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Jules Laforgue: 70 anos de morte

Ele é talvez o mais sofisticado entre os poetas franceses.
EZRA POUND

De todos os simbolistas era talvez o mais inteligente e solitário.
WALLACE FOWLIE

Sacudiu o verso tradicional, desmontou a sintaxe e usou as palavras comuns de forma audaciosa.
HENRY PEYRE

Entre todos os artistas jovens de ma geração só Laforgue era dotado de gênio.
TEODOR DE WYZEWA

Laforgue permaneceu único - esse homem-criança sabia muito, sabia amargamente da vida.
MARIE JEANNE DURRY

É um dos precursores de James Joyce.
WARREN RAMSAY


Jules Laforgue, nascido em 16 de agosto de 1860, morto em 20 de agosto de 1887, viveu pouco. Vida breve, arte longa. Desapareceu quando o movimento simbolista ainda ia a pleno vapor. Alguns o tacharam de decadentista; outros de poeta menor. Nasceu em Montevidéu e lá permaneceu até os seis anos de idade; a seguir, Tarbes; depois Paris. O fim de sua existência se desenrolou quase inteiramente na Alemanha, pois, em 1881, foi nomeado leitor da imperatriz Augusta, mulher de Guilherme I. Voltou a Paris em 1886, havendo passado três dias em Londres, onde se casou. Morreu jovem, triste e pobre: um dos últimos a alimentar alguns desses elementos de uma mitologia do poeta, já ultrapassada.
Mon coeur hypertrophique - autoconfissão espiritual, ou aquilo que o crítico Wallace Fowlie, a propósito do pierrô laforguiano, classificou como "projeção tema e irônica de uma natureza hamletiana". "Pálido mandarim"- é a imagem que, dele, faz Henri Peyre, ao ressaltar que a originalidade de sua ironia repousa na mescla do humor e do cinismo.
Enfim, em matéria de projeção de espírito, de circunvoluções genéricas a respeito de sua modalidade de temperamento não faltaram contribuições. E, nisso, já se sabe há muito, é indiscutível a grande faixa laforguiana, em que talvez haja sido inigualável; a ironia. Ironia exige inteligência - para o poeta, um reflexo concreto dela mediante a sensibilidade de jogar com as palavras; a habilidade formal do trocadilho, das assonâncias e aliterações, aliada à vivência com o idiomabase. Laforgue: o intimismo, o refinamento conceituai, o antiprimitivo por excelência. Foi um poeta para leitores inteligentes, cultos - mas só os críticos realmente inteligentes e preocupados com "essências e medulas" viram no criador das Complaintes algo mais do que isso: um dos poetas mais importantes do século XIX e que, no atual, começou a deixar o rastro nítido de sua influência em grandes poetas, sendo que, no caso de T. S. Eliot, da primeira fase ela é arrasadora: basta lembrar poemas tão belos ou bastante conhecidos, como "Portrait of a Lady" ou "Mr. Appolinax". O próprio Eliot, aliás, por exemplo, em Purpose (1938), manifesta a sua dívida para com Laforgue, quando começou a escrever, em 1908-1909.
Mas - além de também influenciado por ele no terreno criativo - o grande descobridor, o grande revelador da importância de Laforgue foi outro grande poeta e, talvez, o maior crítico de poesia desse século: Ezra Pound. Já em 1917, no ensaio "Irony, Laforgue and Some Satire", Pound valorizava até às alturas o então denominado "poeta menor" - pelos críticos franceses. Depois, em 1928, no seu ensaio clássico, "How To Read", EP incluía Laforgue no seu elenco básico de autores que levaram a linguagem para frente. Pound, ali, fizera uma divisão básica de três aspectos pelos quais se poderia · caracterizar a atuação de um escritor: melopéia (música), fanopéia (imagem) e logopéia (a dança do intelecto entre palavras). Dizia então o autor dos Cantos: "a não ser que eu esteja certo, ao descobrir logopéia em Propertius, devemos concluir praticamente que foi Laforgue quem a inventou". E Laforgue, segundo outro método de classificação, inaugurado por Ezra Pound, era isso mesmo: um inventor, aquele que nos dá a primeira demonstração de um novo processo.
Pound foi longe em matéria de Laforgue. O seu volume de poesias, Personae, evidencia quantas vezes afivelou a máscara laforguiana para escrever e, nisso, o maior produto talvez haja sido aquele outro poema seu com o mesmo título em francês, superior ao de Eliot, "Portrait d'une femme" ("Your mind and you are our Sargasso Sea"). Em 1917, também publicava na Little Review a sua tradução do poema "Pierrots (scene courte mais typique)". Dizia EP: "o verbalismo ruim é retórica, ou o uso inconsciente do clichê ou um mero jogo de frases. Mas existe o bom verbalismo, diferente do lirismo ou do imagismo e, nisso, Laforgue é um mestre". Ou então: "nove décimos dele é o crítico, lidando na maioria dos casos em poses e clichês. Tomando-os como seu tema e – e isto é o mais importante, quando pensamos nele como poeta - torna-os num veículo para a expressão de nas próprias emoções muito pessoais e de sua imperturbável sinceridade". "Parece-me que, em familiaridade com Laforgue, não se pode apreciar, isto é, determinar os valores positivos ou negativos da poesia francesa desde 1890."
E todo um mundo de sensibilidade, de savoir faire com as palavras. Como inventor, deve-se logo lembrar também, ao lado das observações agudas de Pound, que Laforgue foi um dos primeiros a utilizar o vers libre - que seria a grande jogada poética (e início de crise do verso) no primeiro quarto do século XX. Ou então a sua preocupação com as palavras-valise, com a montagem de termos ou a criação deles: alguns exemplos instigantes: lunologues, sangsuelles, lune-levante, violuptés, sexiproques ou ennuiversel.
"Sou apenas um ser lunar" - assim começa um dos seus poemas. Pierrô, a lua, o lamento - porém outro dos grandes aspectos importantes de Laforgue é a sua distorção do lirismo até as últimas consequencias. A seriedade do trato com o lírico recebe o seu molho de ridículo, de ironia, de humor que não deixam de refletir a visada cética, mesmo a impotência de ser aquilo que exatamente satiriza no dia a dia poético. As locutions, as complaintes vêm imersas nisso: o homem impõe, o poeta põe. Jogo de palavras, trocadilhos, mas não parando aí, na habilidade artesanal. Notar o elemento do diálogo dentro da estrutura do verso. Talvez ninguém antes haja feito o mesmo, em que tal competência avulta num dos seus maiores poemas, "Une autre complainte de Lord Pierrot": "Et si ce cri lui part: 'Dieu de Dieu que je t'aime! /- Dieu reconnaîtra les siens. 'Ou piquée au vif: / - 'Mes claviers ont du coeur, tu seras mon seul thème' / Moi: 'tout est relatif'". Essa uma amostra instigante da dicção laforguiana, praticamente inédita na época (Corbiêre, talvez ainda maior do que ele, outra redescoberta poundiana, estava mais sob a égide de Yillon). E tal dicção abriu um ciclo; o Mauberley, que é o maior poema de Ezra Pound, está em grande parte marcado por ela. Parafraseando o Mauberley, a propósito de EP: "His true Penelope was Laforgue".
Sim, o mot juste.
Na verdade, essa dicção era extremamente pessoal (como também pessoais os usos dos recursos literários e gramaticais): não a encontramos, entre os simbolistas, quer em Yerlaine, em Mallarmé, em Rimbaud. Um pouco antes, já havia algo disso em Corbiêre, porém num sentido diverso de apropriação. Na poesia alemã, havia Heine - todavia mais cantabile. Finesse, esprit, humour; não foi à toa que Pound fez questão de também ressaltar a importância de Laforgue para a prosa, pois aquilo que classificou como logopéia leva, incontinênti, a determinadas aferições, próprias ao romance e até ao teatro.

