe libertário, sem compromissos, também recolocou os têrmos em que se fundaria uma civilização nova, mais autêntica. O Rei Ubu, de Alfred Jary, baixou sua sombra sôbre a Terra e, diante dos padrões cristãos, voltou a pronunciar sua interjeição radical. E Breton desdobrou-se no possível, como um dos grandes poetas verdadeiramente participantes: literatura e artes plásticas, política, filosofia, psicanálise, magia. Incorporou a sua visão de Freud à obra de arte e procurou levá-la às últimas conseqüências criando a escritura automática – o automatismo psíquico. Na sua luta contra as velhas estruturas do pensamento, como disse Jean-Louis Bedouin, “graças a êle , sabemos doravante que o natural e o sobrenatural são têrmos errôneos, na medida em que implicam numa solução de continuidade na trama da realidade”. E indo de encontro a uma das constatações insertas por Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia da Percepção, o mesmo Bedouin também assinala que “o pensamento de Breton e a atitude surrealista em geral encerram a ultrapassagem, pelo menos teórica, do universo das categorias, prefigurando um mundo humano, baseado numa concepção harmoniosa de sujeito e objeto”. Já é a ruputra integral com qualquer resquício cartesiano, que entendia a percepção como um mosaico de sensações.
Libertar-se das pirâmides racionalistas. Se, como o diz Cassirer em An Essay on Man, que o homem, antes de ser um animal racional, é um animal simbólico, o mergulho introspectivo do surrealismo, expressado pelo automatismo psíquico, rompeu com quaisquer dimensões convencionais da arte como “forma simbólica”, na definição também de Cassirer. Assim, para o crítico Wallace Fowlie, a frase de abertura de Nadja – uma das principais obras de André Breton – “Qui suis-je?”, constitui a indagação-chave para todos os aspectos do modernismo, em oposição à indagação-chave da era precedente: “o que deveria eu fazer?”
Como todo movimento literário, nascido de uma profunda compenetração da conduta criativa como uma espécie de dèmarrage drástica do romantismo e impregnando suas formas com uma expansividade análoga à de um renascimento barroco, o surrealismo ergue a sua gênese e exaltou personagens do passado: o marquis de Sade, Novalis, Lautréamont, Jarry, Baudelaire, enquanto um pintor, como Bosch, encontrava, séculos depois, a resposta do tempo. O surrealismo, outrossim, desdobrou-se de um movimento imediatamente anterior a êle, dentro da cronologia – o dadaísmo - que, tirante as incursões da conquista do mundo do subconsciente para arte, pode até ser considerado mais radical, em têrmos objetivos, diante da civilização. Dada não deixou, assim, de ser para Breton um trampolim para o seu vôo na vanguarda do surrealismo.
Em função de linguagem poética, o surrealismo pretende (e Breton talvez evidencie isto melhor do que qualquer dos seus companheiros) a violentação, em tôdas as instâncias, de normas logísticas, de cânones metafóricos, dos similes convencionais. Trata-se não só de libertar a metáfora, mas de alçar as imagens, sem a presença física ou implícita da palavra como, que sempre importa numa ilação à realidade (que realidade?), quaisquer sejam as instâncias. A metáfora, assim entendida, por mais arrojada e extravagante, implica em si próprio, no jôgo com a lógica da linguagem que remete à realidade. O como, no surrealismo, surge ligando frases ou palavras brotadas daquele absolutismo da liberdade de enunciar. O primeiro manifesto do surrealismo, inicia-se com a afirmação de que “a linguagem foi dada ao homem para que dela, faça um uso surrealista”. “O revólver de cabelos brancos é o revólver de cabelos brancos”- um título de volume que não se refere a nada além da própria frase.
Mas aquilo que Yves Duplessis qualificou como “ginástica mental que conduz à folia criadora”não traduz a carência de lucidez. A lucidez, inclusive, n vontade destruição, isto é, aquêles objetivos traçados no segundo manifesto do surrealismo: “tous les moyens doivent être bons à employer pour ruiner les idées de famille, de patrie, de religion”. Herbert Read, ao falar na inspiração intelectual e na integridade de Breton, compara a sua inteligência analística com a de Leonardo Da Vinci.
Espírito aberto, avant-garde – revolução: tudo no sentido básico de projetar o indivíduo através daquilo que o funda essencialmente, a liberdade. Breton: a liberdade é a própria condicionante da objetividade na arte, sem a qual não pode a mesma arte comportar esta necessidade primordial que é sua: ser totalmente humana.
