Em meu ofício ou arte severa
Na sossegada noite exercido
Quando apenas ruge a lua e, ao leito,
Pairam os amantes com tôdas ânsias
Nos braços concentradas, eu trabalho
À luz cantante, nem por glória ou pão
Ou pela permuta e pompa de encantos
Ein palcos de marfim, mas pela paga
Simples em seu mais quieto coração.
Não ao orgulhoso, alheio à luz uivante
Escrevo nestas espumadas páginas;
Nem também ao cadáver altaneiro
Com seus rouxinóis e salmos, e sim
Aos amantes, seu braços circundando
Todos o padecer dos tempos, aquêles
Que não prestam louvor nem recompensa
Nem se importam com ofício ou arte.
ln My Craft or Sullen Art (Em Meu Ofício ou Arte Severa) é o mais famoso poema de Dylan Thomas, morto em 1953, em Nova York, aos 39 anos de idade, quando estava realizando um tour de recitais. No conjunto de sua obra em verso (também foi autor de contos, peças radiofônicas e de um roteiro cinematográfico jamais filmado), está presente ao desembocar da linha mais rica da tradição da poesia em língua inglêsa. É a poderosa dicção da vertente elizabethana, vazada na riqueza de imagens e de metáforas, os strong lined verses, seja dos poetas metafísicas, John Donne à frente, de John Webster e Ciryl Tourner, o barroco de Crashaw, o intelectualismo de Marvell, o wit de Herrick. Tal vertente, após ressonâncias no próprio Keats e haver influenciado a obra de Blake, caracterizou, no período vitoriano, o fabuloso Hopkins e, na poesia moderna, além de Hart Crane, especialmente Dylan Thomas.
Dylan Thomas, natural de Gales, viveu praticamente por e para poesia. Em Meu Ofício ou Arte Severa não deixa de refletir isso - o poema do escritor taciturno, que encara a sua arte, não como um mero arroubo de inspiração ou de loas de encomenda, mas como um ofício rigoroso, desenvolvido em solidão. Talvez êste poema não seja o mais representativo no que toca a algumas constantes do seu autor, mormente o fundo religioso e aquela busca de inocência da criança num mundo de imaginações torturadas. A sua importância (e talvez a sua fama) advém de ter sido a peça por excelência onde êle medita sôbre o ato de escrever. É um dos seus poemas menos herméticos, mas que não deixa, entretanto, de evidenciar a fôrça de sua dicção e de suas imagens instigantes. Exemplo: "the strut and trade of charms on the ivory stages" (permuta e pompa de encantos em palcos ele marfim).
Há críticos entusiastas de Dylan Thomas, como Elder Olson - que chegou até a escrever um livro premiado sôbre o poeta - pouco interessados em ln My Craft or Sullen Art, dando proeminência a muitos outros poemas. Todavia, êste último ficou - a tal ponto que tem uma expressão transcrita no próprio verbête de Thomas na Enciclopédia Britânica.
tradução e nota José Lino Grünewald