O poema em foco - VI / Pierre de Ronsard: Quando fores bem velha...
Quando fôres bem velha, à noite junto à vela,
Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando,
Dirás, cantando os versos meus e te enlevando:
"Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela".
Então nem haverá, ouvindo o recital,
Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta,
Que, com som do meu nome, não desperte atenta
A saudar o teu nome em louvor imortal.
Estarei sob a terra e, fantasma sem osso,
Pelas sombras dos mirtos terei meu repouso;
Tu serás à lareira uma anciã encolhida
Chorando o meu amor e o teu fero desdém.
Se me crês, não espere o amanhã também:
Vive, colhe desde hoje as rosas desta vida.
(Les Amours - Amôres de Helena, livro segundo - soneto XLIII)
Este soneto se consiste no poema mais famoso de Pierre de Ronsard (1524 - 1585), um dos grandes poetas da Pléiade (além dele, Du Bellay e Baif). É também um dos poemas líricos que se tornaram clássicos na história de tôda a líteratura.
Pléiade: criação e nova linguagem na estrutura do verso, quando o sonêto e o alexandrino começam a ganhar uma hegemonia na poesia francesa que durará séculos, indo praticamente até a idade contemporânea.
Conferindo inusitado espírito à poesia do século XVI, especialmente aquela de natureza amorosa, abandonando o modêlo petrarquiano, que dominava quase todo o continente, Ronsard, até por isso mesmo, era moderno em sua época. Conheceu a glória em vida como poeta, mas, logo após sua morte, caiu no desinterêsse e no esquecimento, só vindo a ser ressuscitado cêrca de dois séculos depois por Sainte-Beuve, que, inclusive, dedicou-lhe um sonêto. Ronsard atacou todos os gêneros e formas de construção em seu tempo: odes, sonetos, elegias, hinos, canções, epigramas, panfletos, epitáfios etc. Frederic Boyer, em seu livro sôbre êle, considera-o o poeta mais original da Renascença e assinala: "era cómico e cósmico, petrarquisante e "engajado", pagão e teológico, revolucionário e cortesão".
Quand Vous Serez Bien Vieille se consiste em um dos inúmeros poemas na série de Les Amours, dedicado geralmente às mulheres que lhe despertaram amor, como Cassandra, Marie, Astréia e, por fim, Hélène de Surgeres, dama de honra de Catarina de Médicis, a sua última e maior paixão. Ele, com 46 anos, ela, com 25, encontram-se pela primeira vez durante missa realizada na côrte. Helena acabara de perder o seu amante e apenas aceitava Ronsard na medida da glória. Este, sob o sentido patético daquilo que classificava como "minha última aventura", pagava com versos os favores de Helena: ma douce Hélène, non, mais bien ma douce haleine. O grande poeta obcecado pela velhice e pela morte, uma fixação temática que, aliás, vinha-lhe desde o tempo das Odes, como aquela mais conhecida, de número XVII, Mignonne, allons voir si la rose.
Nota e tradução José Lino Grünewald
Correio da Manhã
19/10/1968