O debate sobre a televisão ainda continua na ordem do dia. O que fazer? Como tirá-la do tal baixo nível dos programas? Como transformá-la em instrumento, não só de diversão, mas de cultura e educação? Bah!
A montagem do inútil atarantamento é alucinada. Animadores excitam o público e assustam algumas autoridades. Os principais representantes da chamada alta costura e de desfile de fantasias no Municipal foram proibidos de aparecer no vídeo sem que se saiba em nome de que, porque ou pra que. A nota divulgada pelos jornais fala na extensão da medida a "outros do gênero". Que gênero (ou, "que é que é isso, minha gente?", diria o Geraldo José de Almeida)? Só se "gênero" virou sinônimo de sexo. Mas, aí, vem a constatação de que a censura acredita no primado do binarismo biológico, desmentido até, no correr de milênios, não apenas pelos pobres humanos mortais, mas por mamíferos e insetos.
Um ligeiro Ibope, realizado entre pessoas normais de bom senso, curso superior, etc (nem figurando, nisto, intelectuais, professores ou jornalistas, porque estes, por princípio, já são contrários a atos dessa espécie), evidenciou o repúdio à proibição. Os censores, por seu turno, parece que desejaram manifestar coerência. Pois se mutilaram um filme admirável, como Sunday, Bloody Sunday (ménage à trois, onde figuram mais de três combinações sexuais), não resistiriam a ver Denner interpelando um representante do Imposto de Renda, numa das mais deliciosas cenas de tevê neste ano. Alegam outros, por debaixo do pano, que foi a preocupação em se ver crianças imitando o desmunhecamento. Ora, se assim fosse, a humanidade seria composta só de marginais, matadores, porque não há criança que deixe de brincar de bandido e mocinho. E, quanto ao aspecto heróico ou marcial, nada de prejudicial - basta lembrar como ocorreu a histórica resistência de Tebas.
De qualquer forma, o veto aos costureiros e especialistas em fantasia foi o dó de peito do ridículo, da falta de seriedade em torno do assunto. É justamente a preocupação com o moralismo imediatista que denuncia o subdesenvolvimento.
Aquilo que, na tevê, causa enfado ou repulsa, tanto a intelectuais ou autoridades, não pode ser corrigido de cima para baixo. O mecanismo repressor, como tônica única, não educa; apenas coage. Coação estimula simplesmente ausência de ação, ou seja, inanidade, estaca zero.
Sair da estaca zero traduz o óbvio; e para longo prazo. Investimentos maciços em educação, liberdade, democracia, etc. A estatização dos canais, com vistas à tal educação feita de cima para baixo e, possivelmente, depotencializando o veículo, na mimesis do reco-reco das salas de aula ou de conferência, seria o suicídio do projeto a curto prazo. Apagar-se-iam os vídeos, todo mundo voltaria ao rádio; proibido rádio, à leitura impressa; daí em diante até a Idade da Pedra.
O programa do Chacrinha evidencia como é possível ser criativo ao nível de consumo ultrapopular. Só quem está na era do puro primado do alfabeto não entende isto. Pode parecer um paradoxo, mas é exatamente nele que está um dos germes autênticos para o desejado aculturamento da tevê, a questão da forma. O resto é quase o resto, salvando-se o telejornalismo, alguns filmes, os tapes esportivos desse desperdício com o grande veículo do espetáculo íntimo.
O antiespetáculo é a solenidade em si. Esta somente interessa aos seus poucos e privilegiados protagonistas ou, em tom menor, àqueles que comparecem a fim de cumprir obrigações sociais ou políticas. E é em tom de solenidade que se quer enfrentar o problema da televisão.
O Estado de São Paulo
10/05/1972