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Gigolô de outrora no veículo de agora

Embora âquém de seu "Grande Senão: Veredas ", a nova realização de Walter Avancini denota pelo menos o "savoir faire" para o "divertissement”.

Vendo TV, a pessoa mediana fica muito mais educada do que obrigada a ler (?) mini-alfarrábios pretensamente didáticos. Mas, no entanto, comprova-se que os donos e/ou manipuladores do poder ainda permanecem preocupados com o Livro - o sacrossanto livro. Depois da passagem da mecânica (Newton) para a eletrodinâmica (Einstein), o alfabeto, o texto escrito, continuam evidentemente a ter seu lugar. Acontece que não mais traduz um primado para os saberes - sem falar nos sabores do intelecto, capaz de ser alimentado por uma forma de percepção mais ampla. A inteligência percebe relações, apreende a conotação entre vários e heterogêneos elementos; e, daí, nasce uma idéia - funcional ou antifuncional (nada de falar de “boa" ou "má", porque senão estaríamos falando de "conteúdos", estes, sim, o "waterloo" das boas intenções no terreno da criação).
A televisão e a propaganda são as maiores formas de cultura do momento. Quanto mais avançada (ou industrial) a sociedade de hoje, mais a sua ''maioria silenciosa" é por elas envolvida. E, para os cineclubistas - saudosistas, o anelo dos cortes, fusões, "fade-ins", "fade-outs", enfim, quase tudo da "avant-garde" da segunda ou terceira década do século, está suprido por um bom anúncio, via TV, de cigarros, desodorantes, dentifrícios e até calcinhas & cuecas. Tudo de graça para o espectador, dispensando exegeses impressionistas ou estruturalistas. Ou seja, para explicar a "mensagem". Ou seja: o meio é o meio. Sem meios-termos.
Esse mesmo, já mencionado meio constitui o audio-visual: sua maior quantidade de elementos permitem, em paralelo, maior variedade de estruturas. A partir daí, podem ser alimentadas as concepções ditas mais profundas, através da escrita. Em suma, todo um sistema de alfabetização e de aprendizado setorial firmado na leitura, apresenta a elementar tendência de desvincular-se da realidade do aluno. Hoje, torna-se insuficiente o mero blá-blá-blá do b a ba. Melhor até seria o inverso, a fim de despertar uma consciên-cia crítica.

Contradições culturais

A cultura está no próprio veiculo; por isso, desnecessário ou expletivo discutir o "conteúdo" dos programas. Primeiro vem a assimilação do meio; depois, o próprio estar do público saberá expelir a grande maioria dos seriados enlatados que nos vêm de fora. Basta perceber o óbvio: que as nossas assim chamadas miniséries, embora em menor quantidade de produção, já são, em média, muito superiores como informação estética.
Investir na TV-E (Educativa) - esclareçam-se os governantes, vamos mais longe: investir em outros canais (educação) é muito menos inflacionário do que jogar o dinheiro pela tela, via Embrafilme. Os cinemas fechando... e muitos filmes aqui produzidos sem ter onde serem exibidos. Pois ainda existe um preconceito contra a TV, embora não exista contra os video-cassetes; porque, no caso, contra a pirataria, já está, sonante, falando o dinheiro. É isso aí: dizia o produtor cinematográfico, personagem do notável "Le Mépris", de Jean-Luc Godard: "quando ouço falar em cultura, saco o meu talão de cheques".

Saudável amoralidade

Verdade que, neste País em desenvolvimento, com diversas realidades culturais e, assim, mais_ contradições e - também assim - lembrando o mesmo Godard, no desfecho de "Made in USA", ignora-se o que é "direita" ou "esquerda". Não é somente a Embrafilme um foco inflacionário de super-estrutura. Ainda permanecem outros exemplos, como Brasília, o uísque brasileiro, o campeonato nacional (construção de dezenas de estádios condenados a não ter gente) ou a proibição do jogo, dos cassinos - esta, sim, uma imoralidade que também prejudica a arrecadação pública e a assistência social.
Depois de ter realizado o maior filme brasileiro para TV – a adaptação do "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, Walter Avancini assumiu a trilha, via Marcos Rey, de "Memórias de um Gigolô". Embora esteja aquém do Sertão ou, voando mais atrás no tempo, da versão de "Gabriela, Cravo e Canela", de Jorge Amado, para telenovela, denota pelo menos o "savoir faire" para o "divertissement" (no que nos é permitido detectar mediante os cinco primeiros capítulos numa sequência de vinte).
O que marca principalmente "Memórias de Um Gigolô" é o fluir de sua leveza num tom saudavelmente amoral. Trata-se do óbvio - toda criação, em si, é amoral (como o radical amor) e por isso mesmo encarna uma forma de ética. Basta inovar Oscar Wilde que já dizia não haver "livros morais ou imorais e, sim, livros bem um mal escritos". O bordel mostra-se análogo a uma imensa casa de família, onde a abelha-rainha é vivida por Elke Maravilha que, num registro mais baixo do seu esbanjamento em programas de auditório, propicia um modo impecável de interpretação-clichê. Assim também Nei Latorraca, o primeiro gigolô.

Pitoresco e picaresco

Se o quinto capítulo cai de ritmo e de sabor quando o pano de fundo de entrecho desloca-se para o bairro italiano, os quatro iniciais mantêm-se esfuziantes, com as suas cores e tomadas, além das - pinceladas pitorescas e picarescas. Tudo é nostalgia e alegria, o passado reflui sem compromissos com o realismo histórico ou sociológico. E dentro do seu ângulo de visão, o naturalista Maupassant, de "Bola de Sebo" ou "As Jóias", haveria de bater palmas ao espírito das beldades e sua caftina. Afinal, o meretrício continua como o mínimo-múltiplo-comum de todas as profissões exercidas não apenas pelo amor à arte, mas em favor do ganha-pão, do melhorar ou subir na vida. E, nesse entrecho, todas parecem as "vocacionais" de Nelson Rodrigues.
O contexto prossegue reforçado pela imagem e pela faixa sonora. No primeiro caso, o rendimento fotográfico - sempre uma das grandes preocupações de Avancini -, tem o acréscimo da utilização dos filtros que geram uma tonalidade esfumaçada – aquele quase "fiou" a dar a idéia de distanciamento do tempo. No segundo, emergem músicas da época: o final da década de 20 em São Paulo. Nem todas correspondem rigorosamente ao período, mas, entre outras, lá estão "Eu Quero uma Mulher", de Delfino, "Pé de Anjo", de Sinhô (gozação ao China, irmão de Pixinguinha), tangos, como "Esta Noche me Emborracho", de Discepolo, "Noche de Reyes", de Jorge Curi e Pedro Maffia ou o internacional "Jalousie", do húngaro Jakob Gade.

Cinema engolido

Sem ser até agora algo de grande importância, "Memórias de Um Gigolô", com o seu alto nível profissional - desde o diretor, passando pelos roteiristas, técnicos e chegando até os atores - bem evidencia como a TV vai engolindo o cinema no papel de ículo e ambiência para a arte do filme. E quando os telões vierem aficar ao dispor de boa parte das pessoas, então já estará mais do que atravessado o Rubicon do óbvio. Enfim, com um público permanente de dezenas de milhões, que assim se sabem; porém espalhados, gota a gota, no otimismo dos recantos, das moradas.

Folha de S.Paulo
27/07/1986

 
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