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Um arauto da modernidade

Por Ivan Junqueira

“Os panos da noite de ébano não tornaram a descer ainda sobre a sombra que nada mais percebeu a não ser a hesitante oscilação prestes a se interromper de um pêndulo oculto que começa a perceber a percepção de si próprio. Mas cedo ela percebeu que era em si própria, na qual o clarão de sua percepção se afundava como sufocado e ela voltava a si mesma. O ruído, de imediato, escandiu-se de uma forma mais definitive. Mas, na medida em que se tornava mais certo de um lado, e mais apressado, sua hesitação crescia num modo de regaçar, que preencia o intervalo desaparecido; e, tomada de dúvida, a sombra se sentia oprimida por fugaz nitidez, como pelo prosseguir da idéia surgida dos panos que embora fechados, abertos ainda no entando, girariam longamente sobre si mesmos, para chegar a isso, que vertiginosa imobilidade. Enfim um ruído que parecia um absurdo escapar da absurda condensação dos precedentes se exalou, mas dotado de um ânimo conhecido, e a sombra nada ouviu além do bater regular do que parecia permanentemente fugir como o esvoaçar prolongado de algum hóspede da noite desperto de seu pesado sono: mas não era isso, inexistia sobre as paredes luzentes qualquer trama, à qual se pudesse vincular as patas aracnídeas da suspeita: tudo era limpo e luzente; e se alguma plumagem jamais roçara por essas paredes somente poderiam ser as plumas de gênios de uma espécie intermediária ansiosa de concentrar toda a poeira num lugar especial, a fim de que essas sombras, dos dois lados multiplicadas ao infinito, surgissem como sombras puras a carregar cada uma o volume de seus destinos, e a pura clareza de sua consciência. O que havia de claro era que essa estada concordava perfeitamente consigo mesma” dos dois lados as miríades de sombras iguais, e de seus dois lados, nas paredes opostas que se refletiam, duas brechas de sombra maciça que deveria ser necessariamente o inverso dessas sombras, não sua aparição, mas sua desaparição, sombra negativa delas próprias: era o lugar da certeza perfeita.”.

Poemas, de Stéphanne Mallarmé. Tradução e organização de José Lino Grünewald. Nova Fronteira. 144 pgs. Cr$ 1860,00

