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A Literatura Alemã

Das origens aos nossos dias, da literatura dos cavaleiros, do Minnesang e do Meistersinger à "reabertura" pós-nazista, com Arno Schmidt ou Heissenbüttel - esse o panorama vivo que Otto Maria Carpeaux descerra, com uma narrativa instigante, que conforma o fluxo de uma cronologia de estilos e conjunturas políticas, linguísticas e sociais daquilo que se denomina A Literatura Alemã, sem ser necessária e especialmente apenas a literatura feita apenas em território da Alemanha. Nessa obra de pouco mais de trezentas páginas, contendo, inclusive, ao fim, uma nota sobre a pronúncia dos nomes alemães não poderia, nem pretendeu o autor descer a análises profundas. Trata-se de uma tomada geral, de um fluir panorâmico, mas em que cintilam as informações, escorreitamente desvendadas num estilo de "contar a história" seco e estimulante.
De Erasmo, Lutero e Sachs ao documento assinalador do divórcio humanismo x reforma: A História do Dr. Johannes Faust. O tema, aliás, foi preocupação de grandes nomes da literatura ocidental: há, por exemplo, o Fausto de Marlowe, de Goethe, de Fernando Pessoa ou de Thomas Mann. Depois, o barroco e um grande poeta: Gryphius. A era do racionalismo, a poesia anacreôntica, Klopstock, até o eclodir de um dos grandes movimentos propriamente literários: o Sturm und Drang - Tempestade e Impulso, como sugere para tradução o próprio autor. Já era a maturidade da língua. Curioso notar que dois momentos básicos de evolução da língua alemã correspondem a traduções de obras também básicas: a tradução da Bíblia por Lutero, quando, como ressalta Otto
Maria Carpeaux, advém "o nascimento da nação alemã moderna, sua língua, sua literatura"; a tradução, quase dois séculos depois, de 13 peças de Shakespeare, realizada por Schlegel, segundo OMC, "não só talvez a melhor tradução que existe de qualquer poeta em qualquer língua, é, depois da Bíblia de Lutero, o mais importante marco na evolução da língua literária alemã".
Antes, contudo, a presença ainda hoje abrangente de Hegel - o pensamento filosófico, estético, ético, linguístico,
político. Hegel, via OMC - "a sua filosofia revelou coisas para cuja expressão a língua comum não é suficiente". Hegel – a fonte permanente - a "ala esquerda" e "a ala direita" do seu pensamento - a dialética.
O Sturm und Drang - o jovem Goethe que, mais tarde, irá repousar na glória apolínea do classicismo de Weimar. Ao lado de Goethe, Schiller. E o pré-romantismo. E, da teoria de soerguimento nacional de Herder, à "razão pura" e suas limitações formuladas por Kant, cuja teoria do conhecimento, apesar do tempo-espaço de Einstein, assola os pensadores até hoje. Trata-se de uma faixa áurea dessa história, espécie de renascimento, no qual, referindo-se a An den Mond, de Goethe, Carpeaux, citando Wordsworth - "emotion recollected in tranquility"- diz haver sido "alcançado o supremo objetivo da poesia lírica".
No extremo da faixa, aparecem Kleist, Jean Paul (um dos mais intrinsecamente alemães dos escritores alemães) e um "gênio" marginal, Hoelderlin. Hoelderlin, mais "moderno"- folia e poesia - até hoje hermético. E Carpeaux frisa a fabulosa dualidade nos marcos estéticos da lírica alemã: Goethe x Hoelderlin. Entre um extraordinário poema curto, como "Halfte des Lebens" ("Metade da Vida") e o manancioso "Arquipélago", divaga a surpreendente riqueza sugestiva de Hoelderlin. Na vertente fronteira, a inspiração "tempestuosa" ou clássica de Goethe, porém sempre contida, a sensibilidade mais racionalizada em função dos meios de se expressar. Aliás, com relação ao termo "gênio", propicia o autor esclarecimento bem necessário:

Esse termo não tem, inicialmente. o sentido de qualidades intelectuais superiores ao comum do gênero humano. Nos teóricos italianos e ingleses da Estética. na primeira metade do século XVIII, o gênio é o contrário do gosto: é a capacidade de criar valores de beleza sem obedecer às regras eruditas pelas quais é formado o gosto artístico dos cultos; capacidade atribuída ao povo e invocada para reabilitar a poesia popular, que o gosto clássico desprezara. Um gênio é, então, aquele que não precisa de regras para comover e edificar. Genial é a poesia sem imitação dos antigos e genial é a religiosidade livre sem dogmas.

