Se ontem falavam do poeta americano Ezra Pound (1885-1972) como o grande aval da intelectualidade à noite fascista e esqueciam de ler seus versos, hoje esquecem esse imbróglio ideológico e falam de sua poesia sem fronteiras. Não há mais um túnel no final da escuridão do panorama editorial brasileiro. Vários e intensos pontos de luz prometem fazer o dia, e Os Cantos, de Pound, lançado agora no Brasil pela Nova Fronteira, 15 mil versos traduzidos pelo crítico José Lino Grünewald, formam uma chama incomum, permanente perturbação. "São todos heréticos, Santo Padre, mas não são maus." A frase, no original em italiano, tomada do Canto 86, define com precisão a postura transgressora do poeta, que falou com fúria da civilização corrompida e de valores ambíguos na qual a usura capitalista, mais selvagem que a mais selvagem das criaturas, é o elemento putrefativo. Grünewald não hesita em considerar Pound o maior poeta participante anticapitalista do século, um dos motivos pelos quais vestiu a camisa negra.
O erro de avaliação foi pago em vida, os discursos inflamados em prol do fascismo lhe valeram a internação num hospício e o desprezo da pátria traída - quando morreu as autoridades americanas não se manifestaram (eram os anos Nixon, de tanta corrupção), apenas o MSI, o partido neofascista da Itália, onde morou, o homenageou. Felizmente a pátria literária não é a pátria política, e Ezra Pound ficou como exemplo de uma ação criadora, uma vida indissociada de seu ofício.
Em O ABC da Literatura, um de seus raros livros que até há pouco estavam nas livrarias, Pound classificava os escritores em seis categorias. A compreensão das duas primeiras, os inventores e os mestres, implicava o entendimento da atuação periférica das demais. Os inventores seriam aqueles que descobriram um novo processo ou cuja obra apresenta o primeiro exemplo conhecido de um processo. Os mestres seriam os que combinam um certo número de tais processos e que os usam tão bem ou melhor que os inventores. Ezra Pound, e Os Cantos provam, está entre os inventores, um trator que abre clareiras na floresta das letras.
O carioca José Lino Grünewald, 55 anos, passou vinte meses, entre 1983 e 1985, às voltas com as dificuldades interpostas por Pound, numa média de cinco horas diárias. Os obstáculos não eram tanto a estrutura sintática do texto quanto os seus referenciais. "O mais complexo é sem dúvida o universo das pessoas, acontecimentos, dados culturais que exigem consultas repetidas e minuciosas." Grünewald garante que chegou a despender uma hora para verter uma linha de um dos cantos prosaicos.
Os Cantos podem ser divididos entre poéticos e prosaicos, estes os mais exigentes, "dada a sua montagem de relatos e a massa de referências". O tradutor cita como exemplo o Canto 74, um dos mais trabalhados, que na edição realizada pela Universidade de Berkeley, Estados Unidos, é apresentado com 505 verbetes. Parafraseando o verso com que o poema se inicia, a tradução foi uma espécie de enorme tragédia de sonho nos ombros curvados de Grünewald. Pound é uma torrente que não reconhece limites em seu discurso, ele mistura Homero com Dante, Confúcio com Ovídio, introduz passagens da história americana ou chinesa, italiana ou inglesa, poetas, políticos, artistas, prostitutas, deuses. O resultado é a massa com a qual é feita a matéria humana.
Alguém já definiu os cantos como a representação de uma época sem enredo, adequada a uma civilização sem moral, desagregando-se via Embratel, diante de toda a aldeia global aturdida. Ele reagiu à sua moda de bambinovecchio de Hailey, Idaho, o Einstein da poesia moderna, segundo o americano E.E. Cummings, e o homem para o qual T.S. Eliot dedicou o clássico The Waste Land, aliás, copidescado por Pound. Como poucos, gritou contra a usura, ou o nome moderno que tenha hoje a besta de cem patas à qual se dedicam os alcoviteiros do poder. Versos de Pound…
O poeta começou a compor os seus cantos em 1904, com uma forma bem maleáve1 para conter de tudo, e os concluiu com sua morte, uma verdadeira obra em progresso, que não é apenas tinta sobre papel, é vida. Grünewald transformou os 120 cantos em 920 laudas de 30 linhas cada, o que dá um volume alentado de 851 páginas e de certa maneira impede a edição bilingue, sempre recomendada em relação à poesia. Vale o peso.
Revista IstoÉ
17/12/1986