DEPOIS da TV, a própria publicidade se constitui na maior forma de cultura do século. Quando falamos em cultura, não existe o referencial de algo do que se entende como "sério". Cultura é isso mesmo - o que o homem faz.
Na televisão, os anúncios de cigarros seriam estarrecedores para São Thomaz de Aquino. Trata-se da implacável balela institucionalizada. Pessoas que possuam um mínimo senso de ridículo sabem que não é por fumar Hawaí que um pobre-diabo enfrenta três meliantes dentro da noite. Pessoas razoavelmente bem-nascidas também sabem que fumar Marlboro não promove ereção a nenhum pobre mortal. Aquele chapelão - imitando o americano - o pobre contribuinte e o mísero espectador. Em suma, todos sabem que o cigarro é deteriorante e deletério. Os seus ànúncios são meramente escorchantes e debochativos.
A televisão está aí. Através dela, ficamos cientes de que fumar traduz uma modalidade de machismo. O homem que fuma fornece a impressão de que, melhor que ninguém, saberia o que na cama (depois na maca) fazer com as mulheres. "Ledo engano"- como diria Camões e, no ensejo, nosso finado Nélson Rodrigues. Fumar é isso - e somente isso - viva maneira de intoxicação. Mas os anúncios estão aí - perseguem o chefe de família em cada esquina.
O problema, no entanto, é complexo. Não se trata de apenas condenar os vendedores, os investidores de cigarros. Eles sabem - e são profissionais - que o vício acelera a intelectualização, a capacidade de trabalho. O vício - muito mais do que a maternidade - constitui a coisa mais nobre que o homem descobriu na terra. Até os animais dele sabem. E o caso do teste de Cooper - sabidamente de alta toxidez. Depois de correr cerca de 30 quilômetros, os seres deságuam em endorfima, substância que o cérebro ejacula e fornece o tal relaxamento.
Sejamos coerentes. Ninguém é contra os vícios e apenas encara os santos anúncios como desportista do tédio. A dança da propaganda não é um meio de viciar - só vender aquilo que o ser humano mais preza. O vício.
Última Hora
04/11/1983