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Poesia e história

A história da poesia, assim como a História em si, nunca foi uma só versão. Mesmo a memória de história funciona de acordo com determinadas perspectivas de uma época; por isso, a história é refeita constantemente, em face da revalorização de idéias ou estilos ou ao trabalho de pesquisa. É só lembrar, no caso da Inglaterra, os poetas metafísicas, que, tendo pertencido ao período elisabetano, ou pós-elisabetano, que, havendo representado um dos períodos mais inventivas e ricos da linguagem poética de todos os tempos - entre eles John Donne, talvez o maior poeta de toda a literatura em lingual inglesa - só foram praticamente redescobertos quase três séculos depois, isso é, nesse século, graças em grande parte à acuidade de T. S. Eliot ou, ainda antes - não dentro de uma visão tão sistemática - por Ezra Pound, que, no seu ABC of Reading, colocava o notável "The Extasie", de Donne, entre os poemas básicos da língua. E o próprio Pound, com os seus erros e acertos, talvez o maior crítico pragmático da poesia moderna, criou vários capítulos novos, não só para a literature em língua inglesa, mas de outros países. Foi assim que devolveu à crítica francesa a poesia de Laforgue e Corbiêre, dissecada em sua devida importância, ou que refrescou a memória dos italianos a respeito de Cavalcanti.
Da mesma maneira, a história da poesia brasileira refaz-se incessantemente. Até porque a inexistência praticamente de crítica literária no Brasil antes do século XX, tornou obrigatório que isso acontecesse paulatinamente.
Há pouco, Augusto e Haroldo de Campos consumaram a redescoberta de Sousândrade, o poeta brasileiro que, pelo
Inferno de Wall Street, foi o mais importante para a sua época entre os que já tivemos. Pois Sousândrade foi revolucionário na forma (a montagem de palavras, a variação tipográfica, pluralidade de idiomas dentro de um mesmo poema ou as citações de autores) e no fundo (a visão infernal da dinheirocracia do mundo capitalista), numa época em que a irresponsabilidade estética, aliás, espichada até mesmo à nossa atualidade, valsava com Casimiro, ao som do sabiá de outro maranhense, literariamente muito menos ilustre, Gonçalves Dias, e dos vários participantes do incrível Castro Alves. Comprova-se que o sr. J. G. de Araújo Jorge teve azar. Se tivesse vivido cerca de um século atrás, não seria apenas o grande sucesso, de leitura que é, além das fronteiras da Central do Brasil: estaria incluído em todos os livros didáticos e escolares, juntamente com os Casimiro, Gonçalves e Castras. Mas isso que aí está é o nosso sistema de ensino. Sousândrade não figura nos livros escolares, mas, por seu turno, os pobres alunos são obrigados a aguentar os versos de Gonçalves de Magalhães, tido como precursor, aqui, do romantismo, o que é uma informação oficializada, tão tola quanto arbitrária, pois Gonçalves Magalhães, na realidade poderia ser tudo, isso é, não foi nada. Por isso é até uma injustiça se falar hoje em dia tão mal dos parnasianos, pois esses pelo menos eram objetivos em sua fatuidade: cultivavam a forma. E vai se ver com certo cuidado, Bilac não é tão ruim assim, Vicente de Carvalho tem quatro ou cinco sonetos interessantes. Alberto de Oliveira, idem, idem. E Raimundo Corrêa não era certamente um mau poeta.
Também na área do nosso simbolismo, Augusto de Campos devolveu à história a excelente imagem do baiano Pedro Militão Kilkerry, que - caso, nessas classificações algo desnecessárias, Augusto dos Anjos não seja considerado simbolista - é o nosso maior poeta dessa escola, o único de estirpe mallarmaica. Diante dele, Cruz e Souza empalidece de fato e Alphonsus mais ainda.
Mesmo com relação ao século atual, a história vai sendo drasticamente reformulada. O movimento de 22 foi de suma importância no sentido de que, pela primeira vez, os poetas brasileiros se afinavam em bloco com a realidade. Começaram a ter uma perspectiva universalizante em clima dos fatos ocorridos no exterior e o verso livre constituiu uma lavagem cerebral na mentalidade então vigente de poesia-fôrma (quando devia ser a de poesia-forma). Mas também a partir de 22, menos de cinquenta anos após, comprova-se que ahistória exige ser rescrita. De saída, logo o caso de Luiz Aranha Pereira, que exatamente parou de escrever poesia na época em que o movimento se desfechou. Luiz Aranha, só com um livro publicado, de nome
