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Quatro poetas. Quatro lances

Nestes últimos meses, foram lançados ou reeditados alguns volumes de poesia, que, sob um aspecto ou outro, voltam a colocar em evidência autores e obras, cuja presença marcou o nosso processo criativo. Foi assim que tivemos, pela Difusão Européia do Livro, a reedição de todas as poesias de Oswald de Andrade, a figura mais radical e das mais importantes do movimento de 1922; pela Editora José Álvaro, a reedição de A Luta Corporal, de Ferreira Gullar, acompanhada de novos poemas em verso, escritos depois das fases do concretismo, neoconcretismo e não-objeto; pela Civillzação Brasileira, a reedição de O Homem e Sua Hora, de Mário Faustino, acompanhado do lançamento de outros poemas seus, publicados em jornais ou inteiramente inéditos; e, pela Editora do Autor, foi lançado mais um livro de João Cabral de Melo Neto, A Educação Pela Pedra.
A releitura, hoje, da obra poética de Oswald de Andrade, composta, allás, em grande parte, por minipoemas ou poemas-pílulas, ainda constitui uma fonte de surprêsas para uma nova geração que se forma, já habituada às constantes de uma infra-estrutura de comunicação tão diversa daquela vigente na época do autor. E se Oswald ainda é capaz de surprêsa, mostra-se, em decorrência, ainda apto a desferir informações de primeiro grau.
Oswald é importante porque foi o nosso primelro poeta que, sistematicamente, contribuiu para "despoetizar" o poema, isto é, aquil que exatamente, muitos anos mais tarde, João Cabral de Melo Neto, num dos seus maiores poemas, Alguns Toureiros, condenava no verso final. Oswald - agudo, ferino, humorista - promoveu criativamente uma lavagem geral da poesia, escoimando-a daqueles recursos anódinos de um lirismo piegas e putrefato. Em matéria de grandeza de obra (e, aqui, mencionamos apenas a obra poética, pois consideramos o Oswald romancista ou prosador ainda mais radical estruturalmente do que o Oswald poeta), talvez não haja chegado ao mesmo nível de um ou outro representante de 22. Contudo, pelas soluções isoladas, pela atitude (nêle, vida e arte, misturavam-se amiúde), foi o mais importante. A idéia de condensação vinculada à poesia encontrava nêle um exemplo habitualmente preciso. Inatantâneos ou flashes poéticos, chegando, inclusive, ao radicalismo do poema de uma só palavra: aquêle cujo título é Amor e cuja palavra-poema-rima é humor. Também a ideia de.montagem construtivista, que o aproximava dos momentos agudos da vanguarda poética, repisava-se ao longo de sua obra, sendo o exemplo talvez mais feliz aquêle fragmento "América do Sul - América do Sal - América do Sol".
Oswald de Andrade, vítima de um alentado black-out editorial, na expressão de Haroldo de Campos, só agora retorna desvendado para as novas gerações. E volta extremamente atuaI.
A Luta Corporal foi lançada pela primeira vez há cêrca de doze anos, quando, então, a assimm chamada geração de 45 dominava a praça editorial, com o seu neoparnasianismo, com as subsucursais de Eliot, Lorca ou Rilke infernizando o panorama. Naquele tempo somente já vigoravam, em contraposição ao imobilismo criativo, a obra de João Cabral que, embora um contemporâneo, era um contraste dentro de sua geração, e os poemas do grupo Noigandres, formado então por Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, já pertencentes a uma geração mais jovem. Foi quando Ferreira Gullar, com a A Luta Corporal, somou mais um ponto para as trincheiras da criação e do inconformismo. Embora as infiuências discerníveis de João Cabral, Fernando Pessoa e da poesia francesa de vanguarda, era um livro extremamente pessoal. Um livro de choque, não só pelas invenções que implicava, mas também pelo vocabulário acressivo, pelo sentimento de nausea e de destruição. Alguns dos poemas em prosa nele contidos ou outros como O Galo ou o do cerne claro podem ficar nas antologias. E a parte final do livro, com os poemas especializados, traduziu a ponte que o conduziria à integração inicial ao movimento concretista. Posteriormente, Gullar divergiu da linha racional do concretismo e, juntamente com Oliveira Bastos e Reinaldo Jardim, fundou a variante do neoconcretismo, de duração efêmera. A seguir, entrou na linha radical do não-objeto - uma espécie de retomada do dada, anterior àquela consumada pela pop-art.
Os novos poemas de Ferreira Gullar representam uma volta ao verso, encaixada naquela visada de uma poesia participante. É a fase mais vazia do poeta, embora, aqui ou ali, o seu talento possa realçar algum detalhe. De qualquer forma o seu relançamento vale pela Luta Corporal, um dos livros mais importantes de nossa poesia desde 22.
Antes de falar do Mário Faustino poeta, vale mencionar o Mário Faustino crítico. Pois, durante quatro anos, como crítico militante e de caráter pragmático, foi o maior de todos no Brasil. Na sua página, Poesia Experiência, incentivou os novos que julgava de talento e derrubou ou reduziu inúmeros poetas consagrados por uma espécie de crítica cingida aos elogios fáceis, aos chavões ou ao tráfico de cumprimentos da vida literária. Entre os poetas que cultivavam e iniciaram a divulgação da obra de Ezra Pound, foi aquêle que, em sua atitude, mais se aproximou do autor dos Cantares.
Como poeta, Faustino não estava alistado propriamente na vanguarda criativa, embora a apoiasse e até a incentivasse; o seu artigo publicado na época do lançamento da exposição concreta, aqui no Rio, em 1957, marcou época. A poesia sua, sofrendo a marca da dicção e do vigor metafórico da grande tradição inglêsa, podia ser considerada, na classificação de Pound, a de um mestre, não a de um inventor. Possui excelente domínio do verso, sem fossilizá-lo em normas acadêmicas ou em regras de métrica. E, agora, no volume de seus poemas recém-editado, ocorre o contrário do caso de Ferreira Gullar; Os poemas posteriores ao livro reeditado:
O Homem e Sua Hora, são melhores; marcam uma evolução, uma maior personalização e autodespojamento. Foi um poeta de touchstones, aquelas pedras de toque (trechos de grande intensidade poética) que sempre publicava em Poesia Experiência, a fim de, em nível didático, exemplificar o maximum de outros poetas. "Talvez um outro outubro me descubra / equilibrado entre os pratos claros de minha libra e em vez de escorpiões / picando o pôr do sol tenhamos pombas / anunciando o fim da tempestade" - êste um dos momentos de elevada voltagem de Faustino. Ou como aquela "madrugada cruel de um albatroz / zombado pelo sol".

