Escreve poemas, traduz Pound, é crítico de arte e é de Copa
Logo às hom da manhã, o tradutor, crítico e escritor José Lino Grünewald, 52 anos, vira em uma taça de cristal azul, com uma pedra de gelo, a primeira dose de uísque do dia. Carioca de Copacabana, morador há 20 anos na Rua Gastão Baiana, ele sofre ao ver o bairro perder o apogeu: - Copacabana ainda tem um lado interessante, mas tem também muitos dramas - diz José Lino. - Os administradores regionais não têm voz ativa, não podem fazer nada. Debruçado em sua janela, de onde vê a fronte ira entre Copacabana, Lagoa e Ipanema, José Lino aponta a água limosa que sai de um prédio de construção, no Corte do Cantagalo, um convite ao escorregão: -Nossos problemas são inúmeros - ele diz . - O lixo, por exemplo, é recolhido depois da 1 h da tarde. Os condomínios expõem as latas nas ruas, e os mendigos vasculham o lixo para comer, o que é constrangedor. Os incineradores de antigamente poluiam, mas resolviam. José Lino acha que o bairro deveria ser dividido em várias regiões :Idministrativas, para onde seriam encaminhados os problemas que a Prefeitura não consegue· resolver. Outro absurdo é o que se passa na Gastão Baiana, uma ladeira larga e íngreme, de pouco movimento, com mão única da Lagoa para Copacabana, quando poderia ter mão dupla: - Para se chegar a Ipanema, é preciso dar a volta - ele critica. - Pegar o túnel, sair na Sá Ferreira, descer Avenida Copacabana, ir até a Rua Bolivar e pegar depois a Toneleros. É uma piada. O morador sai mesmo na contramão, dando boas gargalhadas. Se dependesse de José Lino, Copacabana seria outra coisa. Voltaria, inclusive, a ter cassinos abertos para acabar com o subemprego. Ele não tolera o procedimento dos guardadores de automóveis: - A Rua Miguel Lemos já não é o que foi outrora - lastima. - Mas, de alguma maneira, é ponto de convergência de Copa. Pena que ninguém pode parar lá. É logo abordado pelos guardadores. José Lino diz que, apesar do dinheiro andar curto, ainda freqüenta o Bar do Osmar, na Miguel Lemos, berço da caipirinha. Ele tem certeza "absoluta" que foi lá onde inventaram amassar o limão, com o pilão, no copo. E acaba por lastimar também a capirinha de hoje, que já não leva mais pilão: - No Bar do Osmar a gente ainda consegue uma misturália divina - ele diz. - São pintores de paredes conversando com psiquiatras, o Ronald Xavier de Lima dando papo ao jornaleiro. É o que o bairro ainda tem de bom. Ele gosta também de ir a restaurantes, como a Marisqueira, o Monte Cario e o Pomme D'Or, quando o dinheiro sobra para comer fora. Do contrário, José Lino se concentra nas suas coisas. No momento, ele traduz Todos os Cantos, de Ezra Pound, para a Editora Nova Fronteira. O livro em inglês tem 800 páginas, e o trabalho deve ser entregue em janeiro de 1985. Deve dar umas 1 mil laudas José Lino usa quase ao mesmo tempo três máquinas de escrever. A Royal, holandesa, dura há 50 anos e nunca deu defeito. A Diana, também importada, tem 30 anos. E para variar, ele critica a Olivetti: - E um horror esta máquina - diz. - Tem três meses e já está gagá. Há muitos livros espalhados pelas estantes do apartamento de José Lino, que também integrou o movimento concretista de 1957, com Ronald Azeredo, Aroldo e Augusto de Campos, e Décio Pignatari. Na época, eles lançaram a revista Noigrandes para a publicação dos poemas. Suas poesias foram publicadas também no Peru, Alemanha, Espanha, Checoslováquia e Inglaterra. Seu último livro brasileiro saiu no ano passado, Transas, Traições, Traduções: - Gosto também de colecionar música - ele diz. Tenho mais de 600 gravações de Carlos Gardel, e tudo que possa existir sobre a música popular brasileira. Ele mostra um dos armários da casa, com os discos em 78 rotações, arrumadinhos e catalogados. José Lino não é egoísta e deixa qualquer conhecido utilizar suas fontes de pesquisas. É uma forma , aliás, de ajudar o sistema de ensino, "há um século atrasado": - Meus filhos, por exemplo, não transam colégios - diz. - Eles só freqüentam as aulas por que sabem que o diploma é importante num país atrasado feito o Brasil. José Lino é pai de Rodrigo, fotógrafo, e Bernardo, artista plástico, de 20 e 19 anos.
O Globo
03/10/1983
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