Pound, todos os ‘Cantos’ reativados
Sorte de José Lino Grünewald, empreender a tradução de todos "Os cantos" de Ezra Pound. Ele, com Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e alguns outros sempre trataram o autor como um dos pilares de sua linguagem "concreta", despojada, semântica e sintaticamente de base ideográfica. , O total dessa obra mais importante de Pound, que José Lino acaba de verter para o português, perfaz um volume de 840 páginas - uma proeza. De Ezra Loomis Pound (1885-1972) pode-se dizer tudo, menos que não seja um dos gigantes da literatura e - da cultura norte-americanas. Um gigante, por isso mesmo, ainda difícil de se avaliar. De ambições descomedidas, não há como ignorarmos, em sua vida e obra, a relação psicologicamente aguda entre a expressão estética e o poder. Pound saiu do ldaho (espécie de Piauí dos EUA) com a disposição de "dominar o mundo". Sua vivência da criação literária é desde cedo irredutivelmente aristocrática e ele se arma de uma erudição espantosa. · Faz-se, aos poucos, um mestre do pastiche e da tradução. Dos clássicos gregos e latinos, de chineses, franceses, italianos. Propõe-se, na verdade, reescrever a síntese criticamente "retificada" (make it new) das civilizações. E encontra, pelo caminho, um método original: o de glosar por justaposição e por conotaçao (ideas in action) o universo literário que, implacável, recompõe. Quer uma "nova ordem", moderniza (fragmentariamente) os seus meios, resume, concentra - mas também acumula e esbanja. Nos planos ético e ideológico, seu discurso acena com um substrato de fundo confucionista, de elitismo esclarecido, cioso da tradição e do equilíbrio social. "Os cantos" consubstanciam a realização maior dessas pretensões, a "Divina comédia" (seu paradigma) de um mundo novo, sua leitura épica e definitiva. A tarefa enfrentada por José Lino Grünewald revela um longo e louco esforço de criatividade, rigor e virtuosismo. Nos grandes conjuntos, nos "mínimos detalhes". Nas repetições obsessivas, na busca de neologismos, trocadilhos, trocas de letra, colagens, cortes, complicados jogos, recursos, intenções equivalentes - o melhor possível - aos do texto poundiano. O ganho é incrivelmente alto, "Os cantos" estão aí em todas as suas línguas, reativados por um brasileiro.
O Globo
04/01/1987
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