Ezra Pound levou 50 anos para escrever Os Cantos, uma epopéia sem enredo onde revisita várias culturas, da inglesa a chinesa, a mitologia greco-romana, os poetas provençais, tratador econômicos e uma infinidade de citações. Valeu a pena: a obra revolucionou toda a poesia contemporânea. Quatorze anos após a morte do poeta, o também poeta José Lino Grünewald traduziu para a editora Nova Fronteira os 120 cantos, num volume de 847 páginas. Que pode ser um maravilhoso presente de ano novo, pelo menos para quem tiver a coragem de mergulhar em suas águas.
Um ano e oito meses e mais de 30 livros consultados, entre dicionários e enciclopédias – tudo isso foi necessário para que José Lino Grünewald traduzisse Os Cantos de Ezra Pound para o português. As dificuldades começaram no primeiro verso que abre os 120 cantos incluídos no volume de 837 páginas – e pela primeira vez editados em nosso idioma, pela Nova Fronteira. José Lino perdeu muitas horas debruçado sobre o ver “And then went down to the ship”, cuja tradução literal seria: “E então eles desceram para o navio”. Fiel aos princípios de tradução do próprio Pound, José Lino preferiu manter a estrutura do verso com palavras monossilábicas. E a versão final ficou: “E pois com a nau no mar”.
Na opinião do tradutor, o poema de Pound tem em sua estrutura uma dialética de formas: “O universo referencial” – diz ele, no prefácio do livro – “é imenso e caleidoscópio. São invocação ou transcrições ou menções de nomes de pessoas e de lugares, de obras, de eventos”. Para facilitar o aprendizado desse universo poundiano, José Lino valeu-se principalmente dos dois volumes escritos por Carroll F. Terrell – A Companion to the Cantos of Ezra Pound – que relacionam, em forma de verbetes, as citações feitas pelo poeta em seus cantos. Para se ter uma idéia das minúncias do trabalho, só o canto 74 tem 505 verbetes: “Pound escrevia calcado em sua vasta cultura. Ele conhecia o latim, o grego, o provençal e outros idiomas, sem se preocupar se o leitor tinha conhecimento da matéria, ou seja, de política, de arte, enfim, de todos os assuntos universais.
Apesar de admitir que Os Cantos partem do princípio de que não tem estrutura (o poema já foi classificado como “épico sem enredo”), José Lino diz que Pound baseou-se principalmente na obra de autores clássicos – como Homero (a Odisséia), Ovídio (Metamorfoses), a obra de Confúcio e Dante (A Divina Comédia): “Outra característica do poema é o uso quase constante do verso livre. Pound, que conhecia todos os recursos de rima, optou por não usar a metrificação nestes poemas”.
Como poeta, também, além de tradutor, ensaísta, jornalista, crítico de cinema e de música – José Lino Grünewald revela que usou algumas rimas ao traduzir o poema para o português: “Me permiti alguma liberdade, mas sem fugir às idéias que Pound procura passar em cada verso”. Ele lembra que a principal preocupação de Pound foi desmistificar o capitalismo: “Os Cantos é um poema pagão, e voltado para o social. E por isso mesmo acho importante ressaltar o fato de que o leitor não pode deixar de ler este livro só porque Pound foi um defensor do fascismo. Na época, quando defendeu as idéias fascistas de Mussolini, ele achava que essa ideologia podia revolucionar o mundo. Essa sua atitude foi uma espécie de ‘desvio ideológico’, que não pode ser levado em consideração a ponto de não se reconhecer o seu valor”.
Defendendo as opções políticas de Pound, José Lino lembra que muitos intelectuais e personalidades da vida política brasileira também foram fascistas: “Dom Hélder Câmara, Alceu Amoroso Lima, Santiago Dantas e muitos outros defenderam o fascismo. Após a derrota de Hitler e Mussolini, mudaram de opinião e nem por isso deixaram de ser reconhecidos. Portanto, acho que não podemos agir dessa forma com Ezra Pound. Sua obra tem que ser lida por todos”.
O Estado de São Paulo
31/12/1986