A morte prematura de Mário Faustino (aliás, tão vaticinada em seu próprias poemas) foi uma imensa perda. E os seus ensaios de crítica e também as suas traduções de outros poetas, geralmente de grande nível, exigem uma edição urgente.

Educação Pela Pedra - Cabral é o poeta do rigor, da secura, da contenção e, especialmente, na invenção dentro da própria estrutura do verso, com seus poemas-novelo, quando a temática, a área semântica se amplia e se multiplica na medida em que as palavras se desenrolam pelas linhas. Cabral; exatamente um poeta, por e para a pedra.

Na base de feitura de um mínimo múltiplo comum da obra, é o maior poeta brasileiro vivo. Basta selecionar alguns poemas seus de uma precisão estrutural inédita, de uma agudeza nos símiles das mais originais: A Fábula de Anfion, A Psicologia da Composição, A Antiode, Alguns Toureiros, Uma Faca só Lâmina, A Palo Sêco, De um Avião, O Cão Sem Plumas, A Palavra Sêda, etc., compõem um corpo compacto de coerência criativa, de um processo pessoal, peculiar no formular uma linguagem.

Depois de uma fase mais redundante, que foi aquela última logo após Quaderna (um grande livro), contendo Dois Parlamentos e Serial, a Educação Pela Pedra marca um retorno ao Cabral mais positivo, embora sem o nível do mencionado Quaderna. Lá estão a obsessão pelo rigor, a palavra puxa palavra e a sua permanente meditação de estirpe mallarmaica a respeito do próprio ato de fazer poesia. A técnica de forjar imagens de substantivos concretos para conferir um sentimento ou idéia abstrata, tão típica em Cabral, com êsse exemplo instigante: "o sol em Pernambuco leva dois sóis / sol de dois canos, de tiro repetido". Ou o excelente verso de abertura do poema Uma Mulher e o Beberibe: "Ela se imove como o andamento da água". Concreto dentro da acepção discursiva, de pedra. É só ver o exemplo numa das quadras do Retrato do Escritor, descrição filofenomenolosófica do tema: "Solúvel, todo: na tinta, embora sólida, / da rotativa, manando seu auto-escrito / (impresso, e tanto em livro-cisterna / ou jornal-rio, seu dia-não renova, mas reforça um dos ciclos mais lucidamente criativos da poesia nacional: o ciclo cabralino. A poesia resiste: a luta pela mante é líquido''. A Educação pela Pedra pedra ou a educação corporal - ou o homem
e a sua hora de poesia pau brasll.

Correio da Manhã
04/12/1966

 
G. S. Fraser "The modern writer and his world" - Criterion Books
Jornal do Brasil 18/08/1957

Sophokles – “Women of trachis”
Jornal do Brasil 03/11/1957

Piet Mondrian
Jornal do Brasil 01/12/1957

The Letters Of James Joyce
Jornal do Brasil 12/01/1958

O poema em foco – V / Ezra Pound: Lamento do Guarda da Fronteira
Correio da Manhã 05/10/1958

Erza Pound, crítico
Correio da Manhã 11/04/1959

Uma nova estrutura
Correio da Manhã 31/10/1959

"Revista do Livro", nº 16, Ano IV, dezembro de 1959
Tribuna da Imprensa 13/02/1960

E. E. Cwnmings em Português
Tribuna da Imprensa 04/06/1960

O último livro de Cabral: “Quaderna”
Tribuna da Imprensa 06/08/1960

Cinema e Literatura
Correio da Manhã 07/10/1961

Um poeta esquecido
Correio da Manhã 24/03/1962

A Grande Tradição Metafísica
Correio da Manhã 05/05/1962

Reta, direto e concreto
Correio da Manhã 06/06/1962

A Questão Participante
Correio da Manhã 18/08/1962

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