Reduzida e concentrada, mas de avassaladora in fluência sobre a poesia moderna que alguns pretendem, inclusive, dela originar-se em linha direta -, a obra poética de Stéphane Mallarmé (1842-1898) permanece até hoje como um enigma somente em parte decifrado, apesar do esforço exegético de seus inúmeros intérpretes. Mas é um erro ou no mínimo uma leviandade atribuir-lhe a condição de mestre absoluto de toda a poesia que hoje se escreve, empora esteja ela na raiz de algumas tendências e correntes dessa mesma poesia, como é o caso, por exemplo, do nosso concretismo ou da linguagem hermética dos maiores poetas italianos deste século, entre o quais Urgaretti, Montale e Quasimodo, bem como de alguns autores de lingua inglesa e espanhola, conquanto a expressão destes últimos o seja também por influência do surrealismo, não se podendo esquecer aqui os exemplos de Dylan Thomas e Garcia Lorca. O certo é que todos esses poetas, em determinado momento de sua formação, leram Mallarmé. E aqui, a propósito do próprio Mallarmé, convém recordar o que dele disse um de seus maiores herdeiros, Valéry, ao afirmar, em sua "Situação de Baudelaire" ("Variedade II", 1930), que: "Nem Verlaine, nem Mallarmé, nem Rimbaud teriam sido o que foram sem a leitura que fizeram das 'Flores do mal', na época decisiva." E logo adiante: "Enquanto Verlaine e Rimbaud continuaram Baudelaire no plano do sentimento e da sensação, Mallarmé o prolongou no domínio da perfeição e da pureza poética." Cumpre assim deixar claro que, se boa parte da poesia moderna radica naquela saudável práxis de "dar um sentido mais puro às palavras da tribo", a essência dessa mesma poesia deita suas mais fundas e remotas inervações nos versos dos "Tableaux parisiens" de "As flores do mal" e nas proposições estéticas do "Poetic principie", de Edgar Alan Poe.
Essa rápida digressão faz-se necessária porque, em sua organização desses "Poemas" de Mallarmé, o tradutor - e também poeta de ilustre cepa José Lino Grünewald, como que tende a nos mostrar apenas uma das faces da multifacetada moeda mallarmaica, chegando mesmo ao ponto de afirmar que "em função de estrutura e invenção de novos elementos para o processo estético, então "Um lance de dado ", de fato, representa o início da verdadeira poesia moderna". Ora, o revolucionário e polêmico poema de Mallarmé constitui o fundamento, isto sim, de algumas dentre as muitas tendências da poesia moderna, mas de modo nenhum a única e arbitrária chave para todos o seus enigmas e multiformes florações. O próprio concretismo, que dele se considera herdeiro, reduz-se atualmente, segundo cremos, a um insolúvel impasse metalúdico, e não raro nos parece que nada existe de tão abstrato quanto um poema concreto. Além disso, é preciso compreender que aquilo que Mallarmé fez com a língua francesa e aqui ele se aproxima de Racine e, conseqüentemente, mais uma vez de Baudelaire – não pode ser absorvido em sua totalidade semântica e fonética por outras línguas. Está coberto de razão Otto Maria Carpeaux quando nos diz, em sua "História da literatura universal", que a "música de Mallarmé é intelectual e classicista como a lingual francesa, é tão francesa como a música de Debussy" e, nesse sentido, "é Mallarmé o sucessor de Racine; a sua poesia é a música da Ile-de-France", não havendo assim a "possibilidade de imitá-la em língua estrangeira".
A organização que desses poemas mallarmaicos fez Grünewald tem, pois, esse polêmico caráter ideológico, o que não chega a ser propriamente um mal, já que instrui até mesmo aqueles que porventura dela possam discordar. O que aqui não se pode contestar é a extrema e venturosa perícia do tradutor, cuja arte nos proporciona soberbas transcriações de poemas tão difíceis e intricados quanto "Brinde", "Angústia", "A cabeleira vôo de flama ao extremo", "O virgem, o vivaz e o belo neste dia", "Homenagem" ou "Introduzir-me em tua história", bem como dos "Poemas em prosa", do enigmático e esotérico "lgitur" ou do inacabado "O livro", isto para não falarmos das notas que o tradutor acrescenta a cada trecho resgatado e que nos dão conta de seu invejável domínio no que se refere à bibliografia mallarmaica. E isso é também de importância crucial para todo aquele que se disponha a aventurar-se em universo tão problemático. Tradutor competente e experimentado, responsável por uma versão antológica dos "Cantos" de Pound, bem como do próprio Mallarmé, além de outros poetas ingleses e franceses, Grünewald ratifica aqui todo o seu talento e a sua inteligência poética. Uma altíssima lição de como aplicar aquela coleridgiana "suspension of disbelief" e, através da argúcia lingüistica do
homo ludens, resgatar o que criara em outro idioma o homo faber. E se alguém puder entender o que de fato tentamos dizer, entenda que não hesitaremos em afirmar que preferimos a tradução de Grünewald ao original de Mallarmé justamente por tratar-se de uma tradução.

O Globo
20/01/1991

 
Poesia
Estado de Minas 10/09/1961

Eruditos & eruditos
Carlos Heitor Cony Correio da Manhã 28/09/1963

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Transas, traições, traduções
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Nogueira Moutinho Folha de S.Paulo 09/12/1984

Diário das artes e da impensa
Paulo Francis Folha de S.Paulo 12/01/1985

Igitur, um Mallarmé para iniciados
Salete de Almeida Cara Jornal da Tarde 08/03/1985

Grünewald traduz Ezra Pound
Jornal do Brasil 12/03/1985

O grande desafio de traduzir Pound
Sérgio Augusto Folha de S.Paulo 16/03/1985

O presente absoluto das coisas
Décio Pignatari Folha de S.Paulo 06/09/1985

Ezra Pound - entrevista
Gilson Rebello Jornal da Tarde 26/10/1985

Pound, traduzido. Uma façanha ou loucura?
Isa Cambará O Estado de São Paulo 05/12/1986

J. Lino inaugura forma de pagamento
Ângela Pimenta Folha de S.Paulo 07/12/1986

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