A semana de arte moderna na contramão da história e outros ensaios
autor: Franklin de Oliveira
Editora Top Books
Há muito, Franklin de Oliveira pontifica no terreno do ensaio e da crítica. A sua preocupação com os fundamentos estéticos, que lhe são básicos, socorre-se também das convergências formalistas, históricas e filosóficas. E por que não? Políticas. Aliás, ele mesmo tem sido, no corer de longo tempo, um dos grandes editorialistas políticos de nossa imprensa. E, na linha identical de engajamento diante dos altos problemas, lançou há quase três décadas um livro que traduz o libelo contra a morte da memória nacional.
Agora, retoma com "A semana de arte moderna na contramão da história e outros ensaios". Um livro que, a começar por aquele do título, possui vários capítulos polêmicos - o que não constitui novidade com relação a seu autor. Pois, em nosso meio cultural, oscilando entre o carreirismo e o. conformismo, é muitas vezes necessário, obrigatório, ser polêmico. The armed vision: o olhar equipado.
Também nesse volume, Franklin surge mais descompromissado, ou seja, mais cronista e menos scholar; mais opinativo e menos cientista. Ao mesmo tempo, dá uma contribuição concreta para o desenho do passado, relatando fatos e descrevendo personalidades, como no caso de Almir de Andrade, Pontes de Miranda, Graciliano Ramos ou Otto Maria Carpeaux.
No caso desses dois últimos, além da célebre e saborosa história do "outrossim" e a invectiva do Velho Graça, voltam à baila os períodos áureos do “Correio da Manhã". E, especialmente, Carpeaux. Assim como o tcheco Vilem Flusser, o húngaro Paulo Rónai, o vienense Carpeaux chegou ao Brasil, estudou e rapidamente dominou o nosso idioma e - a par dos livros, ensaios e artigos sobre literatura, música, política etc. - tornou-se também outro de nossos grandes editorialistas.
Guimarães Rosa, por seu turno, não poderia estar ausente de um livro dessa natureza, feito por Franklin. Para muitos, a admiração pelo autor de "Grande sertão: veredas" seria exagerada. No nosso caso, o solidariedade é plena. Guimarães Rosa, com o romance citado e mais contos e novelas, continua sendo o maior ficcionista de toda a lingual portuguesa, em todos os tempos: "aragem do sagrado/ absolutas estrelas".
No tocante às veredas polêmicas, além das "distorções" do Padre Antônio Vieira, poderia-se destacar a defesa de Coelho Neto e a carga contra os modernistas. Possivelmente, alguém viria a pensar que Franklin está pondo uns contra os outros. Mas, não é isso. No que se refere a Coelho Neto, ele está apenas tentando colocar em evidência a teoria da "incontemporaneidade do contemporâneo" e procurando mostrar que, apesar dos tiques e delírios paranasianos, uma certa parte da obra daquele escritor resiste à erosão do tempo.
Franklin não faz por menos, ao anunciar, numa breve nota introdutória ao volume, que "o processo de revisão da patuscada de 22 creio que se inicia com este livro". Mais ainda. "Este não é um livro para os até hoje deslumbrados com a farsa de 22. Foi escrito com o pensamento voltado para os homens sérios deste pobre país". De fato, não pretende deixar pedra sobre pedra daquilo que teria sido uma revolução literária e artística em nosso Brasil, na São Paulo de 1922, e que já ensejou compêndios sobre compêndios, destacando-se entre eles, mais recentemente, os de Mário da Silva Brito.
Nem a famosa d. Lálá, de Oswald de Andrade, escapa da pecha de ter sido chupada do "Engole homem", de Adelino Magalhães; aliás este último teria também influenciado a prosa antropofágica do mesmo Oswald. Por outro lado, o "Juca Mulato", de Menotti Del Picchia, seria uma espécie de "A ceia dos cardeais", "com respingos melífluos de Catulo da Paixão Cearense". O poeta futurista italiano Marinetti, guia iluminado da turma, era de terceira classe e, pior, caixeiro-viajante de Mussolini. Enfim, Mário de Andrade havia caído em arrependimento pelas travessuras e Drummond fazia críticas. Segundo Franklin, daquele som e fúria só se salvaram "Macunaíma", de Mário, e "Martim Cererê", de Cassiano Ricardo.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se o movimento de 22 parecia farra e folia, faltava embasamento filosófico e muita coisa era para épater, em contrapartida sacudiu o marasmo provinciano, trazendo idéias instigantes e novos fatores para encarar o problema estético. A obra poética de Luís Aranha, Mário e Oswald era invenção. E o mesmo Oswald, apesar das suas injustiças, inconsequencias e contradições, criou uma prosa requintada, telegráfica, explosiva. Quanto a Tarsila, sua obra ficou. Em suma, não se sabe se Drummond e outros teriam existido sem 22.
O livro de Franklin vale também por isso: um convite exaltado à polêmica, ao debate, num meio literário ainda afogado em afagos.
O Globo
20/06/1963