Chegamos, então, ao romantismo - turning point em todas as literaturas, mas que, na língua alemã, ganhou status da maior amplitude. As teorias do romantismo e os escritores: Tieck, Novalis, os contos fantásticos de Hoffmann. Ainda no século XIX, pontificam, numa época criativa das mais ricas, nomes como os de Eichendorff, Heine, Buechner, Stifter, Nietzsche, Holz, Fontane, Hauptmann, Wedekind, Hoffmannstahl, Marx, Engels, George e Schnitzler. E também o germinar do realismo, do naturalismo, do simbolismo e as sementes do pré-expressionismo. Nietzsche invoca uma transfiguração do espírito dionisíaco e é uma influência constante para o século XX - de acordo com OMC, "o último que procurou enraizar na Grécia o espírito alemão". Ao mesmo tempo, a atualidade de Buechner e Amo Holz, o teatro do primeiro refulgindo nos palcos internacionais e o seu Woyzeck perpetuado na música de Alban Berg, enquanto a poesia do Segundo - o seu fabuloso Phantasus - reabilitado pelas pesquisas de vanguarda. E, desenvolvendo a ala esquerda hegeliana, emergem Marx e O Capital. Engels e o manifesto do Partido Comunista.
A fase inicial desse século é a forja do terceiro grande poeta alemão ou em língua alemã. Dispensa-se maiores intróitos: é Rainer Maria Rilke. Se Goethe é a poesia clássica, se Hoelderlin é a poesia genial, Rilke seria a poesia pura: "Nur wer die Leier schon hob / auch unter Schatten, / darf das unendliche Lob / ahnend erstatten" ("Só quem a lira já elevou / até o mundo das sombras / pode o infindo louvor / pressentir e cantar") soneto IX a Orfeu. A sua palavra pesa, exata, adequada, como um jarro de pedra, a sua poesia pesa por sobre o tempo. Mas já é também o tempo de grandes romancistas: Thomas Mano, Hesse, Kafka ou Musil. E há outros poetas como Benn e Trakl. E há o teatro básico de Bert Brecht. O século XX marca na literatura momentos de alta trepidação: o pré-expressionismo, o expressionismo, a juventude artística dos Twenties, a nova renascença da Bauhaus de Gropius, o dadaísmo, o pensamento de Dilthey, o declínio do Ocidente preconizado por Spengler, a objetividade nova e os movimentos de avallf-garde da literatura que se faz agora, no instante.
Um mobile de flashes instigantes, tomadas ou panoramas, fluxo didático. A Literatura Alemã pode ser também lido,aprendido e apreendido como um romance. É mais uma contribuição valiosa da cultura e da visão respeitável de Otto Maria Carpeaux.

Correio da Manhã
04/11/1964

 
G. S. Fraser "The modern writer and his world" - Criterion Books
Jornal do Brasil 18/08/1957

Sophokles – “Women of trachis”
Jornal do Brasil 03/11/1957

Piet Mondrian
Jornal do Brasil 01/12/1957

The Letters Of James Joyce
Jornal do Brasil 12/01/1958

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Correio da Manhã 05/10/1958

Erza Pound, crítico
Correio da Manhã 11/04/1959

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Correio da Manhã 31/10/1959

"Revista do Livro", nº 16, Ano IV, dezembro de 1959
Tribuna da Imprensa 13/02/1960

E. E. Cwnmings em Português
Tribuna da Imprensa 04/06/1960

O último livro de Cabral: “Quaderna”
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Correio da Manhã 05/05/1962

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A Questão Participante
Correio da Manhã 18/08/1962

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