AS novelas de televisão, no sentido de estruturação do plot, ou seja, do enredo, do jogo de situações, pouco difere da novela radiofônica; cujo paradigma ficou sendo Renúncia, de Oduvaldo Vianna, com Ismênia dos Santos e Celso Guimarães nos papéis principais. Estávamos em 1942-43 e, para acompanhar o romance e os desencontros daqueles dois, toda a casa debruçava-se sobre o rádio: pais, filhos, empregadas, quiçá o cachorro.
A imagem da TV deu um grande reforço ao gênero; reforço mais, no entanto, em muitos casos, de moldura do que de elemento dinâmico. As histórias se repetem sempre, com o reforço de caras e cores. Existem brilhantes exceções, como é o caso de Gabriela, dirigida por Walter Avancini, ou O Casarão, por Lauro Cesar Muniz. Ambas, aliás, já foram reprisadas em versões reduzidas. Há também o caso de Roque Santeiro, uma esperança esmagada pela Censura. Enfim, ainda merecem registro O Espigão ou Dancing Days, esta última outro grande sucesso.
As imagens nas telenovelas estão sempre trabalhadas em inobjetável nível técnico e a média das interpretações vai, muitas vezes, acima do razóavel. Até alguns anos atrás, era indiscutível a maior naturalidade dos nossos atores na TV, do que no cinema. Na direção, é que ocorre um evidente exagero na utilização do campo e contracampo, na base de primeiro plano e plano americano. Mas como há tempos nos dizia Walter Avancini, o long-shot - onde se pode, num plano, ampliar a carga de significados - não é de fácil apreensão para espectadores de menor formação cultural. Por outro lado, o espichamento forçado do enredo, a fim de atender a personagens ou situações que caíram no agrado do público, só faz prejudicar o gênero.
Por que, em paralelo, não se tentar mais vez a trama policial no vídeo? O mistério é um filão e sempre fica funcional no âmbito novelesco. O Rebu, também de Avancini, foi uma experiência sofisticada, porém desigual. Mas sempre, com todos os riscos, vale partir para um pouco mais de criatividade.
Última Hora
27/09/1983