Cocktails, com poemas esparsos em revistas, mormente a Klaxon, continua esquecido quando - embora, sem aquela quantidade física que se denomina corpo de obra - mediante uns poucos poemas, se revela um dos grandes do espírito 22. Assim são, como peças longas perfazendo uma espécie de época moderna mediante a técnica da montagem, a "Drogaria de Éter e da Sombra", o "Poema Giratório", e o "Poema Pitágoras", foi também o "Poema Pneumático" e mais alguns outros, recolhidos inclusive há muito por Manuel Bandeira, em sua antologia dos bissextos. Aranha lembra muito o Apollinaire de "Zone", e Pound e Maiakóvski. O próprio Mário de Andrade, que se detém bastante em sua poesia, no ensaio a ele dedicado ou em A Escrava que não era Isaura, não compreendeu, na época, as implicações daquela poesia.
E a figura de Mário de Andrade merece ligeiro volteio histórico. Relida hoje, a sua poesia cresce no tempo, enquanto sua prosa vai perdendo a contextura. A poesia de Mário ainda desperta a surpresa, com lances de montagem e ritmo. Están viva, aguda. Já a sua prosa, pela qual é mais saudado, não implica o mesmo. Macunaíma, rico no detalhe, continua como o grande e pretensioso fracasso estrutural. Amar, Verbo Intransitivo é um bom livro, tem atmosfera funcional, e nada mais. Nem seus contos mexem céus e terras.
O outro Andrade, Oswald, é da máxima importância. Longe - longe, melhor romancista do que Mário. E só agora está sendo reeditado, após um black-out tanto indesculpável, quanto inexplicável. Atualmente, tentar comparar Mário com Oswald, na prosa, é quase o mesmo como antigamente tentavam comparar o incrível mecejanense, José de Alencar, com o grande Machado. Estamos comentando, aliás, apenas em termos de relações: é evidente que Mário de Andrade é muito mais escritor do que Alencar.
Na poesia, Oswald também oferece uma dimensão muito importante. Incrível como, a respeito de 22, se fale tanto em Graça Aranha e Ronald de Carvalho e Oswald fique jogado na sombra.
É preciso - de uma vez - dar a devida importância a Noel Rosa ou Orestes Barbosa, e ver que eles são muito melhor do que um Augusto Frederico Schmidt. Assim é que Vinicius fez muito bem em cair no samba quando viu que a sua poesia (muito boa em todas as primeiras fases) tinha acabado. É preciso notar que existem poetas atuais, cuja obra está mal divulgada e estudada. É o caso da fase pré-concreta de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, cuja poesia versificada tem alguns pontos luminosos da língua, o mesmo ocorrendo com o que deixou Mário Faustino e com o Ferreira Gullar de A Luta Corporal. Esses cinco poetas, marcando uma geração que poderia ser a de 1950, com vanguarda ou sem vanguarda, engolem tranquilamente seus antecessors de um quarto de século, com a exceção de João Cabral, Drummond, Bandeira e de lnvençâo de Orfeu, de Jorge de Lima. Décio Pignatari, ainda no âmbito da poesia dita discursiva, já era o nosso maior inventor que apareceu depois do início, noutra água estrutural, do ciclo cabralino. É preciso descoser o fundo da nossa história.

Correio da Manhã
18/12/1966

 
G. S. Fraser "The modern writer and his world" - Criterion Books
Jornal do Brasil 18/08/1957

Sophokles – “Women of trachis”
Jornal do Brasil 03/11/1957

Piet Mondrian
Jornal do Brasil 01/12/1957

The Letters Of James Joyce
Jornal do Brasil 12/01/1958

O poema em foco – V / Ezra Pound: Lamento do Guarda da Fronteira
Correio da Manhã 05/10/1958

Erza Pound, crítico
Correio da Manhã 11/04/1959

Uma nova estrutura
Correio da Manhã 31/10/1959

"Revista do Livro", nº 16, Ano IV, dezembro de 1959
Tribuna da Imprensa 13/02/1960

E. E. Cwnmings em Português
Tribuna da Imprensa 04/06/1960

O último livro de Cabral: “Quaderna”
Tribuna da Imprensa 06/08/1960

Cinema e Literatura
Correio da Manhã 07/10/1961

Um poeta esquecido
Correio da Manhã 24/03/1962

A Grande Tradição Metafísica
Correio da Manhã 05/05/1962

Reta, direto e concreto
Correio da Manhã 06/06/1962

A Questão Participante
Correio da Manhã 18/08/1962

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