Através desse seu ultimo livro de poemas, A Difícil Manhã – edição da Livros de Portugal, Cassiano Ricardo vem, novamente, evidenciar que, entre os nossos poetas ainda ativos da linha 22, é quem mantém a sua obra, no momento, mais viva: em desenvolvimento, em marcha, renegando a posição estática de soluções-padrão, em favor da permanente dialética. Não uma dialética de superfície, extraída de idéias que se depreendem numa linear motivação discursiva, mas aquela dialética de formas que anima e reanima o aparelho circulatório de uma obra em pulsação constante. Também a prova de fôlego e lucidez de um escritos que, desde a primeira arrancada (Dentro da Noite), sempre se mostrou inconformado com um conceito de rumo definitivo, isto é, as soluções ad eternitatem, os repisados compassos, enfim, elementos e relações imutáveis para uma mesma estrutura da linguagem. Pelo contrario, nele, encontramos aquela salutar disposição em aferir para o seu instrumento tudo que surge capaz de implicar novas situações para a mencionada dialética de formas. Destarte podemos verificar uma série de fases fundadas em diversas orientações de pesquisas: a vertente conloquial, o poema conceitual, o soneto (ativado, geralmente, de modo original), a fixação imagética (fanopéia), a utilização do espaço, uso expressional da letra, palavras-valise, apelo às possibilidades de imprimir uma função orgânica e, não, simplesmente métrica, ao emjambement e a tmese, as denominações, principalmente no sentido de erguer uma espécie de ciclo mitológico na ambiência nativa verde-amarela – tudo isso conferindo ao todo, a esse amplo corpo de obra, um caráter multiforme, multifacial. Daí, uma constatação a que se chega: no tocante ao detalhe, versos isolados (touchstones), poucos poetas, em nossa língua, nivelando-se a Cassiano Ricardo. Alguns flagrantes de todas as fases, assim o atestam:
o sol me agride, o azul passa da conta
***
Gota da monotonia
por um cão de telha torta.
Pancada de mão vadia
batendo em alguma porta.
***
Parecia uma cobra mitológica
fulgindo sob a escama d’água espessa
e com a cauda enrolada na cabeça
***
onças ruivas saltavam a esmo os gaviões retiniam
***
No fim um preto estrelado
de sangue cai de mãos postas
rezando a virgemaria
***
Azul pernalta
Girassol
de cabeça erguida
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Uma formiga
em forma de g
***
Pra mim, um pavão
de cabeça encoberta
pela chuva, em arco-
íris, a cauda aberta
***
céu-zôo-dia-cal
***
Uma folha sobre outra
e já uma árvore de feridas
por entre os anjos de azulejo
e as borboletas repetidas.
***
Um sol de luz canina
numa clave de fá
***
Zanza na fruga o cisso ingrave
***
Nessa mesma linha dinâmica – dicção, ação – Acham-se vários poemas, agora, em A Difícil Manhã, com recursos, especialmente de montagem e aglutinação, bem exemplares de uma técnica já bem apurada. Para isso, sem duvida, a identificação do autor com alguns objetivos do concretismo poético em muito contribuiu. Possuindo um feixe de experiências e realizações, há muito solidificado, raízes fundas de uma vivencia com o instrumento, não seria licito esperar, de sua parte, uma adesão decisivamente radical no terreno pragmático. Ela emerge na medida de uma coerência com o próprio desenvolvimento de sua obra.
Vamos, então, destacar poemas e trechos isolados, inclusos nesse volume, os quais devem merecer melhor atenção em termos de dicção atuante ou de uma formulação de vanguarda:
Poema em Xis, como o titulo já indica, uma peça estribada na recorrência constante do elemento x (letra), com uma reiteração conceitual da expressividade da citada letra como escama de um peixe, até o arremate conclusivo – cada x uma cicatriz –, ressaltando também a utilização da técnica de repetição, a concretizar a arquitetura do peixe-tema (um x dourado outro verde, repisado, assim, dois a dois, quatro vezes).
No poema Ode (P) Fluvial extraímos uma passagem que bem demonstra o domínio rítmico perfeitamente conjugado com o desenrolar imagístico:
(Água que é uma palavra gutural,
mal pronunciada, em silabas de bolhas.
Que borriga de sal as lingual grossas das folhas)
Uma Luz na Fronteira retoma uma vertente das mais típicas de Cassiano Ricardo: a invocação, o arauto, com sua nomenclatura peculiar e a reiteração, no caso, do fim de cada quadra, da palavra luzazul uma feliz associação de duas palavra (substantivo e adjetivo qualificativo) comportando um efeito concreto – lida do contrario, a partir do fim, a palavra é a mesma – em consonância com o sentido conceitual-discursivo, que joga com uma nivelação de opostos. A seguir, um trecho:
Tanto a quem busque sua noiva
por dentro da cerração,
ou lhe traga um buque aflito
de vandas cerúleas na mão;
l u z a z u l
O Beco da Lua, com uma série de recursos aliterativos, tmeses de efeitos e palavras compostas, também pede realce, enquanto em A Cidade Feroz, deparamos com um dos momentos mais felizes do poeta, nesse A Difícil Manhã, quando a justaposição de palavras se realiza com senso de universidade e sentido dinâmico de adequação semântico-sonora:
Fero feérico
feroz
cidade
ferocidade
quer se queira uma microestrutura, mas já, um poema dentro do outro, sintetizando as implicações discursivas.
Suinara é outra peça a apresentar soluções instigantes, como a seqüência noit’alva, penalva, alva-dia. Já A Água Tem sede se consistem num daqueles poemas vazados numa exemplar contenção cabralina.
A Morte do Ator Bufo é outro dos pontos altos do livro, principalmente na passagem final, com duas seqüência de flashes em conflito, poema-cinema com bastante força sugestiva:
Noite de vidro de aumento
Margaridas
morridas
Gaveta preta
gordas mariposas
velas acesas
pingos nos “i i”
***
Manhã de enterro
(foto-fátuo)
Magnólia
grand-guignólia
ros’atriz
Colhidas ainda em trechos de várias peças, encontramos uma série de achados na esfera montagem e/ou portemanteau: rápido-azul-fagulha, cavalo crianalvo, mari’esposa, sal’sujo, lágrimas-vésper, flormorfose.
Finalmente, deve-se ressaltar a parte do volume que abrange os sonetos, amiúde servindo a uma concepção fora dos moldes, o antilírico, destacando-se Belerofonte e o Soneto Irreversível e, também, o reaparecimento do antigo Serenata Sinténtica, praticamente um poema concreto e, agora, em nova disposição espacial.
Correio da Manhã
04/03/1963