André Breton nasceu em Timchebray, Orne, em 18 de fevereiro de 1896. Em 1900, sua família muda para Pantin. No período entre 1906 e 1912, em que cursou o colégio Chaptal, em Paris, começam as suas leituras de literatura e filosofia. Tem três poemas seus publicados em La Phalange. Convocado pela guerra, serviu, em 1915, na artilharia, em Pontivy e depois no serviço de saúde em Nantes. Foi no hospital dessa cidade que, no ano segiunte (ano da eclosão do dadaísmo em Zurich), encontra Jacques Vaché, ali internado. Em 1917, conhece Eluard, Soupault e Aragon – todos os três colaboram na revista de Pierre Reverdy, Nord-Sud. Publica em 1919 a sua primeira coletânea de poemas, Mont de Plété, Este foi um ano de acontecimentos: chegada de Tristan Tzara em Paris, trazendo dada na bagagem; funda com Aragon e Soupault a revista Littérature e na qual publicam-se os poemas de Lautréamont, copiados por Breton de um único exemplar conhecido e pertencente à Biblioteca Nacional, e as Lettres de Guerre, de Jacques Vaché. Enfim, o mais importante ainda: juntamente com Soupault, publica Les Champs Magnétiques, que constitui a primeira obra surrealista. Em 1920, Benjamin Péret alia-se ao grupo de Littérature, que, por seu turno, publica 23 manifestos do dadaísmo. Breton publica na Nouvelle Revue Française o seu texto denominado Pour Dada. Em 1921, visita em Viena Sigmund Freud, cuja obra já lhe auxilia a teorizar o surrealismo na mesma época. Mas em 1922 lança Lachez Tout, a traduzir seu rompimento com o dadaísmo, enquanto, em seu atelier, juntamente com Desnos, Crevel e Péret, consuma as sessões experimentais de escrita sob sono hipnótico. Em 1923, publica outro volume de poemas: Clair de Terre. Em 1924, Breton publica o primeiro manifesto do surrealismo, seguido de Poisson Soluble, poemas em prosa lavrados em escritura automática, bem como o livro de ensaios, Les Pas Perdus. Neste ano, juntamente com Aragon, Eluard, Soupault, entre outros, a propósito da morte de Anatole France, publicam o folhetim, Un Cadavre, texto de extrema violência contra o falecido, a provocar escândalo e reações. E é também neste ano que pede uma nova declaração dos direitos do homem, com a fundação da Revolução Surrealista, da qual tomou a direção em 1925. Neste ano iniciaram-se as discussões internas do grupo em tôrno da revolução soviética e da opção política do artista. Em 1927, Breton adere ao Partido Comunista após hesitar bastante, mas logo depois desliga-se, revoltando-se contra seus “regulamentos”. Em 1928, publica Nadia e Le Surrealisme et la Peinture.
Em 1930, sai o segundo manifesto surrealista e funda-se uma nova revista, Le Surrealisme au Service de la Revolution. 1931 é o ano de L’Union Libre, enquanto em 1932 saem Les Vases Communicants e Misère de la Poésie, destinado a despertar a solidariedade dos intelectuais a Aragon, ameaçado pelas autoridades por causa de seu poema, Front Rouge. Mas depois rompe com o mesmo Aragon, por causa do alinhamento dêste na posição do P.C. e, ainda êste ano, publica Le Revolver à Cheveux Blancs, livro de poemas. Em 1933, a fundação da revista Minotaure, da qual tornou-se o principal animador. Escreve outro ensaio: Le Message Automatique. Em 1934, organiza um protesto dos intelectuais contra a tentativa do putsch fascista, ao mesmo tempo em que lança outro volume de poemas, L’Air de L’Eau, e L’Immaculée Conception, em colaboração com Eluard. Em 1935 esbofeteia Ilya Ehrenbourg, que havia difamado os surrealistas e, por isso, tiram-lhe a palavra no Congresso dos Escritores em Defesa da Cultura. René Crevel suicida-se porque não permitiram a fala de Breton, que, neste mesmo ano, executa os seus primeiros poemas-objetos. Em 1936 é a exposição internacional do surrealismo em Londres. Em 1937 publica L’Amour Fou. Viagem ao México em 1938, ficando hóspede do pintor Diego Rivera, na casa do qual encontra-se amiúde com Trotsky. Daí sairá o seu manifesto Pour Un Art Révolutionaire Indépendant. De volta dessa viagem, ocorre o rompimento do Eluard, que publicou poemas na revista estalinista Commune, que havia caluniado Breton. 1939: guerra – mobilizado em Nogent, médico na escola de aviação de Poitiers. 1940: desmobilizado e é acolhido em Marselha pelo Comitê de Socorro Americano aos Intelectuais. Em 1941 chega à Martinica e – após – aos Estados Unidos, onde além de encontrar antigos companheiros intelectuais, será, durante três anos, locutor de Le Voix de L’Amérique. Funda em 1942, em Nova York, a revista VVV, enquanto faz conferências e lança novas teorias surrealistas. Em 1944, no Canadá, tem notícia da libertação de Paris. Em 1945, escreve a Ode a Charles Fourler. Viagem ao Haiti. Várias exposições surrealistas se sucedem. Em 1948, lanca La Lampe Dans L ‘Horloge. Começam a aparecer vários ensaios sôbre a obra de Breton. Participação política. Publica em 1953 Le Clé des Champs, escreve na revista Medium. Em 1955 dirige a revista Le Surrealism Même. Em 1957, L’Art Magique, juntamente com Gérard Legrand. Constellations, poemas acompanhados de ilustrações de Miro. 1960: nova exposição internacional do surrealismo em Nova York. Continuou sempre radical. Na última quarta-feira, síncope cardíaca: morreu aos 70 anos.
Correio da Manhã
02/10/1966