Pedras de toque

Elefante de Jade. olho ao meio sorridente. / Meditava sob rico sempiterno pêndulo, / Bom Buda degredado julgando ridículo / Que se pranteie aos Nilos de poentes do Oriente / Quando pende o crepúsculo ("Complainte des pubertés difficiles").
Se meu ar lhes diz qualquer coisa. / Não precisam se apreender; / Eu não o possuo por pose; / Sou a mulher, não me conhecem ("Notre Petite Compagne").
Cauteriza e coagula / em vírgulas / Suas lagunas de cerejas / As felinas Ofélias / As órfãs em folia ("Stérilités").
Madona e miss / Diana-Artêmis / Santa Vigia / Dessas orgias / Jettatura / De baccarats / Dama bem lassa / Desses terraços / Filtro atiçante / Versos brilhantes / Rosácea e cúpula / De salmos últimos / Olho de gato / Desses resgates / Seja ambulância / De nossas ânsias / Seja edredão / Do Grã-Perdão ("litanics des premicrs quartiers de la lune").


Um ligeiro exhibit, com a tentativa de reviverter em português a fabulosa parafernália verbal de Laforgue, na qual também a rima rica, a rima-surpresa, se constitui em elemento-chave para a estrutura do texto. De qualquer forma, o melhor será sempre relê-lo, procurar apreender aquela sua permanente concreção da poesia, já que representa, em grande parte, a vertente instigante, vamos dizer, feijão-com-arroz, ou seja, o método de nomear-contrapor imagens, substantivos concretos, a fim de exprimir sentimentos, genericamente rotulados em palavras abstratas.

Correio da Manhã
20/08/1967

 
G. S. Fraser "The modern writer and his world" - Criterion Books
Jornal do Brasil 18/08/1957

Sophokles – “Women of trachis”
Jornal do Brasil 03/11/1957

Piet Mondrian
Jornal do Brasil 01/12/1957

The Letters Of James Joyce
Jornal do Brasil 12/01/1958

O poema em foco – V / Ezra Pound: Lamento do Guarda da Fronteira
Correio da Manhã 05/10/1958

Erza Pound, crítico
Correio da Manhã 11/04/1959

Uma nova estrutura
Correio da Manhã 31/10/1959

"Revista do Livro", nº 16, Ano IV, dezembro de 1959
Tribuna da Imprensa 13/02/1960

E. E. Cwnmings em Português
Tribuna da Imprensa 04/06/1960

O último livro de Cabral: “Quaderna”
Tribuna da Imprensa 06/08/1960

Cinema e Literatura
Correio da Manhã 07/10/1961

Um poeta esquecido
Correio da Manhã 24/03/1962

A Grande Tradição Metafísica
Correio da Manhã 05/05/1962

Reta, direto e concreto
Correio da Manhã 06/06/1962

A Questão Participante
Correio da Manhã 18/08/1962

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